O Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício de Alimentos é celebrado anualmente em 29 de setembro.A data foi proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) por meio da resolução 74/209 em dezembro de 2019, com o objetivo de promover a conscientização e a ação coletiva para reduzir as perdas na cadeia de abastecimento (colheita, transporte e processamento) e o desperdício no varejo e nos domicílios.
A iniciativa está alinhada à Meta 12.3 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que visa reduzir pela metade o desperdício global de alimentos per capita
O Brasil acompanha o calendário global e adota o dia 29 de setembro como o marco principal para debater a gestão de recursos alimentares, e também o Dia Mundial da Alimentação, em 16 de outubro, para jogar luz sobre a urgência do tema na realidade socioeconômica brasileira.
Os dados sobre o desperdício em território nacional são alarmantes e colocam o país na décima posição entre as nações que mais descartam comida no mundo.
O Brasil colheu em 2025 cerca de 345,4 milhões de toneladas, que referem-se estritamente à Safra de Grãos (soja, milho, arroz, feijão e algodão). Desse total de grãos, a imensa maioria não vai direto para a mesa das pessoas: grandes volumes viram ração animal (como o milho e farelo de soja), combustível ou commodities de exportação
Deste total, o Brasil produz anualmente cerca de 161,3 milhões de toneladas de alimentos para o consumo humano, mas estima-se que 55,4 milhões de toneladas sejam perdidas ou desperdiçadas ao longo de toda a cadeia de suprimentos. Isso significa que aproximadamente um terço de tudo o que é produzido no campo acaba indo para o lixo em vez de nutrir a população. Esse panorama gera um contraste severo e inaceitável em um país onde cerca de 25% da população ainda enfrenta a insegurança alimentar crônica ou restrições severas de acesso a refeições básicas.
A maior parte desse descarte ocorre muito antes de o alimento chegar ao consumidor final. Estudos detalhados pela plataforma Pacto Contra a Fome revelam que a cadeia produtiva responde por oitenta e quatro por cento de todas as perdas no país. Os produtores e a etapa de colheita lideram o descarte com 31,2%, motivados por padrões estéticos rigorosos do mercado que rejeitam alimentos considerados ‘feios’ ou fora do padrão de tamanho, mesmo que estejam perfeitamente nutritivos. A etapa de manufatura e abastecimento industrial responde por 21,5% do montante total eliminado.
Os processos pós-colheita, armazenamento e transporte representam 19,5% do desperdício total. Esse setor é fortemente prejudicado por gargalos estruturais históricos na logística nacional, como o uso predominante de malhas rodoviárias em más condições de conservação, frotas de caminhões antigas e desprovidas de sistemas adequados de refrigeração, além do acondicionamento inadequado em caixas que esmagam os produtos. Na sequência da cadeia, o varejo (supermercados e feiras) e os serviços de alimentação (restaurantes e cozinhas industriais) detêm uma fatia de 14,3% de responsabilidade, sofrendo com a manipulação excessiva por parte dos clientes e a estocagem ineficiente que gera vencimento de prazos de validade.
O consumidor final, no ambiente residencial, é responsável por 13,5% do total jogado fora no país. Nas casas dos brasileiros, os itens que mais sofrem com o desperdício são os perecíveis, englobando principalmente frutas, hortaliças, tubérculos e laticínios. Esse comportamento doméstico é impulsionado por fatores culturais profundos, como o hábito histórico de manter grandes estoques de comida por precaução inflacionária herdada de décadas passadas, a busca cultural por fartura excessiva nas refeições cotidianas e a falta de planejamento nas compras semanais, resultando no apodrecimento acelerado de vegetais na geladeira.
Para além dos impactos sociais diretos na fome, o desperdício em larga escala no Brasil acarreta consequências socioeconômicas e ambientais devastadoras. Sob a ótica ecológica, jogar comida fora significa desperdiçar volumes gigantescos de água potável, energia, fertilizantes e terras férteis que foram mobilizados na produção agrícola. Quando o alimento orgânico é descartado e destinado a aterros sanitários e lixões, sua decomposição anaeróbica emite grandes volumes de gás metano, um dos principais causadores do efeito estufa e das mudanças climáticas globais. Economicamente, o prejuízo financeiro anual é estimado em dezenas de bilhões de reais, onerando pequenos produtores e encarecendo o preço final dos alimentos para toda a população.
Reverter esse cenário exige um esforço conjunto que envolve políticas públicas integradas, modernização da infraestrutura de transportes, incentivos fiscais para a doação de excedentes comerciais seguros por parte de supermercados e redes de restaurantes, e uma mudança cultural urgente no comportamento de consumo. O combate à perda de alimentos não é apenas uma meta de sustentabilidade ambiental, mas um imperativo ético e econômico essencial para garantir a segurança alimentar e a dignidade de toda a população brasileira.
Como Engenheiro Florestal e Diretor de Sustentabilidade do Agronegócio e Infraestrutura da Academia Latino-Americana do Agronegócio- ALAGRO, entendo que este tema é assunto estratégico e deve ser tratado como política de Estado.
