Chegamos à véspera.
Depois de meses de discursos, promessas, pesquisas, denúncias, vídeos, decisões judiciais, aviões, banqueiros, bets, podcasts e uma quantidade industrial de indignação produzida para consumo imediato, a campanha eleitoral finalmente termina.
Amanhã será a vez do eleitor. E talvez essa seja a melhor notícia deste processo eleitoral.
Porque a política brasileira de 2026 conseguiu uma façanha curiosa: nunca tivemos tantos meios para os candidatos falarem diretamente com a população e, ao mesmo tempo, tivemos cada vez menos oportunidades de vê-los confrontados diretamente pelo adversário.
O não debate
O último debate presidencial da Globo simplesmente não aconteceu.
Lula já havia decidido não participar. Preferiu o Flow Podcast.
Flávio Bolsonaro, que dizia que iria, desistiu depois de decisões judiciais de última hora alterarem as condições do programa.
O TSE proibiu a emissora de manter uma cadeira vazia identificada com Lula e de dirigir perguntas ao candidato ausente.
Depois, o STF determinou a inclusão de Renan Santos no debate.
A Globo concluiu que as regras haviam mudado demais, tarde demais, e cancelou o encontro.
Resultado?
Lula falou sozinho num podcast. Flávio falou sozinho numa live.
Os dois chegaram ao fim do primeiro turno exatamente como as campanhas modernas parecem preferir: cada candidato diante da própria câmera, falando para a própria audiência, com a própria narrativa e sem aquele pequeno incômodo chamado contraditório.
Politicamente, é compreensível. Democraticamente, é pobre.
As últimas pesquisas
As pesquisas também chegam às últimas horas cumprindo seu papel e sofrendo o abuso habitual daqueles que gostariam que elas fizessem outro.
No cenário nacional, o Datafolha mais recente mostra Lula com 42% e Flávio Bolsonaro com 38%. Nos votos válidos, 45% a 40%. Num eventual segundo turno, 48% a 45%, dentro da margem de erro.
A Real Time Big Data, divulgada em 1º de outubro, apresentou outra fotografia nacional: Lula com 43% e Flávio com 39% no primeiro turno. Nos votos válidos, Lula chega a 46% e Flávio a 41%. Num eventual segundo turno, a Real Time registrou Flávio com 51% e Lula com 49% dos votos válidos, cenário de empate técnico considerando a margem de erro de dois pontos percentuais. Foram ouvidos 2 mil eleitores entre 26 e 30 de setembro.
Nada disso é resultado. É pesquisa.
Parece uma obviedade, mas durante campanhas eleitorais o óbvio precisa ser colocado sob escolta.
Hoje teremos novos levantamentos feitos pela Quaest e DataFolha. Amanhã teremos votos. São coisas diferentes.
E em Minas Gerais, onde a eleição presidencial permanece particularmente apertada, acaba de sair uma informação ainda mais atual.
A nova Real Time Big Data, divulgada neste sábado, 3 de outubro, registra Lula com 42% e Flávio Bolsonaro com 40% das intenções de voto no primeiro turno. Considerados apenas os votos válidos, Lula tem 44% e Flávio 42%. A diferença está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Num eventual segundo turno em Minas, o empate é absoluto: 50% dos votos válidos para Lula e 50% para Flávio. A pesquisa ouviu 2 mil eleitores mineiros entre 28 de setembro e 2 de outubro.
Portanto, Minas chega à véspera da votação exatamente como começou esta reta final: sem diferença estatisticamente segura entre os dois principais presidenciáveis.
Mas a Real Time trouxe também uma novidade importante para a eleição estadual.
No levantamento divulgado hoje, Cleitinho aparece com 45% das intenções de voto totais para o Governo de Minas. Considerados apenas os votos válidos, chega exatamente a 50%. Patrus Ananias aparece com 24% dos votos válidos.
Na pergunta espontânea, Cleitinho tem 35%, Patrus 20%, Kalil 5%, Mateus Simões e Flávio Roscoe 4% cada e Gabriel Azevedo 2%. Outros 20% ainda não souberam ou não responderam espontaneamente.
A pesquisa ouviu 2 mil eleitores entre 28 de setembro e 2 de outubro, tem margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Está registrada sob o número MG-02255/2026.
É uma fotografia diferente daquela produzida pelo Datafolha, que colocou Cleitinho com 40% dos votos totais e 49% dos válidos.
E aqui aparece justamente a cautela necessária.
Real Time: Cleitinho, 50% dos válidos.
Datafolha: Cleitinho, 49% dos válidos.
Os números parecem separados por apenas um ponto, mas nenhum deles autoriza decretar antecipadamente se haverá ou não segundo turno.
A pergunta mineira é simples: haverá segundo turno?
A resposta correta também é simples: ninguém sabe.
Para o Senado, a situação é ainda mais aberta. Marília Campos, Carlos Viana, Aécio Neves e Domingos Sávio aparecem próximos.
E boa parte do eleitorado ainda não consegue citar espontaneamente sequer um nome. É provavelmente a disputa em que o eleitor mais decidirá dentro da cabine.
A única pesquisa sem margem de erro começa amanhã às oito da manhã.
E talvez o dado mais interessante das pesquisas recentes não esteja simplesmente nos percentuais dos candidatos. Está no grau de consolidação do voto.
Por isso as campanhas passaram a discutir menos como conquistar multidões e mais como colocar seus próprios eleitores dentro da seção eleitoral.
Lula trabalha contra a abstenção. Flávio tenta produzir voto útil entre eleitores da direita.
Em Minas, os adversários de Cleitinho tentam levar a eleição para uma segunda rodada.
A reta final virou uma operação logística. Quem chega. Quem vota. Quem muda na última hora. Quem fica em casa.
A eleição “Suprema”
Enquanto a eleição corre para a urna, o Supremo tenta correr para recuperar alguma ordem institucional.
Edson Fachin determinou que eventuais elementos envolvendo ministros do próprio STF no caso Banco Master sejam apresentados pela Polícia Federal sem exceção de pessoa.
É o mínimo, mas, depois das últimas semanas, o mínimo virou uma conquista considerável.
O caso Master precisa deixar definitivamente de ser utilizado como álbum de figurinhas partidário.
Moraes aparece? Investigue-se o fato.
Flávio aparece? A mesma coisa.
Gonet? Idem.
Ministro, senador, advogado, empresário, filho, mulher, amigo, adversário.
Não interessa.
O que não podemos fazer é transformar relacionamento em condenação quando envolve adversário e em coincidência social quando envolve aliado.
A regra precisa ser brutalmente simples.
Mensagem comprova mensagem. Viagem comprova viagem. Fotografia comprova o encontro.
Nenhuma dessas coisas, isoladamente, comprova corrupção.
Para isso precisamos de outra ponte: ato, vantagem, dinheiro, favorecimento, contrapartida.
É menos emocionante.
Mas é assim que a prova funciona.
Fachin também decidiu fechar outra porta importante no Supremo: petições apresentadas por terceiros em processos antigos, sem conexão jurídica suficiente, passarão primeiro pela Presidência antes de chegar ao relator original.
Traduzindo do juridiquês: o STF percebeu que estava ficando perigoso permitir que processos antigos funcionassem como uma espécie de corredor VIP para chegar a determinado ministro.
Chama-se juiz natural. Ninguém deveria escolher quem vai julgá-lo.
Parece elementar,e outra vez, o elementar precisou ser redescoberto.
E temos as bets
Talvez nenhuma história explique melhor esta reta final.
O governo regulamentou o mercado, cobrou outorgas, autorizou empresas, organizou regras. Depois proibiu as bets.
Agora a Advocacia-Geral da União sustenta no Supremo que partes das próprias leis que permitiram e regulamentaram esse mercado são inconstitucionais.
É perfeitamente possível que o governo tenha descoberto que errou.
Governos podem rever decisões. Aliás, deveriam fazer isso quando percebem o erro.
Mas então surge uma pergunta inevitável: quem responde pelo erro anterior?
Empresas pagaram para operar, os contratos foram assinados, os clubes de futebol receberam patrocínios.
Um mercado inteiro foi construído sob regras estabelecidas pelo Estado.
Se essas regras eram constitucionalmente tão frágeis, alguém precisa explicar como chegamos até aqui.
Combater os danos provocados pelas apostas é uma política pública defensável. Segurança jurídica também é.
Uma democracia madura precisa conseguir sustentar as duas ideias ao mesmo tempo.
A vida depois da eleição
Mas existe uma notícia de Minas Gerais que deve sobreviver às eleições e a todas as pesquisas.
O Estado possui uma dívida na casa de R$188 bilhões. Desde a retomada dos pagamentos, bilhões já saíram do caixa estadual e ela continuará existindo segunda-feira.
Não importa quem vença.
Essa talvez seja a imagem perfeita da diferença entre campanha e governo.
Durante a campanha, reduz-se o IPVA. Aumenta-se o salário. Constrói-se estrada. Melhora-se hospital. Amplia-se a escola. Corta-se desperdício.
Tudo cabe num vídeo de 60 segundos.
Na segunda-feira, chega a planilha. E a planilha é uma criatura politicamente desagradável. Ela soma.
A campanha termina hoje. As promessas, amanhã, começam a vencer.
Quem assumir Minas terá de explicar como pretende administrar a dívida, financiar saúde, recuperar estradas, manter municípios, discutir mineração, gerar emprego e encontrar espaço para investimento.
Quem assumir o Brasil enfrentará uma dívida pública crescente, pressão por mais gasto social, necessidade de investimento, Congresso fragmentado e um Supremo atravessando uma crise de confiança.
Não existe reel capaz de resolver isso. E talvez seja essa a reflexão necessária nesta véspera.
Passamos meses discutindo quem vencerá.
A partir de amanhã começaremos a descobrir o que o vencedor consegue fazer.
São perguntas completamente diferentes.
Campanha trabalha com desejo. Governo trabalha com limite.
Campanha promete. Orçamento responde.
Campanha escolhe adversário. Realidade não oferece essa gentileza.
Ela simplesmente chega.
Amanhã o eleitor terá alguns minutos diante da urna. Não haverá pesquisa. Não haverá marqueteiro. Não haverá influencer. Não haverá ministro concedendo liminar dentro da cabine.
Será uma escolha individual, silenciosa e soberana.
Depois disso, as bandeiras serão recolhidas. Os santinhos irão para o lixo. Os vídeos envelhecerão no algoritmo.
E os vencedores descobrirão aquilo que toda eleição tenta esconder até o último minuto: ganhar é a parte fácil.
A difícil começa na segunda-feira.