A forte reação dos mercados ao resultado do primeiro turno das eleições não está apenas na disparada da Bolsa e na valorização do real. Para o analista econômico e colunista da 98 News Gustavo Andrade, o principal sinal está no comportamento dos juros, especialmente nos vencimentos mais longos.
“Eu queria falar até um pouco mais sobre juros do que falar necessariamente sobre Bolsa subindo 8%”, afirmou.
Segundo Andrade, a queda mais acentuada dos juros longos indica que o mercado começa a precificar uma possível melhora da credibilidade fiscal e uma mudança na condução da política econômica.
“Se a ponta longa cede mais, o argumento é muito mais sobre reancoragem possível de uma credibilidade fiscal a partir de medidas que podem ser feitas, de uma mudança da política econômica”, explicou.
Expectativa de inflação também melhora
Outro ponto destacado pelo analista é a diferença entre a queda dos juros nominais e dos juros reais. Na avaliação, esse movimento sugere que o mercado também passou a projetar uma inflação mais controlada no futuro.
A consequência pode ser relevante para a política monetária: com expectativas melhores, o Banco Central teria mais espaço para continuar reduzindo os juros.
Andrade, porém, faz uma ressalva: a reação positiva dos ativos não significa uma melhora imediata na vida do brasileiro. “A antecipação de preço de ativo hoje não significa que o custo de vida vai melhorar da noite para o dia”, afirmou.
Juros menores podem aliviar a dívida
Para o analista, uma eventual queda estrutural dos juros também reduziria a pressão sobre a dívida pública brasileira. “Meu juro real é mais ou menos 7,5% e eu cresço em termos reais com estímulos em 2,5%”, explicou.
Nesse cenário, uma redução dos juros longos diminuiria o custo de financiamento do governo e poderia reduzir o esforço fiscal necessário nos próximos anos.
“Talvez eu não me endivide mais em juro real a 7,5%. Vou fazer isso a 6,5%, a 6%. E isso reduz muito também, por antecipação positiva, qual é o esforço que eu tenho que fazer”, disse.
Mercado aposta, mas agora é preciso entregar
Apesar do otimismo, Andrade lembra que a reação dos mercados representa uma expectativa, e não uma garantia de melhora econômica.
“Expectativas são um símbolo importante do que há de vir, mas, para que isso de fato aconteça, a gente tem que tomar as decisões corretas”, afirmou.
Para ele, o resultado das urnas abriu espaço para o mercado apostar em um cenário mais positivo. Mas a manutenção dessa confiança dependerá das decisões tomadas daqui para frente. “Se ficar só no gogó, a gente não vai sair do lugar, infelizmente”, concluiu.