Se 2025 foi um ano de ajustes e fricções, 2026 chega como uma estrada esburacada após a chuva: um percurso cheio de remendos, muitas curvas e pouca sinalização. A política econômica brasileira, hoje, parece o reflexo de uma nação que se perdeu no espelho: esforça-se em exibir solidez, mas ao fundo a imagem revela fragilidades que teimam em não desaparecer.
O cenário econômico: entre retóricas e realidade crua
Comecemos pelo básico, o que importa de verdade para as pessoas no dia a dia: emprego, inflação, renda e perspectivas de futuro.
A inflação, após anos de batalha, dá sinais de controle técnico, mas ainda castiga quem vive de salário e não de índices. Enquanto o IPCA oscila dentro da meta, o efeito real nos bolsos é de compressão de renda. No papel, o salário parece respirar aliviado; na vida real, mal consegue puxar o ar até o fim do mês.
Sem recuperação consistente do poder de compra, a economia segue um passo atrás da sociedade: cresce, mas não em forma que se sinta na ponta das facas afiadas que usamos para dividir a conta do mercado.
O desemprego, embora tenha recuado ligeiramente em estatísticas que os economistas adoram, segue alto na experiência concreta de milhões. E o emprego informal, que cresce como erva daninha, não traz segurança nem previsibilidade. O Brasil ainda produz empregos que não sustentam sonhos, só sobrevivência.
E o investimento? A insegurança jurídica e a instabilidade regulatória são como um nevoeiro espesso sobre a esperança de investidores. Projetos hesitam, capitais migram para céus mais claros, e nós ficamos aqui, contando moscas enquanto o mercado externo espia com desconfiança.
A política monetária, conduzida pelo Banco Central, ainda que cercada de críticas e pressões políticas, tem demonstrado responsabilidade. Contudo, responsabilidade sem ousadia é como barco sem vento: fica à deriva.
O Orçamento e a disciplina fiscal, por sua vez, viram palcos de disputas que mais lembram novela, com personagens erráticos, desvios de foco e pouca narrativa coerente. Sustentar superávits e manter a dívida sob controle são vitais, mas a economia real exige mais: investimentos em infraestrutura, educação, saúde e tecnologia; ação afirmativa para setores que possam nos tirar da mera exportação de commodities e nos inserir com valor no mundo.
Horizonte político: renovação escassa e velhas danças de sempre
Aqui chegamos ao cerne da inquietação brasileira: a política. Se olharmos para o tabuleiro, o que vemos são as mesmas peças, muitas vezes rearranjadas, mas sem mudança substancial de propósito. A renovação tardia, ainda que desejada pelo cidadão médio, esbarra num sistema que recompensa caciques e preserva oligarquias.
Há lampejos de novas lideranças, mas a máquina partidária arrasta-se como caranguejo fora d’água. A polarização, longe de se resolver, se metamorfoseia em novos rótulos de sempre: conservadores jogando com estética de mudança; progressistas presos a fórmulas de discurso sem tradução em projeto viável. O eleitorado, cansado de promessas, transforma-se em uma plateia impaciente.
E então, onde repousa a esperança? Talvez não nos palácios, mas nas pontes, nas pontes entre gerações, entre ciência e sociedade, entre necessidades reais e propostas factíveis.
Há brilho nos olhos dos pequenos empreendedores; há energia na juventude que não aceita mais migalhas de participação política; há iniciativas locais de economia solidária e desenvolvimento sustentável que recusam a estatística como sina.
A verdadeira renovação política pode estar escondida nesses interstícios: nas cidades médias que reinventam gestão; nas universidades que dialogam com comunidades; nos movimentos que buscam capilaridade em vez de gritos de plenário.
Um chamado à coragem
2026 é, assim, um espelho paradoxal: reflete um Brasil que não está quebrado, mas muito longe de estar inteiro. A política econômica ainda caminha com a ré engatada, feliz por não capotar, mas sem coragem de acelerar rumo ao futuro. E a política, essa velha amante de dramas, parece ter esquecido que mudança requer risco, e risco exige ousadia.
Que 2026 seja o ano em que, no silêncio das ruas e no fervilhar das ideias, a sociedade reencontre um norte que não esteja preso a retóricas vazias. Que o Brasil aprenda a cultivar esperança como quem planta árvore: sabendo que os frutos virão, talvez não hoje, mas certamente se houver raiz.
