Durante muito tempo, falar em grandes vinhos produzidos em Minas Gerais soava quase como poesia improvável. Belo demais para ser verdade. Afinal, o imaginário brasileiro sempre associou vinho fino ao Sul do país, ou ao exterior, claro, esse altar automático onde muita gente ajoelha sem nem provar direito o que é feito aqui. Mas a realidade mudou. E mudou com método, ciência, persistência e terroir. O Sul de Minas passou a produzir vinhos extraordinários. Não por acaso, não por modismo e muito menos por marketing. Produz porque houve pesquisa, adaptação tecnológica e inteligência agronômica. Produz porque aprendeu a enganar o calendário.
O milagre da poda invertida
O coração dessa revolução atende por um nome técnico pouco sedutor para o grande público, mas decisivo na prática: dupla poda, também chamada de poda invertida. Em vez de deixar a videira seguir seu ciclo tradicional, a técnica inverte o calendário produtivo e desloca a maturação da uva para o outono-inverno. É um detalhe agronômico? Não. É uma virada de destino.
Ao colher no período seco, com menor incidência de chuvas e maior amplitude térmica, o produtor consegue uvas mais sadias, mais concentradas, mais aromáticas e com melhor potencial enológico. Uvas melhores, vinhos melhores, identidade mais nítida no copo. Esse método tem nome e sobrenome, é o engenheiro agrônomo e pesquisador Murillo de Albuquerque Regina.
A EPAMIG, protagonista dessa transformação, registra que a dupla poda permitiu a produção de vinhos finos no Sudeste e consolidou colheitas de inverno com mais sanidade, aroma e concentração de cor. O INPI, ao reconhecer em fevereiro de 2025 a Indicação Geográfica dos Vinhos de Inverno do Sul de Minas, também destacou exatamente esse diferencial climático e técnico da região.
Não se trata mais de curiosidade regional. Trata-se de reputação construída. O reconhecimento do INPI para a Indicação de Procedência “Vinhos de Inverno do Sul de Minas” foi uma chancela institucional importante: os vinhos da região, elaborados com 100% de uvas produzidas na área delimitada, ganharam reconhecimento formal como expressão de origem e qualidade.
E isso não caiu do céu. Veio acompanhado de regras, padrões e rigor. Os vinhos da Identidade Geográfica são feitos exclusivamente com cultivares de Vitis vinifera e que a produtividade dos vinhedos é limitada a 10 toneladas por hectare, além de exigir padrões analíticos e sensoriais específicos. Ou seja: não é oba-oba, nem etiqueta de fazenda gourmet. É uma construção séria de terroir brasileiro.
O Estado mete a mão e atrapalha
Enquanto a viticultura mineira faz ciência no campo, o Estado brasileiro ainda faz confusão no balcão. O vinho nacional continua submetido a uma estrutura tributária pesada, fragmentada e historicamente irracional. Hoje, segundo estudo do Ministério da Indústria e Comércio, citado por Geraldo Alckmin em fevereiro deste ano, a carga sobre vinhos e espumantes gira em torno de 40,5%, com expectativa de queda para cerca de 33% com a regulamentação da reforma tributária. Repare no absurdo: comemora-se como alívio uma carga que continuará alta. E não estamos falando de um setor qualquer. Estamos falando de uma cadeia que agrega valor no campo, na indústria, no turismo, na gastronomia e na imagem do território.
Minas Gerais fez a sua parte
Minas Gerais, é verdade, entendeu parte do problema e fez o que estava ao seu alcance. Em abril de 2024, a Secretaria de Fazenda do estado criou um tratamento tributário setorial que reduziu o ICMS para fabricantes de vinho de 25% para 3% no regime especial. Foi uma medida correta, inteligente e até civilizada, palavra rara quando o assunto é sistema tributário brasileiro.
A própria Secretaria da Fazenda mineira associou a decisão à expansão das vinícolas, do turismo e da renda regional. E os números mostram a força desse movimento: segundo dados divulgados pelo governo mineiro com base na EPAMIG, Minas passou de cerca de 50 fabricantes em 2020 para cem produtores de vinho, com mais de mil hectares de vinhedos registrados; quando toda a área plantada estiver em produção, a estimativa é de 4 mil toneladas de uva, 2,4 milhões de litros de vinho e R$ 120 milhões movimentados por ano. Em 2025, a própria EPAMIG já falava em cerca de 130 vinícolas no estado.
Mas aqui mora a ironia cruel. O estado faz um esforço, a pesquisa faz outro, o produtor investe, arrisca, qualifica, premia, gera emprego, atrai turismo, e ainda assim a estrutura nacional continua empurrando o vinho brasileiro morro acima.
O produtor local paga pela burocracia, pela cumulatividade histórica, pela complexidade fiscal e por uma mentalidade oficial que insiste em tratar o vinho mais como problema arrecadatório do que como ativo econômico e cultural. Enquanto isso, rótulos estrangeiros medianos, amparados por escala, tradição comercial e ambientes de origem menos hostis, entram no imaginário do consumidor como se fossem naturalmente superiores. Muitas vezes não são. Apenas chegam à prateleira com mais conforto competitivo. E isso é devastador, porque deforma o mercado antes mesmo da prova cega.
E não estamos falando só de vinhos
A perversidade é ainda maior porque o Sul de Minas não está vendendo apenas vinho. Está vendendo inteligência territorial. Está convertendo áreas tradicionalmente ligadas ao café em nova fronteira de valor agregado. Está somando agricultura, agroindústria, hospitalidade, paisagem, gastronomia e marca regional. Está criando uma nova narrativa econômica para Minas. E, no entanto, ainda precisa pedir licença ao manicômio tributário para existir competitividade. É a velha doença brasileira: quando algo nasce bom, o poder público corre para pendurar imposto, regra, entrave, carimbo e custo. O talento aqui sempre precisa vencer o Estado antes de vencer o mercado.
Há, porém, uma lição luminosa nesse processo. O vinho mineiro já provou que qualidade não é monopólio geográfico. Não pertence por herança a franceses, italianos, chilenos ou argentinos. Qualidade se produz. Com pesquisa, técnica, clima, insistência e visão de longo prazo. O Sul de Minas fez isso. Transformou poda em estratégia, inverno em vantagem, altitude em assinatura e desconfiança em medalha. O que falta agora é o Brasil parar de sabotar seus próprios acertos.
Porque não é razoável que um país descubra uma vocação sofisticada, premiada e geradora de riqueza e ainda obrigue esse setor a lutar com uma das mãos amarradas. O vinho do Sul de Minas já venceu a descrença agronômica. Já venceu o preconceito geográfico. Já venceu o ceticismo de quem achava impossível fazer grande vinho em terra mineira. O que ele ainda não conseguiu vencer por completo é algo muito mais ordinário e muito mais brasileiro: a burrice tributária
