A carne sempre teve lugar garantido na mesa do brasileiro. No almoço de domingo, no churrasco da família e no tradicional PF do dia a dia.
Mas, nos últimos anos, o produto ficou mais caro no Brasil… e mais distante do consumidor.
Entre 2016 e 2024, o preço da carne vermelha praticamente dobrou.
O quilo da chamada carne de primeira saiu de R$ 20,60 para R$ 38,10. A de segunda foi de R$ 15,90 para R$ 29,60. Altas acima de 80%, conforme o IBGE e DIEESE.
Em diferentes cidades de Minas Gerais percorridas pelo Grupo Bel no especial “Custo Brasil, por que vivemos em um país tão caro?”, o sentimento é de aperto constante.
Só em 2024, a carne ficou 20% mais cara. Em 2025, subiu novamente, mas abaixo da inflação. Ainda assim, com os preços já em patamar elevado. O resultado é um consumidor que compra menos, faz opção por cortes mais em conta e, muitas vezes, desiste. Funcionário de um açougue de Sarzedo, na Grande BH, há dez anos, o gerente João Vitor Santos Rodrigues conta que a mudança é nítida.
“Mudou muito. Antes o cliente chegava e levava uma peça inteira, pedia para separar carne para não ficar sem. Hoje é tudo contado. Já vendi picanha a 30 reais. Hoje chega a 70, 100. E não é só aqui… para a gente comprar também ficou mais caro. Os clientes reclamam, com razão. Hoje ele leva o mais barato, o que dá. Não é mais o que quer, é o que pode.”
E isso acontece em um país que é potência na produção mundial de carnes. Em 2025, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos e se tornou o maior produtor mundial de carne bovina.
O país, que já lidera as exportações, ampliou a produção com demanda externa aquecida e ganhos de produtividade no campo.
O avanço reforça o peso do Brasil no mercado internacional e também ajuda a explicar a pressão sobre os preços, como detalha o economista e colunista da 98 News, Izak Carlos.
“Os alimentos são cotados em dólar. Quando há instabilidade ou perda de valor da moeda, isso encarece tudo aqui dentro. O Brasil vem perdendo posição na economia global, ficando relativamente mais pobre. Isso impacta diretamente o custo de vida das famílias. Temos ineficiências tributárias, custos elevados e baixa produtividade. Tudo isso encarece os produtos até chegar na prateleira,” conclui.
Dentro da cadeia produtiva, os custos se acumulam — e chegam inevitavelmente ao consumidor.
O presidente do sindicato que representa as empresas do setor em Minas, o Sinduscarne-MG, Pedro Braga, explica que o problema não está em um único ponto.
“Os custos vêm aumentando há anos. Não só os diretos, como impostos e salários, mas também os indiretos como regras, exigências, logística.Tudo isso vai se somando ao longo da cadeia. E chega lá na ponta, no consumidor. Não tem como fugir.”
O resultado é um alimento mais caro mesmo em um país que produz em escala global.
E a tendência é de continuidade. Em 2026, a expectativa é de nova alta no preço da carne, impulsionada pela demanda externa e pelo dólar elevado.
O ciclo da pecuária, com menor oferta de animais para abate, também deve pressionar os preços ao longo do ano.