Há um traço comum ligando três assuntos que, à primeira vista, parecem morar em mundos diferentes: a tarifa zero que desapareceu do centro do debate, a PEC que tenta acabar com a aposentadoria compulsória como punição e o novo recuo de Donald Trump diante do Irã e do Estreito de Ormuz. O elo é o mesmo. Em todos esses casos, o poder vende força. Depois negocia fraqueza. Promete ruptura. Entrega adaptação. Faz discurso de aço. Governa com joelho trêmulo.
A tarifa zero escondida debaixo do tapete
Comecemos pela tarifa zero. No Brasil, a proposta integral morreu na catraca. Em Belo Horizonte inventaram até a versão diet do projeto: gratuidade apenas aos domingos e feriados, que foi mplantada pela prefeitura em dezembro, com custo anual estimado pela Sumob em cerca de R$40 milhões. É o retrato perfeito da política brasileira: no palanque, a revolução; na planilha, o feriado.
E por que a promessa de tarifa zero foi abortada das discussões centrais? Porque ela esbarra justamente no único opositor que não perde votação: o dinheiro. A tarifa zero integral é sedutora. Tem apelo popular imediato. Mas exige fonte robusta, contínua e politicamente sustentável de financiamento. Quando a ideia saiu do panfleto e entrou na contabilidade, a magia acabou. O velho truque apareceu: vende-se o sonho inteiro e, depois, entrega-se a amostra grátis.
A vergonhosa aposentadoria compulsória
O caso da aposentadoria compulsória tem parentesco direto com isso. A CCJ do Senado debate nesta semana a PEC 3/2024, que pretende vedar a aposentadoria compulsória como sanção disciplinar para magistrados e membros do Ministério Público, prevendo demissão após o devido processo legal. É uma discussão necessária. E tardia. Escandalosamente tardia. Durante tempo demais, o país naturalizou uma aberração moral, a punição de parte da elite estatal com salário preservado. Não era sanção. Era uma aposentadoria premiada com uma polidez jurídica.
Aqui também a lógica é a mesma. O sistema gosta de posar de rigoroso, mas treme quando precisa mexer nos privilégios mais blindados. No discurso oficial, todos defendem moralidade, responsabilidade e igualdade perante a lei. Na prática, quando o bisturi se aproxima das corporações mais protegidas, surgem a cautela, o rito, a dúvida, a hermenêutica, a liturgia, o eterno “vamos amadurecer o debate”. O Brasil, às vezes, é um país em que a punição do poderoso caminha de muletas e a conta do cidadão comum corre num Fórmula 1.
A bravata trumpista
Do lado de fora, no tabuleiro internacional, Donald Trump ofereceu mais uma vez sua especialidade: a política do grito seguido de recuo.
Nesta quarta-feira, 8 de abril, Estados Unidos e Irã chegaram a um cessar-fogo de duas semanas, mediado pelo Paquistão, condicionado à reabertura parcial do Estreito de Ormuz. O episódio reacendeu um apelido que virou síntese cruel em mercados e círculos políticos. TACO, sigla para Trump Always Chickens Out, Trump sempre amarela. O termo foi popularizado em 2025 e voltou a circular agora com força renovada.
O mais interessante é que o Irã, que não tinha o poder absoluto de reordenar sozinho o mundo, demonstrou ter algo ainda mais sensível: capacidade de pressionar uma artéria vital da economia global. O Estreito de Ormuz segue sendo corredor estratégico para uma fatia gigantesca do petróleo e do gás transportados no planeta. Quando essa passagem entra em risco, não é apenas a geopolítica que treme. É a bomba do posto. É o frete. É a inflação. É o humor do eleitor. O recuo de Trump não nasceu da iluminação pacifista. Nasceu do encontro brutal entre guerra, mercado e calendário político.
E aí entram as eleições de meio de mandato, as midterms. Nas últimas semanas, a guerra com o Irã e a alta dos combustíveis empurraram para baixo a aprovação de Trump, que caiu a 36% em um levantamento feito pela Reuters/Ipsos em março.
A agência também registrou que o desgaste econômico e político ameaça as chances republicanas de manter maiorias apertadas na Câmara e no Senado. Em bom português: o presidente pode posar de César no microfone, mas continua refém do preço da gasolina na vida real.
No fundo, os três episódios contam a mesma história. A tarifa zero integral some quando encontra o muro do financiamento. O fim de privilégios avança a passo de procissão porque mexe com castas protegidas. Trump ameaça como imperador e recua como candidato em ano eleitoral. Em todos os casos, a retórica é musculosa, mas a prática é magra. O poder adora encenar coragem até o momento em que a realidade entra pela porta com números, petróleo, voto ou despesa obrigatória.
É por isso que a política contemporânea está cada vez mais parecida com uma vitrine de loja. O que vale é a embalagem. O marketing promete o banquete. O caixa entrega a nota. E a sociedade, já cansada, vai aprendendo a identificar o truque: quando a fala vem grandiosa demais, é bom procurar a cláusula miúda. Quase sempre é ali que mora o recuo.No fim das contas, da catraca de Belo Horizonte ao Estreito de Ormuz, a lição é a mesma. A promessa é barata; a consequência é que custa caro.
