Depois de expor o tamanho do chamado Custo Brasil, estimado em R$ 1,7 trilhão por ano, o desafio agora é entender por que esse peso continua presente no dia a dia da economia e o que, de fato, tem sido feito para reduzi-lo.
O conjunto de ineficiências atua como um freio estrutural para quem produz, investe e empreende em um país onde fazer negócios custa mais caro do que em economias desenvolvidas.
De acordo com o Observatório do Custo Brasil, esse impacto é monitorado por 12 eixos e 26 indicadores, que vão desde a abertura de empresas até o acesso a energia, crédito e logística.
Os números mais recentes ajudam a dimensionar onde estão os principais entraves: a infraestrutura deficiente gera cerca de R$ 284 bilhões em custos extras, especialmente no transporte; o crédito caro adiciona aproximadamente R$ 140 bilhões em despesas; e empresas gastam, em média, 1.501 horas por ano apenas para lidar com tributos.
Apesar do diagnóstico consolidado, o avanço das soluções ainda é considerado lento. O próprio Observatório aponta que seria possível reduzir até R$ 530 bilhões desse custo com medidas já mapeadas, mas isso depende, sobretudo, de ação coordenada entre governos — do nível federal às mais de 5 mil prefeituras do país.
Máquina pública lenta amplia o problema
O impacto do Custo Brasil não se limita à iniciativa privada e também afeta diretamente o funcionamento das administrações públicas.
Em entrevista ao Grupo Bel, o prefeito de Poços de Caldas, no Sul de Minas, Paulo Ney, reconhece que o problema está presente na rotina dos municípios e cita a lentidão da máquina pública e a falta de investimentos em tecnologia como fatores que ampliam esse custo invisível.
“Quando a gente fala de Custo Brasil, normalmente associa à dificuldade do empreendedor em investir. Mas, na gestão pública, ele também provoca uma série de problemas. Hoje, infelizmente, temos uma máquina pública morosa, com falta de investimento em tecnologia, e isso dificulta diretamente a vida do cidadão.”
Para ele, é necessário avançar em mudanças estruturais.
Decisões que não saem do papel custam caro
Um exemplo recente de como a falta de ação da classe política pode encarecer o país veio do Congresso, com a não votação do chamado Redata, medida que previa incentivos para investimentos em data centers e que perdeu a validade.
Entidades como a Brasscom alertam que o Brasil pode ter desperdiçado uma oportunidade bilionária.
A proposta previa redução de impostos sobre equipamentos e infraestrutura para atrair investimentos em um setor considerado estratégico.
Segundo o diretor da associação, Sergio Sgobbi, o país já enfrenta uma disputa global por esses investimentos e corre o risco de ficar para trás.
A projeção era de R$ 380 bilhões até 2030 apenas em equipamentos de tecnologia da informação. Já estimativas do Ministério da Fazenda indicavam potencial de até R$ 2 trilhões em dez anos, considerando toda a cadeia de data centers.
Sem a aprovação da medida, o país perde competitividade e deixa de avançar em um setor capaz de impulsionar inovação, geração de empregos e crescimento econômico.
“O Brasil perdeu tempo em uma disputa global por investimentos. Sem a aprovação, esses recursos vão para outros países. Hoje já é mais caro processar dados aqui, e isso faz com que serviços essenciais acabem sendo operados fora do país.”
As medidas para reduzir o Custo Brasil são conhecidas: simplificação tributária, investimentos em infraestrutura, crédito mais acessível, segurança jurídica, ampliação da concorrência e digitalização de processos.
O desafio, no entanto, continua sendo transformar diagnóstico em ação.
Enquanto isso não acontece, o país segue operando com um custo elevado para produzir e crescer.