O Custo Brasil não é uma abstração econômica distante. Ele está presente na rotina do cidadão, pesa no orçamento das famílias, encarece o consumo básico e reduz a capacidade de investimento de quem empreende.
No centro desse debate, uma questão essencial: até que ponto a população associa esse cenário ao papel dos governos e às decisões tomadas na gestão pública? E, sobretudo, em que medida mudanças em políticas, regras e processos poderiam reduzir custos, destravar a economia e tornar o ambiente mais eficiente?
Nesta série especial, a Rede 98 foi às ruas de diferentes cidades de Minas Gerais para ouvir percepções, críticas e expectativas sobre o tema.
Em Juiz de Fora, na Zona da Mata, Ana Clara avalia que o poder público deveria ter um papel mais ativo no apoio à população.
“Eu acho que o governo deveria ajudar mais, porque quem paga mais imposto somos nós, trabalhadores. Então eu acho justo eles darem mais apoio à classe trabalhadora.”
Na região Central de Minas, em Conselheiro Lafaiete, Claudioney entende que o problema não está na existência do Estado, mas na forma como ele é conduzido.
“O Estado não é uma coisa alienígena. O Estado é o povo. Nós elegemos administradores, e o que precisamos é melhorar a gestão. Não existe o que é melhor, público ou privado, existe o que é bem administrado.”
Já em Sarzedo, na Grande BH, Vinícius Luiz aponta para uma percepção de distanciamento e fragmentação na responsabilidade entre as esferas de poder.
“O governo não pega pra si. Às vezes ele pega um pouco, mas não pega pra si. Fica jogando um para o outro: Estado, governo, Assembleia…”
O impacto do Custo Brasil no lazer
No turismo, o chamado Custo Brasil aparece de forma direta no preço da viagem. O encarecimento começa antes mesmo da saída de casa, numa cadeia que envolve hotéis, transporte, impostos e infraestrutura.
Na hotelaria, dados da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIHl) e do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) indicam que a folha de pagamento representa, em média, cerca de 26,7% do faturamento dos hotéis.
Quando somados custos como energia, alimentação, manutenção e tributos, o peso operacional pode ultrapassar 60% da receita total. Na prática, isso reduz drasticamente a margem para queda de preços ao consumidor.
O efeito aparece no cotidiano. Viagens curtas ficaram mais caras, pacotes nacionais passaram a disputar preço com destinos internacionais, e planejar uma saída em família virou uma decisão cada vez mais sensível ao orçamento.
Em Minas Gerais, onde o turismo cresce impulsionado por cidades históricas e destinos de natureza, o cenário se repete. A oferta aumenta, mas o custo para chegar até ela continua alto — travado por logística, infraestrutura e transporte.
O consultor estratégico em hotelaria Maarten Van Sluys faz uma análise crítica sobre o ambiente de negócios no país:
“O Brasil não tem só um problema de custo alto. Ele tem um problema de previsibilidade. A combinação de insegurança jurídica, carga tributária elevada e regras instáveis cria um ambiente em que o investidor simplesmente recua. Isso trava expansão, reduz contratação e impede inovação. Em muitos casos, o crescimento nem chega a acontecer porque o risco é maior que o retorno.”
Em 2024, os brasileiros gastaram cerca de R$ 22,8 bilhões em viagens nacionais, conforme a PNAD Contínua: Turismo 2024, do IBGE, alta de quase 12% em relação ao ano anterior.
Mas o avanço não significa facilidade: quer dizer que mais significa mais dinheiro gasto para fazer o mesmo deslocamento.