A eleição de outubro próximo começa a ganhar contornos mais nítidos. Ainda não é uma fotografia final, porque a eleição no Brasil tem alma de novela mexicana, muda o roteiro, troca o vilão, ressuscita personagem e, no último capítulo, alguém sempre aparece dizendo que foi mal interpretado. Mas a tendência já está posta sobre a mesa. A centro-direita e a direita chegam mais fortes, mais espalhadas pelo país e com maior musculatura política. Lula chega menor do que imaginava. E o governo chega carregando no colo uma bomba fiscal que não explode de uma vez, mas pinga ácido todos os dias sobre a economia, a confiança e o humor do eleitor.
O forte crescimento da direita
A direita deixou de ser apenas uma onda emocional. Virou estrutura. Tem governadores competitivos, bancadas robustas, prefeitos, vereadores, redes sociais, igrejas, empresários, lideranças locais e uma linguagem que conversa com parte importante da sociedade brasileira. A eleição municipal de 2024 já havia mostrado isso com clareza: centro e direita dominaram prefeituras, enquanto a esquerda ficou mais restrita a bolsões regionais. Nas últimas eleições os números trouxeram o centro com 52% das prefeituras, a direita subindo de 34% para 36%, e a esquerda caindo de 15% para 12%.
Esse é o ponto central: eleição presidencial não se ganha apenas no palanque nacional. Ganha-se também na capilaridade municipal. Prefeito não transfere voto como quem transfere Pix, mas transfere ambiente. Organiza base, abre porta, empresta máquina política, dá sentido local à disputa nacional. E, nesse território miúdo, onde o eleitor conhece o prefeito, o vereador, o pastor, o comerciante e o líder comunitário, a centro-direita chega muito mais bem instalada que a esquerda.
Lula e a popularidade desidratada
O segundo dado é a baixa popularidade de Lula. O presidente ainda conserva uma base fiel, especialmente no Nordeste e entre setores beneficiados por políticas sociais. Não se deve subestimar Lula. Quem subestima Lula geralmente termina escrevendo autópsia antes do enterro. Mas também não se deve superestimá-lo como se fosse o Lula de 2006, surfando crescimento, crédito fácil, commodities em alta e um país com sensação de ascensão social. Esse Lula já não existe. O atual governa um país cansado, caro, endividado, desconfiado e menos disposto a comprar promessas embaladas em nostalgia.
A pesquisa Genial/Quaest de abril de 2026 mostrou que a desaprovação ao trabalho de Lula subiu de 49% para 52% desde janeiro, enquanto a aprovação caiu de 47% para 43%. O mesmo levantamento apontou que 48% dos eleitores veem notícias mais negativas sobre o governo, e 50% dizem sentir que a economia piorou no último ano. Mais grave: 72% afirmaram ter percebido aumento no preço dos alimentos no mês anterior, e 72% disseram ter dívidas.
Esse é o veneno eleitoral mais perigoso: a sensação de piora no bolso. O eleitor pode até não saber explicar o arcabouço fiscal, a meta primária, o déficit nominal ou a trajetória da dívida. Mas ele sabe o preço do arroz, da carne, do café, do remédio, da conta de luz, da escola, do aluguel e do supermercado. O povo não lê planilha do Tesouro Nacional no café da manhã. Lê a maquininha do cartão recusando a compra no fim do mês.
A importância do controle fiscal
E é aí que entra o terceiro elemento: o descontrole fiscal. O governo tenta vender a ideia de responsabilidade, mas a realidade das contas públicas é muito menos elegante que o discurso. Segundo o Ministério da Fazenda, o Governo Central registrou déficit primário de R$30,046 bilhões em fevereiro de 2026. No acumulado de 12 meses até fevereiro, o déficit foi de R$60,4 bilhões, equivalente a 0,45% do PIB.
O Ipea também apontou deterioração fiscal em 2025: o déficit primário do governo central passou de R$45,8 bilhões em 2024 para R$60,6 bilhões em 2025, subindo de 0,36% para 0,48% do PIB. Mesmo com crescimento real da receita, as despesas avançaram, puxadas por gastos obrigatórios, Previdência, benefícios assistenciais, pessoal e transferências constitucionais.
Traduzido do economês para o português de padaria. O governo arrecada mais, mas gasta mais ainda. A máquina pública tem apetite de leão e disciplina de adolescente em shopping center com cartão sem limite. O problema não é apenas gastar. O Estado existe para gastar com saúde, educação, segurança, infraestrutura e proteção social. O problema é gastar mal, gastar sem prioridade, gastar sem reforma, gastar empurrando a conta para o governo seguinte, ou para o eleitor, que paga em inflação, juros altos, crédito caro e crescimento medíocre.
O fiscal, no Brasil, sempre parece assunto de especialista até virar desemprego, juros, inflação e aperto. A dívida pública não bate à porta com crachá de economista. Ela entra pela janela da vida real. Quando o governo perde credibilidade, o mercado cobra juros maiores. Quando os juros sobem, empresas investem menos. Quando empresas investem menos, o emprego trava. Quando o emprego trava, a renda aperta. Quando a renda aperta, o eleitor se irrita. E quando o eleitor se irrita, a eleição muda de temperatura.
A direita entende melhor a realidade
A direita entendeu isso antes da esquerda. Seu discurso combina três elementos de fácil compreensão: crítica ao gasto público, defesa de segurança e reação ao que chama de excesso ideológico. Parte desse discurso é simplista, sem dúvida. Há muito candidato conservador que fala em cortar gastos como quem corta fita em inauguração, bonito para a foto, mas sem mostrar onde passa a tesoura. Ainda assim, a mensagem encontra um país cansado da sensação de que Brasília vive em banquete enquanto a população faz conta para comprar carne moída.
Lula, por sua vez, enfrenta uma armadilha clássica. Para recuperar a popularidade, tende a aumentar gastos, ampliar benefícios, segurar preços artificialmente, usar bancos públicos, mexer em crédito, tentar estimular consumo. Tudo isso pode produzir algum alívio eleitoral de curto prazo. Mas também pode aprofundar a desconfiança fiscal. É como tratar febre quebrando o termômetro. A temperatura continua lá, só fica mais difícil fingir que está tudo bem.
O PT quer abrir o leque de alianças
Não por acaso, o Partido dos Trabalhadores chega ao ciclo eleitoral discutindo alianças com setores da centro-direita, em meio a divergências internas sobre até onde deve ir essa aproximação. O último congresso petista, de abril de 2026, tinha como foco a eleição presidencial e divisões sobre alianças com a centro-direita. Isso revela uma contradição interessante. O PT combate a centro-direita no discurso, mas precisa dela na aritmética. Demoniza em público, negocia em privado. É a velha política de terno novo.
A direita também não vive a mil maravilhas
A direita também tem seus problemas. Não há unidade automática. Há bolsonaristas raiz, liberais pragmáticos, conservadores religiosos, governadores presidenciáveis, partidos fisiológicos, líderes regionais e vaidades do tamanho de um trio elétrico descendo a Avenida no carnaval. A centro-direita até ensaia crescer, mas crescimento sem coordenação vira condomínio em assembléia, todo mundo fala, ninguém decide, e no fim brigam pela vaga da garagem.
Mesmo assim, o ambiente favorece esse campo. A baixa popularidade de Lula reduz o poder de transferência do presidente. O fiscal fragiliza a narrativa econômica do governo. A direita e a centro-direita chegam com base territorial, redes sociais mobilizadas e discurso mais simples. A esquerda, por sua vez, parece excessivamente presa a uma linguagem de militância que conversa muito bem consigo mesma, mas nem sempre com o trabalhador endividado, com o pequeno empresário sufocado, com o jovem sem perspectiva e com a família que vê o supermercado virar uma espécie de prova de resistência.
Menos ideologia e mais comida na mesa
A eleição de outubro, portanto, tende a ser menos sobre amor ideológico e mais sobre fadiga. Fadiga com o custo de vida. Fadiga com imposto. Fadiga com insegurança. Fadiga com polarização. Fadiga com um Estado caro, pesado e nem sempre eficiente. A direita cresce porque capturou parte dessa fadiga. Lula cai porque a memória afetiva de seus governos anteriores já não basta para pagar a conta do presente. E o descontrole fiscal aparece como o grande personagem invisível da disputa: não pede voto, não dá entrevista, não sobe em palanque, mas influencia tudo.
A eleição não será vencida apenas com discurso de passado glorioso. O eleitor quer saber quem paga a conta, quem controla o gasto, quem melhora a renda, quem baixa a tensão e quem entrega alguma previsibilidade.
No fim, outubro pode ser decidido por uma pergunta cruel e simples: o Brasil quer continuar apostando na memória de Lula ou quer testar uma nova maioria de centro-direita? A resposta ainda está em aberto, mas uma coisa já parece clara. O país entrou na campanha com o bolso inquieto, a paciência curta e a calculadora na mão. E, quando a urna encontra a calculadora, a poesia do poder costuma virar contabilidade dura.
