O primeiro debate da campanha ao governo de Minas não escolheu governador. Debate raramente escolhe. Mas ajudou bastante a revelar quem cada candidato pretende ser nesta eleição.
E, às vezes, isso é até mais importante.
Alexandre Kalil entrou para brigar. Mateus Simões entrou para defender o governo e atacar o governo federal. Gabriel Azevedo entrou disposto a incomodar. Flávio Roscoe entrou discreto, apareceu pouco. E Cleitinho Azevedo fez algo que, depois das últimas semanas, talvez fosse exatamente o que precisava fazer: não criou outro problema para si mesmo.
Cleitinho, depois da novela de sua candidatura, vai, não vai, desiste, volta, chora, anuncia, desanuncia, criou uma expectativa natural sobre como ele se comportaria diante dos adversários e longe da segurança dos vídeos produzidos para as redes sociais.
Ele escolheu a prudência.
Foi conciliador, evitou confrontos desnecessários e, principalmente, não entregou aos adversários a cena de desastre que certamente alguns esperavam. Para quem lidera pesquisas, sobreviver pode ser uma estratégia perfeitamente racional.
Mas sobreviver não significa convencer.
Quando apareceu a proposta de impedir a apreensão de veículos em razão do atraso do IPVA, surgiu novamente uma das principais dúvidas que acompanharão Cleitinho nesta eleição: a diferença entre uma proposta popular e uma política pública sustentável.
É muito fácil defender menos imposto. Mais difícil é explicar quem paga a conta depois.
Mateus Simões percebeu a oportunidade e falou em responsabilidade diante do impacto da medida sobre as receitas públicas.
Esse talvez seja o desafio central de Cleitinho durante toda a campanha: provar que consegue transformar o enorme talento para comunicação popular em capacidade para administrar um Estado com mais de 20 milhões de habitantes, uma dívida monumental e problemas que não cabem num vídeo de um minuto.
Kalil foi Kalil.
É uma vantagem e também um risco.
Foi agressivo, rápido e procurou o confronto. Em uma discussão sobre feminicídio e segurança pública, respondeu às colocações de Simões atacando os salários pagos às forças de segurança. Em outros momentos, bateu no governo Zema-Simões e na adesão de Minas ao Propag.
Ele conhece a linguagem da televisão, sabe que debate não é seminário acadêmico. Uma frase curta pode valer mais eleitoralmente do que cinco minutos de explicações tecnicamente impecáveis.
Mas há também um problema para ele.
Kalil precisa convencer o eleitor de que não é simplesmente o candidato mais bravo do palco. Precisa transformar agressividade em alternativa de governo.
Porque a indignação ganha corte de vídeo. Governo exige projeto.
Mateus Simões vive problema inverso.
Projeto e números não lhe faltam.
Ele conhece profundamente a administração estadual, talvez mais do que qualquer adversário naquele palco. Usou o debate para defender seu governo, explicar o Propag e responsabilizar Brasília por parte importante das dificuldades mineiras. Também atacou adversários associados ao campo político de Lula.
Mas Simões carrega uma mochila pesada.
Não pode apresentar os problemas de Minas como se tivesse acabado de desembarcar no Aeroporto de Confins.
Participou do governo Zema e hoje representa diretamente sua continuidade.
Tudo que funcionou pode reivindicar.
Tudo que não funcionou também lhe pertence.
Esse será provavelmente um dos principais campos de batalha da campanha: Simões apresentará o legado Zema como credencial; seus adversários apresentarão o mesmo legado como culpa.
Gabriel Azevedo talvez tenha sido quem mais aproveitou a liberdade de quem ainda tem espaço para crescer.
Atacou. Questionou subsídios concedidos a grandes empresas, entrou na discussão sobre a Cemig, mineração e Serra do Curral e procurou criar fatos durante o debate. Foi entre os candidatos, o mais combativo da noite.
Gabriel tem experiência justamente nesse tipo de ambiente. Argumenta bem, conhece o jogo institucional e gosta do confronto intelectual.
Seu problema não está no estúdio.
Está do lado de fora. Precisa transformar a capacidade de debate em votos num Estado gigantesco onde ainda é muito menos conhecido do que Cleitinho, Kalil ou o próprio governo que enfrenta.
Flávio Roscoe não teve um desempenho ruim, e talvez esse seja exatamente o problema. Candidato pouco conhecido não pode sair de um debate apenas com a avaliação de que “não foi mal”.
Precisa ser lembrado. Roscoe defendeu posições liberais, falou em privatização da Copasa, dívida e redução da burocracia. Para um candidato que ainda precisa apresentar ao eleitor inclusive sua própria existência política, discrição não é necessariamente virtude. Para o restante da campanha e na busca de ser mais conhecido, em círculos onde ele não tem protagonismo, Flavio precisa ser mais “agressivo”.
E houve ainda Patrus Ananias.
O curioso caso do candidato que conseguiu perder um debate sem participar dele.
Patrus havia sido convidado, mas não compareceu porque foi a São Bernardo do Campo acompanhar o lançamento da campanha presidencial de Lula.
Politicamente, é uma escolha reveladora.
Enquanto cinco candidatos discutiam Minas Gerais em Minas Gerais, o candidato do PT ao governo de Minas estava em São Paulo acompanhando a campanha presidencial.
Pode haver justificativa partidária. Do ponto de vista eleitoral, porém, a fotografia é péssima.
E ainda produziu outro efeito: deixou o governo Lula praticamente sem defensor no palco, justamente quando Mateus Simões fazia críticas a Brasília.
No final, portanto, não vejo um vencedor absoluto
Vejo caminhos desenhados que precisam ser validados e desenvolvidos.
Kalil precisava mostrar capacidade de confronto. Mostrou.
Simões precisava mostrar domínio administrativo. Mostrou.
Gabriel precisava aparecer. Apareceu.
Roscoe precisava aparecer mais. Faltou “pegada.”
Cleitinho precisava provar que sobreviveria duas horas diante de adversários depois da confusão extraordinária de sua candidatura.
Sobreviveu.
E Patrus precisava estar lá. Não estava.
Talvez esteja aí a principal conclusão do primeiro debate.
Cleitinho chegou como personagem central da eleição e saiu ainda como personagem central.
Depois de tudo que aconteceu em sua candidatura, seus adversários tiveram diante deles a primeira grande oportunidade para transformá-lo definitivamente numa candidatura improvisada e politicamente frágil.
Não conseguiram.
Isso não significa que Cleitinho ganhou o debate.
Significa algo eleitoralmente mais importante neste momento: ele saiu vivo dele.
E para quem está na frente, às vezes um empate vale uma pequena vitória.