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Cleitinho, Simões e a dívida: a eleição acabou, a conta chegou

Por Paulo Leite • Rede 98
23/10/2026 12:04 Atualizado há 2 horas
Cletinho e Mateus
Nas imagens, Cleitinho e Mateus Simões (Foto 1: Carlos Moura/Agência Senado - Foto 2: Alfredo Neto/PMU)

Minas Gerais começa a descobrir que o maior adversário do próximo governador não será a oposição, mas uma realidade fiscal que não se resolve com discursos, vídeos ou promessas.

Há uma espécie de generosidade tardia tomando conta do governo de Minas Gerais. Mateus Simões, derrotado nas urnas, resolveu apresentar à Assembleia Legislativa projetos que podem viabilizar algumas das principais promessas de seu adversário vitorioso, Cleitinho Azevedo.

Entre elas, a autorização para reduzir o IPVA em até 75% e a reposição inflacionária anual automática para os servidores da Segurança Pública.

Curioso. Durante a campanha eleitoral, o próprio Simões questionava a viabilidade financeira das propostas defendidas por Cleitinho. Agora, na despedida do governo, parece disposto a facilitar sua aprovação.

Não é difícil compreender por que essas medidas encontram simpatia na população. O contribuinte quer pagar menos impostos. O servidor deseja preservar seu poder de compra. Ambas as reivindicações são legítimas.

O problema é que existe uma diferença monumental entre defender uma boa intenção e apresentar as condições para financiá-la.

E Minas Gerais está muito distante de viver uma situação de tranquilidade financeira.

O tamanho da conta

O projeto de orçamento estadual para 2027, primeiro ano do governo Cleitinho, prevê receitas de aproximadamente R$145 bilhões e despesas de R$155,5 bilhões.

A diferença é um déficit de R$10,5 bilhões.

Não estamos falando de uma pequena insuficiência de caixa ou de um ajuste contábil. Estamos falando de uma previsão de gastos que superam a arrecadação em mais de dez bilhões de reais.

E existe um agravante.

Minas carrega uma dívida gigantesca com a União. O saldo reconhecido para o refinanciamento pelo Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados, o Propag, era de R$179,3 bilhões em dezembro de 2025. Hoje ultrapassa os R$ 210 bihões.

O prazo foi alongado para 30 anos e as condições financeiras melhoraram, com atualização pela inflação e juros reais zerados, conforme o acordo firmado.

É um avanço importante. Mas renegociar uma dívida não significa eliminá-la.

O Propag também estabelece compromissos de pagamentos, aportes e investimentos. E a retomada das amortizações será progressiva.

Em outras palavras, Minas ganhou condições melhores para administrar sua dívida, mas não recebeu autorização para ignorar suas obrigações.

Aliás, melhorar as condições de pagamento só produz resultados duradouros quando o devedor consegue controlar suas despesas e organizar suas receitas.

Caso contrário, a renegociação se transforma apenas num intervalo entre duas crises.

O desafio que Cleitinho não poderá evitar

Integrantes da equipe de transição já manifestaram preocupação com a possibilidade de o desequilíbrio fiscal comprometer o cumprimento das exigências do Propag.

A preocupação é compreensível. Mas também impõe uma responsabilidade ao governador eleito.

Cleitinho venceu prometendo um Estado mais eficiente, menos oneroso e mais próximo da população. Defendeu a redução do IPVA e criticou os custos da máquina pública.

Agora precisa apresentar o caminho.

Quais despesas serão reduzidas? Que estruturas administrativas poderão ser reorganizadas? Quais contratos passarão por revisão? Como evitar o crescimento permanente dos gastos obrigatórios? De onde virão os recursos para manter os serviços públicos?

Essas perguntas não podem ser respondidas com a esperança de que a arrecadação aumentará automaticamente depois de uma redução de impostos.

Isso pode acontecer em determinadas circunstâncias, mas exige estudos, projeções e condições econômicas concretas. Não pode ser tratado como uma certeza produzida pela vontade política.

Da mesma maneira, reduzir o desperdício e combater privilégios são objetivos indispensáveis. Mas é preciso demonstrar quanto dinheiro essas medidas efetivamente economizarão.

A contabilidade pública não aceita indignação como receita.

A responsabilidade de quem sai

Mateus Simões também não pode escapar desse debate.

O atual governador participou da administração estadual que negociou a dívida e conhece detalhadamente as limitações do orçamento mineiro.

Se considera viável reduzir o IPVA e estabelecer reajustes automáticos, deveria apresentar à sociedade as estimativas dos respectivos impactos financeiros e as fontes de compensação.

Se não considera, precisa explicar por que decidiu encaminhar as propostas justamente agora.

Conversando com dois deputados estaduais é quase certo que essas votações fiquem para 2027.

Não há decisão formal nesse sentido. Mas a disposição relatada faz sentido sob um aspecto: permitir que o governo responsável por executar o orçamento participe diretamente das escolhas que afetarão suas contas.

Isso não absolve os deputados da responsabilidade de discutir os projetos.

A Assembleia precisa deixar de ser apenas o lugar onde as boas intenções recebem aplausos e passar a exigir demonstrações de viabilidade.

Chegou a hora de trocar promessas por decisões

Minas precisa de impostos mais razoáveis, servidores valorizados, serviços eficientes e investimentos capazes de produzir desenvolvimento econômico.

Mas nenhum desses objetivos será alcançado por uma sucessão de promessas sem financiamento.

O governo que sai tem obrigação de apresentar contas transparentes. O governo que chega precisa explicar suas prioridades. E a Assembleia deve cobrar responsabilidade dos dois.

Cleitinho não pode ser responsabilizado por todos os desequilíbrios que encontrará. Mas será responsável pelas decisões que tomar para enfrentá-los.

Também não poderá passar quatro anos atribuindo ao antecessor a impossibilidade de executar seu programa.

Foi eleito para governar Minas como ela é, não como gostaria que ela estivesse.

E Minas é um estado com enormes potencialidades econômicas, mas também com limitações fiscais que exigem planejamento, competência e escolhas difíceis.

Mateus Simões está saindo. Cleitinho está chegando. A dívida permanece.

A eleição já decidiu quem ocupará o Palácio Tiradentes. Agora falta descobrir quem terá disposição para enfrentar os problemas que não aparecem nos vídeos de campanha.

Porque prometer um Estado mais barato é relativamente simples. Difícil é entregar um Estado mais barato sem torná-lo pior.

E a dívida pública tem uma característica desagradável para os políticos: ela não vota, não aplaude, não participa de manifestações e não se impressiona com discursos. Simplesmente vence.

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.