Na quinta-feira termina o chamado horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. Gratuito é um modo bastante generoso de chamar esse instrumento retrógrado de divulgação.
A legislação assegura às emissoras compensação fiscal pela cessão desse espaço. Portanto, ninguém precisa imaginar rádio e televisão oferecendo minutos de sua programação. Há compensação tributária prevista em lei. No fim das contas, como quase sempre acontece quando o Estado oferece alguma coisa “de graça”, alguém paga a conta.
E talvez seja simbólico que o horário eleitoral termine justamente quando a campanha abandona de vez as delicadezas.
Entramos na última semana
Em Minas Gerais, Cleitinho Azevedo continua comandando a disputa pelo governo, mas as duas pesquisas mais recentes apresentam fotografias diferentes sobre o tamanho dessa vantagem.
No Datafolha divulgado no dia 24, Cleitinho aparece com 40% dos votos totais e chega a 49% dos votos válidos, praticamente na porta de uma vitória em primeiro turno. Patrus Ananias tem 15% dos votos totais, seguido por Alexandre Kalil, com 9%, Mateus Simões e Flávio Roscoe, ambos com 5%.
A Real Time Big Data divulgada na manhã desta segunda-feira, 28, confirma a liderança, mas desenha um cenário mais confortável para a realização de segundo turno: Cleitinho tem 38%, Patrus 20%, Kalil 9%, Mateus Simões e Flávio Roscoe 8% cada, Gabriel Azevedo 5% e Ben Mendes 2%. Considerando apenas os votos válidos, Cleitinho aparece com 41%, contra 22% de Patrus. O levantamento ouviu 2 mil eleitores entre os dias 23 e 26 de setembro, tem margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
As metodologias são diferentes e, portanto, não cabe fazer média artesanal entre os institutos. Mas as duas pesquisas permitem uma conclusão factual: Cleitinho continua liderando com ampla vantagem; o que permanece em aberto é se essa vantagem será suficiente para liquidar a eleição no domingo ou se Minas terá segundo turno. O Datafolha o coloca no limite dessa possibilidade; a Real Time Big Data, divulgada hoje, mostra um cenário mais distante dela.
O tom das campanhas está subindo
Mateus Simões endureceu sua campanha contra Cleitinho. Flávio Roscoe continua tentando consolidar-se como representante do bolsonarismo mineiro, enquanto Cleitinho disputa justamente esse eleitorado. O próprio Datafolha já havia mostrado Cleitinho muito à frente de Roscoe entre os eleitores que se declararam bolsonaristas.
Cleitinho, por sua vez, chega à última semana depois de fazer uma campanha muito diferente das tradicionais.
Visitou centenas de municípios, conversou com prefeitos, lideranças e apoiadores. Mas passou boa parte da campanha longe do contraditório dos grandes debates e sabatinas.
E existe uma diferença importante entre percorrer Minas Gerais e ser confrontado sobre Minas Gerais.
Ambiente controlado permite discurso. Debate exige resposta.
O Governador não governa apenas para correligionários, prefeitos amigos e plateias simpáticas. Governa também para quem discorda, protesta, cobra e pergunta aquilo que candidato algum gostaria de responder.
A direita mineira protagoniza um espetáculo à parte
Romeu Zema continua candidato à Presidência, mas autorizou integrantes do Novo a apoiar Flávio Bolsonaro já no primeiro turno. A justificativa apresentada por apoiadores dessa movimentação é evitar uma eventual vitória de Lula. Zema, entretanto, mantém a própria candidatura.
É uma espécie de fidelidade partidária moderna: cada um permanece fiel enquanto não aparece uma conveniência melhor.
A política mineira entrou numa fase em que o direito eleitoral começa a flertar perigosamente com o direito de família. Tem rompimento, reconciliação, ciúme, candidato apoiando candidato de outro partido e gente esperando ser liberada para apoiar alguém diferente daquele que aparece no próprio santinho.
No plano nacional, a temperatura também subiu
Flávio Bolsonaro confirmou presença no debate da Rede Globo e desafiou Lula a comparecer. O encontro está previsto justamente para quinta-feira, último dia permitido para debates antes do primeiro turno.
E seria saudável que houvesse confronto direto.
Porque Lula e Flávio Bolsonaro têm explicações a dar.
O governo Lula reajustou o Bolsa Família em 15,04% a menos de vinte dias da eleição. É verdade que o ministro Gilmar Mendes considerou a medida regular e entendeu que ela representa recomposição inflacionária, não violação da legislação eleitoral. Isso é fato.
Mas também é perfeitamente legítimo, no debate político, perguntar pelo timing.
O mesmo vale para as bets.
Há razões sanitárias, sociais e econômicas relevantes para combater o vício em apostas. O problema da ludopatia é real e merece tratamento de política pública. O governo decidiu ir além e publicou medida provisória proibindo as bets no país.
Mas surgiu simultaneamente a discussão sobre medidas para aliviar o impacto financeiro nos clubes de futebol, inclusive com possibilidade de linhas de crédito e atuação do BNDES em infraestrutura.
Aí cabe outra pergunta. Por quê?
Clube de futebol é atividade econômica privada. Se perdeu patrocinador, precisa reorganizar receita, despesa e dívida. BNDES significa política pública de desenvolvimento. Transformá-lo em pronto-socorro de clube mal administrado exige, no mínimo, uma explicação muito convincente ao contribuinte.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro também não pode escolher quais perguntas aceita responder.
O financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, recebeu cerca de R$ 61 milhões de Daniel Vorcaro. Flávio confirmou ter pedido recursos ao então banqueiro. A Polícia Federal ainda cobra esclarecimentos sobre a operação e o caminho do dinheiro.
Portanto, não cabe decretar culpa antes da investigação.
Mas cabe exigir transparência.
Contrato, origem dos recursos, destino do dinheiro e prestação de contas.
Mentira não pode ter ideologia
Circulou a história de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Ele negou defender a proposta. André Mendonça determinou a retirada de publicações que considerou desinformativas. Depois, Flávio Dino derrubou a decisão e determinou o restabelecimento das postagens, fundamentando sua decisão na liberdade de expressão, mas deixou uma clara impressão de campanha para Lula, de quem foi ministro.
Lula, no entrevista coletiva da Band, alimentou a fake news, negando-se a desmenti-la e de maneira zombeteira disse que se uma notícia circula nas redes sociais com intensidade deve haver alguma coisa por trás.A Rede Globo, emissora da informação já desmentiu, Lula se aproveita da fake news.
Não se pode fazer é transformar a alegação em fato apenas porque ela prejudica o candidato de quem não gostamos.
Vale para Flávio Bolsonaro.
E vale exatamente da mesma maneira para Lula.
Essa talvez seja a maior doença desta eleição: cada torcida criou sua própria verdade.
Se a mentira prejudica meu adversário, compartilho. Se a investigação atinge meu candidato, relativizo.
Se o Supremo decide como eu gosto, é Justiça. Se decide contra mim, é perseguição.
E o jornalismo não pode entrar nessa arquibancada.
‘Pau que dá em Chico tem que dar em Francisco‘
Lula deve ser cobrado pelas decisões tomadas pelo governo na reta final da eleição. Flávio Bolsonaro deve explicar suas relações e as questões envolvendo o financiamento do Dark Horse. Cleitinho deve ser questionado sobre propostas e sobre sua opção de atravessar grande parte da campanha evitando ambientes de confronto. Patrus, Simões, Roscoe, Kalil e todos os demais devem responder pelo que propõem e pelo que fizeram.
Não é função do jornalismo escolher candidato para ninguém. É impedir, tanto quanto possível, que o eleitor escolha dentro de uma sala cheia de fumaça.
Domingo o brasileiro votará para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual.
E talvez a escolha mais negligenciada continue sendo uma das mais importantes: o Legislativo.
Porque o presidente passa. O governador passa. E até a paixão eleitoral passa.
Mas um deputado ruim costuma deixar lembrança por quatro anos. E senador, por oito.
Na última semana, portanto, seria conveniente trocar um pouco de torcida por informação.
O Brasil já tem cabo eleitoral demais. Está precisando desesperadamente de eleitor.