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O debate sem debate

Por Paulo Leite Rede 98
24/08/2026 12:48 Atualizado há 2 horas
Debate da Band
Debate da Band (Renato Pizzutto/Band)

O primeiro debate presidencial de 2026 talvez tenha produzido uma conclusão mais importante fora das respostas dos candidatos do que dentro delas: o debate eleitoral perdeu poder sobre os candidatos que lideram a eleição.

Lula não foi. Flávio Bolsonaro não foi. Romeu Zema também decidiu não comparecer. Restaram Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury no palco da Band neste domingo, 23 de agosto. Foi o menor número de participantes em um primeiro debate presidencial desde a redemocratização.

E poderia ter sido ainda mais constrangedor.

Augusto Cury chegou à Band anunciando que também desistiria do encontro. Depois voltou atrás e participou. Caso mantivesse a decisão, teríamos uma situação quase surreal. Um debate presidencial entre dois candidatos, Ronaldo Caiado e Renan Santos, enquanto os principais nomes da disputa assistiriam de longe, ou simplesmente fariam outra coisa. 

É difícil encontrar fotografia melhor da perda de importância dos debates como instrumento eleitoral.

Durante décadas, o candidato que faltasse a um grande debate precisava explicar a ausência. Hoje começa a ocorrer o contrário. O candidato comparece para concluir que isso lhe oferece alguma vantagem eleitoral.

É uma diferença enorme.

Lula e Flávio Bolsonaro fizeram, evidentemente, cálculos políticos diferentes, mas chegaram à mesma conclusão prática, naquele momento, o custo potencial de participar parecia maior que o benefício.

Flávio explicitou parte desse raciocínio. Durante o próprio debate, divulgou vídeo dizendo, em essência, que os candidatos presentes não eram seus verdadeiros adversários e que pretendia enfrentar Lula. É uma declaração eleitoralmente compreensível e democraticamente ruim.

Porque quem decide quem merece ser enfrentado num debate não deveria ser apenas a conveniência do candidato. O debate existe justamente para permitir que candidatos em situações eleitorais diferentes sejam confrontados em igualdade de condições.

Lula também se ausentou. E o resultado contém uma ironia da política.  Mesmo ausente, foi o nome mais citado. O principal alvo.

Renan Santos atacou Lula duramente. Caiado cobrou o presidente. Augusto Cury também dirigiu críticas ao governo. Flávio Bolsonaro, embora ausente e igualmente líder nas pesquisas, terminou em segundo plano nos ataques. 

Isso revela alguma coisa importante sobre a eleição.

Os candidatos que tentam romper a polarização continuam organizando boa parte de seus discursos em torno da própria polarização.

Querem superar Lula e Flávio falando de Lula e Flávio. É um paradoxo difícil de resolver.

Caiado: experiência e uma dificuldade

Ronaldo Caiado aproveitou o formato tradicional de um debate, usou sua experiência administrativa em Goiás, insistiu principalmente em segurança pública, economia e gestão e procurou transmitir a imagem de alguém que já governou e sabe executar aquilo que promete. A cobertura da Folha resumiu essa postura como uma forte exploração de sua identidade e de sua experiência goiana.

É sua principal qualidade eleitoral, mas pode ser também sua limitação.

Existe uma distância enorme entre convencer o eleitor de que determinada política funcionou em Goiás e demonstrar que ela pode ser transferida para um país continental, desigual e federativamente complexo como o Brasil.

Caiado apresentou autoridade administrativa. Ainda precisa transformar autoridade administrativa em projeto nacional.

Renan Santos: energia demais, filtro de menos

Renan Santos foi provavelmente o personagem mais barulhento da noite.

Usou provocações, ataques violentos e recursos de comunicação destinados claramente a produzir cortes para as redes sociais. Chegou à Band exibindo fraldas com os nomes de Lula e Flávio Bolsonaro. 

É impossível negar eficiência comunicacional ao gesto.

Também é impossível confundir eficiência comunicacional com densidade presidencial.

Renan conseguiu aquilo que pretendia: chamar atenção.

Mas existe uma linha perigosamente fina entre ser contundente e transformar o debate presidencial numa extensão dos conflitos das redes sociais.

Ao atacar Lula e até eleitores do presidente em termos extremamente agressivos, produziu momentos capazes de viralizar, mas também ofereceu ao eleitor uma pergunta inevitável: onde termina o candidato antissistema e começa simplesmente o provocador profissional?

Augusto Cury chegou a criticá-lo durante o debate justamente pelo grau de agressividade.  

Para quem precisa crescer rapidamente, o conflito dá visibilidade. Mas visibilidade não é necessariamente voto.

Cury: entre a conciliação e o personagem

Augusto Cury representou o contraponto.

Falou de educação, neurodivergência, saúde emocional e procurou ocupar o espaço do candidato moderador, contrário à agressividade política.

Temas relevantes apareceram em suas intervenções, principalmente na educação. 

O problema é que sua participação oscilou entre candidato presidencial, escritor motivacional e personagem peculiar daquela noite.

Sua quase desistência antes do debate, seguida da decisão de participar, já criou uma situação estranha. Depois vieram referências aos próprios livros e frases de efeito que algumas análises classificaram como momentos caricatos do programa.

Cury tentou vender serenidade. Em alguns momentos vendeu também Cury e seus livros.

E Zema?

Talvez um dos sinais políticos mais interessantes da noite tenha sido outro.

Romeu Zema faltou.

E quase ninguém sentiu sua falta.

Enquanto Lula e Flávio tiveram seus púlpitos vazios transformados em personagens, Zema praticamente desapareceu da narrativa do debate.  Para alguém que pretende romper a polarização, ser atacado pode ser inconveniente.

Ser ignorado talvez seja pior.

O problema maior

O ponto central, entretanto, não está em Caiado, Renan, Cury, Lula, Flávio ou Zema.

Está no próprio modelo.

O debate eleitoral nasceu para produzir confronto simultâneo.

Um candidato pergunta. O adversário responde. Há réplica. Há tréplica.

O eleitor pode comparar postura, conhecimento, capacidade de improvisação e reação diante do contraditório.

Mas as campanhas descobriram que existem maneiras muito mais controláveis de comunicação.

Entrevistas individuais, podcasts, vídeos próprios, midias sociais, lives.

Cortes cuidadosamente editados.

Nesses ambientes, o candidato controla muito melhor aquilo que chega ao eleitor. No debate, não.

Talvez por isso seja simbólico que, justamente nesta semana, a Globo comece uma série de entrevistas individuais com seis presidenciáveis, cada um em uma noite diferente. Lula será entrevistado no dia 27 de agosto e Flávio Bolsonaro no dia seguinte. A política está migrando do confronto simultâneo para a exposição controlada.

E isso ajuda a explicar o esvaziamento dos debates.

Antigamente, faltar poderia significar perder uma enorme audiência nacional para os adversários. Hoje o candidato pode faltar, publicar um vídeo cinco minutos depois e disputar a mesma narrativa nas redes.

Flávio fez exatamente isso domingo.

Democracia sem contraditório

Há, portanto, uma contradição incômoda.

Nunca tivemos tantos meios para os candidatos falarem com o eleitor.

E talvez nunca tenha sido tão fácil evitar conversar com o adversário.

O debate continua importante exatamente porque é uma das poucas situações da campanha em que o candidato perde o controle absoluto sobre a própria comunicação.

Não sabe exatamente qual pergunta receberá. Não escolhe a crítica. Não edita a resposta ruim. Não apaga a hesitação. Não escolhe o corte.

É justamente esse desconforto que torna o debate democraticamente valioso.

Se os favoritos descobrirem que podem simplesmente comparecer apenas aos encontros eleitoralmente convenientes, o debate deixa de ser instituição informal da eleição para virar mais um evento de campanha.

E domingo tivemos um aviso.

Começamos com seis convidados. Terminamos com três. Por alguns instantes quase ficamos com dois.

E, paradoxalmente, os dois candidatos mais importantes da eleição estiveram entre os personagens mais importantes de uma discussão da qual nem sequer participaram.

Talvez o maior problema dos debates presidenciais brasileiros seja não saber quem ganhou.

É descobrir, daqui para frente, quem ainda considera necessário aparecer para disputá-los.

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.