A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) instaurou um inquérito para apurar se prédios construídos no Belvedere, bairro da região Centro-Sul de Belo Horizonte, contribuíram para a elevação da temperatura média na capital. A investigação mira um possível crime ambiental relacionado à criação de “barreiras artificiais” que supostamente estariam bloqueando a circulação dos ventos naturais na cidade.
Aberto na última semana de 2025, o procedimento busca reunir elementos técnicos que permitam avaliar os possíveis impactos das edificações sobre o clima de BH. Em nota, a PCMG afirmou que a ação surgiu no âmbito da Central Estadual do Plantão Digital e, posteriormente, foi encaminhado ao Departamento Estadual de Investigação de Crimes Contra o Meio Ambiente (Dema).
Em entrevista à Rede 98, o delegado Daniel de Carvalho afirmou que abertura do inquérito foi motivada, entre outros pontos, por reportagens e estudos acadêmicos que demonstram o ônus ambiental das construções. “Se você fizer uma pesquisa rápida, há produtos que associam o aumento [de temperatura] aos prédios do Belvedere III”, disse.
Apesar disso, segundo ele, a questão também é levantada pela população em conversas do cotidiano. “Principalmente os moradores de Belo Horizonte. Quando vem a época de calor, esse assunto volta. Então nós resolvemos aprofundar a pesquisa”, apontou o delegado. Segundo ele, uma elevação artificial da temperatura pode caracterizar crime ambiental e gerar impactos diretos no bem-estar do público.
Registros favorecem investigações
No século XXI, Belo Horizonte tem mostrado tendência de aquecimento nas séries históricas de temperatura. Relatórios climáticos do portal meteorológico StatsClimat indicam que a tendência de aumento da temperatura média é de cerca de 0,29 °C por década no período entre 1970 e 2024.
Dados mais recentes apontam que a temperatura média anual da cidade aumentou aproximadamente 3 °C entre 2000 e 2024, alcançando cerca de 24,5 °C em 2024, segundo informações do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Um dos motivos da elevação seria os efeitos locais de urbanização.
Esse aumento térmico também se manifesta em episódios de calor extremo e médias mensais acima da climatologia em vários meses recentes, como observado no balanço de março de 2025. À época, as temperaturas máxima e mínima médias ficaram 1,4 °C e 1,3 °C acima dos valores climatológicos de referência (1991–2020), respectivamente.
PBH se manifesta
Procurada, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) não comentou o inquérito da PCMG, mas afirmou que “tem estruturado uma resposta integrada ao aumento das temperaturas na capital, combinando instrumentos normativos, planejamento urbano-ambiental e ações concretas de adaptação climática”. As ações seriam coordenadas pela Coordenadoria Especial de Mudanças Climáticas, em articulação com a Defesa Civil e secretarias municipais.
De acordo com a PBH, são duas as linhas de atuação: mitigação e adaptação. Na nota, o Executivo menciona o Plano Local de Ação Climática, com 88 ações integradas aos conceitos de mitigação e adaptação climática; o Plano de Redução de Emissões de Gases de Efeito Estufa, com 99 ações nos setores energia, transporte e resíduos; e o Plano Municipal de Arborização Urbana, com diretrizes de ampliação e conservação da cobertura arbórea; entre outros.
Nota da PBH na íntegra
A Prefeitura de Belo Horizonte tem estruturado uma resposta integrada ao aumento das temperaturas na capital, combinando instrumentos normativos, planejamento urbano-ambiental e ações concretas de adaptação climática, sob coordenação da Coordenadoria Especial de Mudanças Climáticas (COEMC), em articulação com a Defesa Civil e diversas secretarias municipais.
A PBH atua de forma contínua por meio da implantação de ações alinhadas à Política Municipal de Enfrentamento às Mudanças Climáticas, em curso desde 2006. Esta política conta com vários instrumentos, estudos, projetos e ações de abrangência intersetorial com fins de mitigação – promovendo redução de emissão de gases de efeito estufa, adaptação, aumento de resiliência e redução de risco aos desastres, bem como a promoção da justiça climática.
São duas as linhas de ações implementadas para atenuar os efeitos do aumento da temperatura: Mitigação – para lidar com as causas do aumento de temperatura, estruturada na redução de emissões de gases de efeito estufa, e Adaptação – que lida com as consequências, com vistas a atenuação, aumento da resiliência, resposta ao risco.
O Plano Local de Ação Climática de Belo Horizonte (PLAC-BH) – 2022 apresenta 88 subações integradas aos conceitos de mitigação e adaptação climática, estabelecidas a partir de três eixos: Mais Vida, Menos Vulnerabilidade; Mais Vozes, Menos desigualdade; Mais Verde, Menos Emissões. Várias ações já se encontram em andamento.
Para orientar o planejamento das ações de mitigação do município, Belo Horizonte publica, anualmente, o Inventário de Emissão de Gases de Efeito Estufa, com uma série histórica e comparativa de dados desde 2009. Além disso, tem-se o Plano de Redução de Emissões de Gases de Efeito Estufa de Belo Horizonte (PREGEE) elaborado em 2013 e revisado em 2020, no qual foram estabelecidas 99 ações nos setores energia, transporte e resíduos.
Dentre as principais ações e programas desenvolvidas com integração intersetorial, está a implementação do Plano Municipal de Arborização Urbana – PMAU (2025), com diretrizes de ampliação e conservação da cobertura arbórea urbana; a implantação dos Refúgios Climáticos que objetiva a disponibilização gratuita e em locais públicos de água potável para hidratação, hastes nebulizadoras/aspersoras de molhamento, áreas sombreadas e de descanso; a Ampliação da Arborização e Implantação de Miniflorestas, com o plantio adensado de mudas em áreas de maior vulnerabilidade térmica – em 2025 alcançando a meta de 50 mil árvores plantadas; o Programa Renascente- BH que recupera as áreas de nascente por meio também do plantio de mudas; o Escola Verde que por meio das ações de plantio visa a transformação desses espaços em ecossistemas verdes; o Poliniza BH, que promove, a partir da implantação de meliponários, o aumento da polinização das áreas verde e o aumento da cobertura vegetal urbana; o Desconcreta-BH que visa o aumento das áreas de cobertura permeável vegetada.
No eixo normativo e de gestão do risco, a PBH está implementando o Protocolo de Calor de Belo Horizonte (2025/2026), que organiza a atuação intersetorial do Município frente a eventos de calor extremo. O Protocolo estabelece níveis graduais de alerta, define fluxos de monitoramento meteorológico, comunicação de risco à população e ações preventivas e de resposta, com atenção especial aos grupos mais vulneráveis, como idosos, crianças, pessoas com doenças crônicas e populações em maior vulnerabilidade. Trata-se de um instrumento técnico-operacional alinhado às evidências científicas e à experiência acumulada da Defesa Civil e da rede municipal de saúde.
