A Polícia Civil indiciou quatro médicos pela morte de um bebê de 2 meses, em julho de 2024, em Congonhas, na região Central de Minas. Na época, a criança deu entrada em unidades de saúde da cidade, quatro vezes, com sintomas respiratórios. O inquérito concluiu que houve negligência médica e indiciou os médicos por homicídio culposo, quando não há intenção de matar.
No inquérito, a Polícia Civil aponta possíveis falhas em diferentes etapas dos quatro atendimentos prestados à criança, desde a primeira passagem por uma unidade de saúde até a internação no Hospital Bom Jesus.
Na conclusão, a polícia sustenta que as sucessivas liberações para tratamento em casa e a forma como o atendimento foi conduzido enquanto o quadro se agravava, justificam a análise conjunta da atuação dos quatro médicos.
Relembre o caso
A morte do bebê aconteceu há pouco mais de dois anos. Segundo o inquérito, o primeiro atendimento, em função de sintomas respiratórios, ocorreu em 1º de julho de 2024, na Unidade Básica Joaquim Murtinho, em Congonhas. Dias depois, o quadro piorou e o bebê voltou a ser levado pela família para atendimento em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA).
O inquérito reconstrói quatro passagens da criança por unidades de saúde entre o início dos sintomas e a morte. O primeiro atendimento em uma unidade básica, outros dois na UPA e, por fim, a passagem pelo Hospital Bom Jesus.
O relatório diz que no primeiro atendimento, no posto de saúde José Murtinho, a médica responsável avaliou a criança e diagnosticou um quadro de alergia. A investigação questiona a ausência de exames complementares e considera que o quadro respiratório não teria sido reconhecido naquele momento.
Quatro dias depois, a criança foi atendida na UPA. O diagnóstico passou a ser de bronquiolite, após exames de raio-X. A criança voltou para casa com prescrição de medicamentos. Mesmo assim, o bebê foi liberado para continuar o tratamento em casa.
Segundo Jennifer Sabino, mãe do bebê, a criança não apresentou melhora mesmo após o primeiro atendimento e precisou retornar outras vezes às unidades de saúde.
“Ela (a médica) avaliou e em seguida receitou uma medicação que foi ministrada durante cinco dias. Só que nesses cinco dias, ele evoluiu pior. E aí, no quinto dia, eu o levei no segundo atendimento”, disse a mãe sobre a primeira passagem da família por unidade de saúde.
Já no terceiro atendimento, dois dias depois do segundo, um outro médico pediu exame de sangue e alterou o diagnóstico para bronquite. A criança novamente voltou para casa.
A Polícia Civil considerou que as sucessivas liberações precisam ser analisadas dentro da evolução do quadro. No relatório, o delegado aponta possível subestimação da gravidade da condição apresentada pelo bebê e entendeu que a demora para um atendimento hospitalar mais complexo teria contribuído para o agravamento.
“Não foi falta de eu, mãe, levar ele uma, duas, três, quatro vezes e ter toda aquela atenção com ele dentro de casa, observar cada coisinha ali que não estava certa”, relatou Jennifer.
Um dos profissionais ouvidos durante a investigação chegou a afirmar não ser pediatra. O relatório, porém, registra que ele constava no sistema da UPA como médico pediatra. Esse ponto também foi considerado pela Polícia Civil na análise da conduta adotada naquele atendimento.
Demora no cuidado
Com a continuidade da piora, a família procurou o Hospital Bom Jesus. Segundo o relato da mãe, a criança já apresentava dificuldade para respirar e sudorese. Ela conta que o bebê passou por novos exames e acabou sendo internado.
Durante a noite, o quadro respiratório se agravou e houve a tentativa de transferência para uma UTI pediátrica na manhã seguinte.
“Quando o próximo médico, às 7h da manhã, pegou o plantão, ele me falou que o estado de saúde estava grave e que ele precisava ser transferido urgentemente”, disse a mãe.
Após tentativas de estabilização e episódios de paradas cardiorrespiratórias, ela não resistiu e morreu momentos antes de ser transferida. No inquérito, a Polícia Civil questiona a demora na adoção de determinadas medidas e na transferência para uma unidade de maior complexidade.
A investigação também reuniu relatos sobre possíveis problemas em equipamentos utilizados durante o atendimento no Hospital Bom Jesus. A mãe afirma que presenciou vazamento em uma válvula de oxigênio e dificuldades no uso de alguns aparelhos. Outros depoimentos reunidos no inquérito também mencionam falhas na estrutura.
Família pede Justiça
Em entrevista à Rede 98, Jennifer Sabino, a mãe da criança contou que decidiu buscar respostas e citou as sucessivas idas aos serviços de saúde. Ela relatou que, depois da morte, começou a reconstruir os atendimentos e decidiu procurar o Ministério Público para pedir uma investigação.
“Alguma coisa não está certa, vou para o Ministério Público”, disse [mãe]. “Quero saber o que aconteceu com meu filho”, completou.
Dois anos depois da morte, a expectativa dela agora está concentrada na análise do caso pelas autoridades.
“O que a gente quer de verdade não é vingança. A gente quer justiça para que outra família não passe pela dor que a gente está passando”, finalizou.
A Rede 98 procurou a Prefeitura de Congonhas e as unidades de saúde citadas, e o Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais, até o momento da publicação, não obteve retorno. A reportagem também tentou localizar a defesa dos profissionais, mas não obteve êxito. O espaço permanece aberto para manifestação.
