A ação coordenada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, na manhã deste sábado (28/2), marca uma mudança importante na forma como o Ocidente lida com o governo de Teerã, segundo especialistas. Em momentos anteriores, a pressão internacional estava concentrada principalmente no programa nuclear iraniano. Agora, analistas avaliam que a ofensiva tem um alcance mais amplo e pode atingir diretamente a permanência do atual regime no poder.
Críticos do governo iraniano afirmam que a medida busca enfraquecer a liderança religiosa que comanda o país desde 1979 e reduzir o apoio do Irã a grupos aliados no Oriente Médio. Já aliados de Teerã classificam a ação como interferência externa e ataque à soberania nacional.
Possíveis motivações
A tensão não se limita ao Oriente Médio. China e Rússia mantêm relações estratégicas com o Irã e acompanham a situação de perto. É o que explica Beny Fard, especialista em investimentos e negócios internacionais, nascido no Irã. “É importante lembrar o contexto histórico de que China, Rússia e seus aliados no Oriente têm interesse que a situação iraniana permaneça como está em benefício econômico geopolítico deles mesmos. O petróleo iraniano abastece a Rússia e especialmente a China há muitas décadas num valor subestruturado. Isso é bom para a China”, explicou.
O cientista político Wilson Mendonça também analisou o conflito e traçou uma comparação com a Guerra Fria. “Levando-se em conta que o grande comprador do petróleo iraniano é a China e um grande aliado estratégico geopolítico do Irã é a Rússia, percebemos que continuamos com essas guerras de procurações, retomando de certa maneira o que já acontecia na Guerra Fria, mas com uma roupagem um pouco mais distinta nos dias atuais”, comentou.
O que pode acontecer agora?
Um dos maiores temores é o que pode ocorrer após os ataques. Sem um plano claro para o “dia seguinte”, existe o risco de instabilidade interna ou até de confrontos entre grupos dentro do próprio país. “Não havendo plano de pós-intervenção, a possibilidade de um caos civil, de uma guerra civil instalada, é a maior preocupação a partir de agora”, explicou Wilson Mendonça.
Isso também impacta, segundo ele, as tentativas de Donald Trump de formar um Conselho de Paz. As negociações que vinham sendo discutidas ficam praticamente suspensas em meio à escalada de tensão.