A escalada do conflito envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos acendeu o alerta no mercado internacional de energia e já provoca reflexos no Brasil. A tensão na região pressiona o preço do petróleo, impacta cadeias logísticas globais e levanta preocupações sobre fertilizantes, exportações do agronegócio e custos industriais.
Em entrevista ao programa Start 98 News, da 98 News, o membro da Câmara da Indústria de Petróleo e Gás da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Vitório Sampaio Neto, avaliou que o momento exige cautela e monitoramento constante.
Segundo ele, os efeitos ainda são recentes, o conflito ganhou força no último sábado, e qualquer análise definitiva seria prematura. “Os impactos imediatos exigem muita cautela. As interferências são extremamente elevadas e as políticas precisam ser analisadas com muita criticidade”, afirmou.
Estreito de Ormuz e fertilizantes no radar
Um dos principais pontos de atenção é o Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo consumido no mundo. Qualquer interrupção no fluxo marítimo pode afetar preços e cadeias globais de suprimento.
No caso brasileiro, o especialista destacou a dependência do país em relação aos fertilizantes importados do Irã. Dados recentes do Ministério da Indústria e Comércio indicam que 94% das importações brasileiras desse insumo tiveram origem no país do Oriente Médio. “Isso tem implicação direta no agronegócio”, ressaltou.
Ao mesmo tempo, o Brasil mantém fluxo relevante de exportações de frango, soja e milho para o Irã e outros mercados do Oriente Médio. Com a instabilidade, há risco de interrupção ou redirecionamento dessas vendas. “A soja já está com preço deprimido. A impossibilidade de fornecer para um canal importante de exportação também gera reflexos econômicos”, observou.
Petróleo e gás: impacto direto é limitado
No setor de petróleo e gás, o cenário é considerado menos crítico para o Brasil no curto prazo. De acordo com Vitório, a atuação da Petrobras e de empresas internacionais no offshore brasileiro reduz a dependência de importações do Oriente Médio.
Além disso, grande parte das exportações brasileiras de petróleo e derivados está direcionada à Ásia, especialmente à China. “Do ponto de vista de comercialização de gás natural, óleo e petróleo, o impacto imediato é pequeno. Mas, dependendo da duração do conflito, poderemos ter reflexos adicionais”, alertou.
Minas Gerais pode sentir efeitos no agro
Ao analisar os impactos regionais, Vitório destacou que Minas Gerais é um importante produtor de commodities agrícolas, com forte presença na soja, no milho e na produção de frango. As exportações utilizam, principalmente, portos do Rio de Janeiro e do Espírito Santo.
Com contratos já firmados e prazos estabelecidos, eventuais restrições logísticas podem gerar dificuldades no cumprimento das entregas. “Estamos falando de estoques com vida útil. A suspensão de vendas pode obrigar a retenção desses produtos e isso gera incertezas”, explicou.
Outra preocupação é o custo do frete marítimo. A necessidade de rotas alternativas pode encarecer o transporte e ampliar prazos de entrega, impactando a rentabilidade das operações.
Contratos e novos mercados
Diante do cenário instável, o especialista recomenda que as empresas analisem cuidadosamente cláusulas contratuais, especialmente as relacionadas a força maior e riscos geopolíticos. Produtos já comercializados precisarão de reavaliação logística caso as rotas tradicionais permaneçam comprometidas.
Além disso, mercados que vinham sendo trabalhados podem ter negociações suspensas, exigindo redirecionamento da produção para novos destinos. “Será necessário um empenho adicional na busca por novos mercados, com apoio de políticas públicas que facilitem essas alternativas”, defendeu.
Vitório ressaltou que o momento é de atenção redobrada por parte do setor empresarial, entidades de classe e governo. “A economia mundial é totalmente interligada. O Brasil é um player importante no comércio internacional. Precisamos acompanhar os fatos concretos dos próximos dias para avaliar o reequilíbrio das relações comerciais.”
