Mais horas no celular e menos tempo brincando ao ar livre ajudam a explicar por que a miopia infantil virou uma preocupação mundial. Às vésperas do Dia Mundial da Visão, celebrado nesta quinta-feira (8/10), o oftalmologista Tiago César Pereira Ferreira, membro da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, explica à 98 FM como proteger a visão das crianças.
Segundo o médico, os consultórios têm recebido mais crianças com miopia e mais famílias preocupadas com o aumento do grau. Ele faz uma ressalva: não há estudo que meça esse aumento em Belo Horizonte. A tendência, porém, ganhou força no Brasil durante e depois da pandemia. Em levantamento do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), sete em cada dez oftalmologistas relataram perceber a progressão da miopia em crianças.
Por que a luz do dia protege os olhos
A miopia acontece quando o olho cresce mais do que deveria no sentido do comprimento. Com isso, a imagem dos objetos distantes se forma antes da retina e fica embaçada. A genética pesa, e filhos de pais míopes têm risco maior. Mas os hábitos também contam.
Tiago César Pereira Ferreira explica que o uso de telas costuma vir junto com muitas horas olhando de perto, a curta distância e sem pausas. Ainda assim, a ciência não permite dizer que a tela, sozinha, cause miopia.
Um dos fatores mais bem comprovados é o outro lado da rotina: passar pouco tempo ao ar livre. A luz natural é muito mais intensa que a de dentro de casa e estimula mecanismos na retina, ligados à dopamina, que ajudam a regular o crescimento do olho. Por isso, a recomendação é que a criança tenha cerca de duas horas de atividades externas por dia.
Essas duas horas não precisam ser seguidas. O recreio da escola, uma ida à praça, uma brincadeira no condomínio ou um esporte entram na conta.
Quanto tempo de tela por idade
O oftalmologista lembra que tirar as telas da vida das crianças não é realista, porque elas fazem parte da escola e do lazer. As recomendações brasileiras usadas como referência orientam:
- Menores de 2 anos: evitar telas
- De 2 a 5 anos: cerca de 1 hora por dia
- De 6 a 10 anos: de 1 a 2 horas por dia
- Adolescentes: manter limites e evitar períodos muito longos
Para os olhos, além do tempo total, importa como a tela é usada. O médico aconselha pausas frequentes e não deixar o celular ou o tablet quase encostado no rosto. Uma dica fácil é a regra 20-20-20: a cada 20 minutos olhando de perto, olhar por 20 segundos para algo a cerca de seis metros de distância.
“Quando os adultos também diminuem o celular nos momentos em família, a adesão da criança costuma ser muito mais fácil”, afirma Tiago César Pereira Ferreira.
Sinais de alerta e primeiro exame
Os pais devem desconfiar quando a criança se aproxima muito da TV, do caderno ou das telas, aperta os olhos para enxergar de longe ou reclama que não lê o quadro da escola. Dor de cabeça, cansaço visual e queda no rendimento escolar também são sinais.
O oftalmologista alerta que muitas crianças não reclamam. “Ela pode acreditar que aquela visão é normal porque nunca enxergou de outra maneira”, explica. Por isso, o exame não deve esperar sintomas.
O cuidado começa no teste do olhinho, logo ao nascer. Para crianças saudáveis, a orientação é fazer um exame oftalmológico completo entre 6 e 12 meses de vida e outro entre 3 e 5 anos, de preferência por volta dos 3. Depois disso, o acompanhamento deve ser periódico.
Tratamentos para frear o grau
Quando a miopia avança, a criança não precisa apenas trocar de óculos a cada aumento de grau. Hoje existem estratégias para desacelerar a progressão, como colírio de atropina em baixa concentração, lentes de óculos com desenho específico, algumas lentes de contato e, em casos selecionados, a ortoceratologia.
Segundo Tiago César Pereira Ferreira, não existe tratamento único. A escolha depende da idade, do grau, da velocidade de progressão e do histórico familiar. “O objetivo não é prometer que a miopia vai parar completamente, mas tentar reduzir sua velocidade de progressão”, afirma. Assim, diminui a chance de a criança chegar à vida adulta com um grau muito alto.
