A CPI do Crime Organizado chega ao fim nesta terça-feira, 14 de abril de 2026, cercada por depoimentos frustrados, freios institucionais e a velha sensação brasileira de que, por aqui, investigação boa é a que para antes de incomodar gente grande, deixando no ar um cheiro amargo de frustração.
Não porque faltasse assunto. Faltou espaço político para que o assunto avançasse. A comissão nasceu com a missão de apurar a atuação, a expansão e o funcionamento de organizações criminosas no país, especialmente facções e milícias, com prazo de 120 dias. Terminou, porém, menos como uma ofensiva robusta do Estado e mais como o retrato de um país onde as instituições se armam até os dentes para enfrentar o varejo do crime, mas começam a perder a firmeza quando a trilha da investigação leva ao atacado do poder.
O descompasso das ações da CPI
O dado mais eloquente dessa agonia institucional é brutal, A CPI aprovou a oitiva de ao menos 110 pessoas, mas ouviu apenas 18. Mais de 90 ficaram pelo caminho. É número demais para ser tratado como detalhe burocrático. Quando uma comissão parlamentar termina sem ouvir a maioria esmagadora de quem pretendia convocar, não estamos diante de um simples revés regimental.
Estamos diante de uma mutilação política. A CPI não fracassou apenas por ter produzido pouco; ela foi empurrada para produzir menos do que podia. E, no Brasil, reduzir o alcance de uma investigação costuma ser a forma mais elegante de enterrá-la sem precisar assumir o enterro.
O coveiro Alcolumbre
A decisão de não prorrogar os trabalhos ajuda a compor esse quadro. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, decidiu manter o encerramento da comissão sob a justificativa de que 2026 é ano eleitoral e que não seria adequado estender a CPI nesse contexto.
O relator Alessandro Vieira reagiu dizendo que a decisão prestava um desserviço ao Brasil. E, convenhamos, aqui a realidade fala mais alto do que a liturgia, crime organizado não respeita calendário eleitoral, facção não tira férias porque o Senado entrou em modo campanha, milícia não suspende atividade porque Brasília resolveu buscar “paz” no ano da urna. Quando o argumento para frear uma investigação é o calendário político, o que se admite, ainda que de maneira envernizada, é que a conveniência passou a mandar mais do que a urgência.
A interferência providencial do STF
Mas não foi apenas o relógio da política que esvaziou a CPI. Houve também a sucessão de decisões judiciais que, na prática, reduziram o alcance da comissão. Reportagens e declarações públicas ao longo da reta final registraram críticas do presidente da CPI, Fabiano Contarato, ao Supremo por barrar convocações e quebras de sigilo. O ministro André Mendonça, por exemplo, dispensou o ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, de depor; também houve menções a entraves envolvendo Cláudio Castro e outras frentes de apuração. O problema aqui não é discutir o direito de defesa, que é sagrado. O problema é o efeito acumulado.
Quando um instrumento constitucional de investigação vai sendo cercado, podado, convertido em rito sem dentes, a mensagem transmitida à sociedade é devastadora: o Parlamento pode investigar, desde que não investigue demais.
Um relatório politicamente avassalador
O desfecho veio carregado de pólvora política. O relatório final que será apresentado nesta terça-feira pelo senador Alessandro Vieira, e que foi antecipado em reportagem do Estadão, pediu o indiciamento, por crimes de responsabilidade, dos ministros do STF Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet. Segundo fontes ouvidas por essa coluna, o documento fala em suspeição, conflito de interesses, omissão e decisões que teriam impactado investigações. Também menciona o caso Banco Master como ponto central da apuração.
É importante dizer com todas as letras: trata-se de acusações lançadas no relatório da CPI, não de condenações. E, mais importante ainda, mesmo que o relatório seja aprovado, os pedidos não produzem efeito automático: dependem de encaminhamento e decisão política do presidente do Senado. Ou seja, a CPI termina mirando o topo do Judiciário e da PGR, mas a eficácia desse tiro continua dependente da vontade do mesmo sistema que, até aqui, já demonstrou pouco apetite por confronto real.
A terrível nudez das instituições
Há, portanto, uma ironia quase cruel nesse encerramento. A comissão foi criada para investigar o crime organizado, mas seu fim ilumina outra paisagem: a da desorganização institucional no combate ao poder quando ele deixa de usar capuz e passa a circular de terno, gravata, toga ou influência de gabinete.
Não se trata de absolver o espetáculo, porque CPI´s gostam de holofotes e muitas vezes confundem apuração com palanque. Mas também não dá para fingir que tudo correu normalmente. A leitura que emerge desse episódio é a de um ambiente político que prefere relatórios inofensivos, investigações interrompidas e crises domadas antes que elas encostem nas camadas mais sensíveis da República.
No fundo, o que essa CPI escancara é uma doença antiga do Brasil, a de que a coragem institucional tem CEP. Ela costuma funcionar melhor quando se mira o criminoso tradicional, visível, periférico, fotografável.
Quando a trilha do dinheiro e da influência começa a apontar para zonas mais acarpetadas, o sistema se torna subitamente cauteloso, processual, melindrado, quase alérgico ao excesso de investigação. A lei continua existindo. Os discursos continuam duros. As notas oficiais continuam impecavelmente redigidas. Mas a potência real do Estado vai diminuindo na mesma velocidade em que cresce o desconforto dos poderosos.
Eis o saldo mais incômodo de tudo isso. A CPI do Crime Organizado termina sem deixar a sensação de que o crime foi acuado. O que fica é a impressão amarga de que, no Brasil, certas investigações não morrem de falta de provas, nem de falta de fatos, nem de falta de nomes. Morrem de excesso de proteção ao entorno do poder. E quando uma CPI chega ao fim assim, esvaziada, podada e encerrada antes de ouvir quem precisava ouvir, o recado que sobra para a sociedade é péssimo. Não é o crime que parece sitiado. É a verdade.
