Com João Vitor Bedran
O recesso parlamentar chegou à Assembleia Legislativa de Minas Gerais deixando uma impressão curiosa. Oficialmente, o semestre terminou. Na prática, a próxima legislatura já começou.
Enquanto a maioria dos 76 deputados estaduais ainda concentra esforços na própria reeleição, um parlamentar já parece disputar outra eleição, a da presidência da Assembleia.
Nos corredores da Casa, a movimentação em torno do deputado Doorgal Andrada (PP) ganhou intensidade. As conversas entre os parlamentares giram em torno da informação de que Doorgal considera sua eleição para deputado estadual uma etapa vencida e que ele já se movimenta para sua eleição à presidência da casa do Legislativo mineiro a partir de 2027.
Esse tipo de antecipação não é apenas incomum, ela altera o equilíbrio interno da Casa. Ao antecipar uma disputa que tradicionalmente se resolve apenas após a definição das bancadas, cria-se um ambiente de reação entre os pares, que passam a recalibrar suas próprias estratégias diante de um movimento percebido como prematuro.
O tradicional rito da escolha
Presidências de Assembleias Legislativas não são conquistadas apenas pela força eleitoral. São construídas lentamente, voto a voto, relação a relação, respeitando um princípio básico da política. Ninguém gosta de ser tratado como voto garantido antes da hora. Mais do que isso, a construção de maioria exige leitura fina de contexto, capacidade de acomodação de interesses e, sobretudo, timing político.
Nos bastidores, parlamentares relatam desconforto com uma articulação que envolveria também o deputado federal Pinheirinho (PP), atuando na construção dessa candidatura junto a lideranças estaduais. Parlamentares federais costumam influenciar alianças e fortalecer nomes, mas a percepção dos deputados estaduais é que há limites claros para essa atuação quando se trata da dinâmica interna da Assembleia, historicamente marcada por forte autonomia institucional.
A percepção de ingerência externa, nesse contexto, tende a produzir efeito contrário ao desejado. Em vez de consolidar apoios, pode estimular resistências, sobretudo em uma Casa onde o equilíbrio de forças depende de negociações horizontais e não de imposições verticais.
A indicação de Ione Pinheiro
Outro fator relevante para compreender o ambiente político recente foi a indicação da deputada Ione Pinheiro para o Tribunal de Contas do Estado. A escolha encerrou uma das disputas mais importantes do semestre. Após passar pela Comissão Especial, ela foi eleita pelo Plenário da ALMG para ocupar a vaga destinada ao Legislativo, tornando-se a primeira mulher indicada pela Assembleia para integrar o TCE mineiro.
Decisões como essa, que exigem ampla articulação, tendem a ser apropriadas simbolicamente por diferentes atores, porém, deputados estaduais que conversaram com essa coluna, relatam incômodo com tentativas de individualização desse processo por parte de Doorgal, o que evidencia uma tensão clássica entre protagonismo político e construção coletiva.
Quando um parlamentar sugere que determinada vitória ocorreu “graças” exclusivamente à sua articulação, acaba reduzindo o papel dos demais. Em uma Casa composta por 77 deputados, esse tipo de narrativa não apenas fragiliza relações, como também reconfigura o mapa de alianças, criando zonas de resistência que podem se manifestar em disputas futuras, como a própria eleição para a presidência.
O componente partidário
Doorgal Andrada fez movimentos para sua filiação ao PSD, mas depois de avaliação do cenário político prevaleceu a avaliação de que o partido já reunia lideranças suficientes disputando espaço interno, o que dificultaria a consolidação de um projeto competitivo para a presidência da Assembleia. A migração para o PP, nesse sentido, não foi apenas uma escolha de filiação, mas uma decisão estratégica voltada à construção de viabilidade política em um ambiente partidário menos congestionado.
Historicamente, as presidências da ALMG são definidas apenas após a eleição estadual, quando variáveis estruturais, como o tamanho das bancadas, a posição em relação ao governo, a força da oposição e os interesses regionais, passam a orientar as negociações de forma mais objetiva. Hoje, essas variáveis ainda são desconhecidas.Por isso, a principal leitura do momento talvez seja outra.
Ao se colocar como candidato antes da definição do cenário, um parlamentar deixa de operar no campo da construção silenciosa e passa a atuar sob escrutínio permanente dos pares. E, quando a campanha para presidente da Assembleia começa antes mesmo da campanha para deputado terminar, o risco é claro, transformar uma candidatura potencialmente viável em um polo de resistência interna.
Na política mineira poder não se anuncia. Poder se constrói.
E, quase sempre, em silêncio.