Há uma diferença enorme entre ser surpreendido por uma crise e escolher agir como se ela não fosse acontecer.
O tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil não nasceu da noite para o dia. Donald Trump passou toda a campanha eleitoral prometendo ampliar barreiras comerciais, proteger a indústria americana e usar tarifas como instrumento de política externa. Depois de assumir a Presidência, transformou a promessa em prática. O mundo inteiro passou a recalcular seus riscos. O Brasil, aparentemente, continuou apostando que uma boa conversa resolveria o problema.
Os caminhos intrincados da diplomacia
A diplomacia é indispensável. Nenhum país sério abandona a negociação. Mas a diplomacia não substitui planejamento econômico. O erro do governo brasileiro foi tratar as duas coisas como se fossem alternativas, quando deveriam caminhar juntas.
Enquanto Brasília insistia na expectativa de convencer Washington a rever sua posição, faltou fazer o dever de casa.
Era evidente que existia uma probabilidade real de o tarifaço ser confirmado. Diante dessa possibilidade, o governo deveria ter colocado em marcha um plano nacional de contingência.
Onde estavam as linhas especiais de financiamento para empresas exportadoras? Onde estava uma estratégia agressiva de abertura de novos mercados, da economia que continua fechada? Onde estava um pacote para preservar empregos nos setores mais expostos? Onde estava uma política de ajuste fiscal, redução de custos para aumentar a competitividade da indústria brasileira?
Em vez disso, o debate econômico permaneceu preso a uma agenda doméstica marcada por aumento de arrecadação, conflitos fiscais e dificuldade para construir confiança.
O Brasil entrou numa guerra comercial internacional sem fortalecer sua própria economia. E isso faz diferença.
A importância da responsabilidade fiscal
Países enfrentam choques externos de maneira muito diferente dependendo da solidez de suas contas públicas. Quando um governo transmite responsabilidade fiscal, investidores aceitam momentos difíceis com mais serenidade. A moeda sofre menos. O crédito permanece disponível. Empresas conseguem atravessar períodos de turbulência. No Brasil, aconteceu justamente o contrário.
Nos últimos meses, o mercado discutia aumento da dívida pública, dificuldade de cumprimento das metas fiscais, insegurança sobre o equilíbrio das contas e uma política econômica excessivamente dependente da elevação de impostos. Em vez de ampliar a margem de manobra do Estado, o governo reduziu sua capacidade de reação.
Quando a tarifa finalmente chegou, sobram discursos e faltam instrumentos.
Crises não oferecem prazo para reflexões
Nenhuma dessas medidas garantiria que Donald Trump desistisse das tarifas. Seria ingenuidade acreditar nisso. A decisão americana envolve interesses políticos, eleitorais e estratégicos que extrapolam a relação bilateral com o Brasil.
Mas preparar o país para um cenário adverso nunca depende da boa vontade do adversário. Depende apenas da competência do governo.
O que se viu foi uma aposta excessiva na diplomacia de última hora, quase como quem acredita que o relógio pode ser convencido a parar. Enquanto isso, empresas continuavam sem saber como reorganizar exportações, setores produtivos aguardavam respostas e investidores assistiam à deterioração das expectativas.
O governo parece ter confundido esperança com estratégia.
As dificuldades do Brasil
Muito antes do tarifaço, o Brasil já apresentava dificuldades para crescer de forma consistente. A produtividade permanece baixa. A burocracia continua elevando custos. A infraestrutura ainda limita a competitividade. A reforma administrativa segue parada. O gasto público continua crescendo acima da capacidade estrutural do Estado.
Em outras palavras, o país chegou fragilizado antes mesmo do impacto externo. O tarifaço apenas tornou mais visíveis problemas que já existiam.
Crises internacionais não criam todas as dificuldades de uma economia. Frequentemente apenas revelam aquilo que governos preferiram adiar.
É exatamente por isso que liderança econômica não consiste apenas em reagir aos acontecimentos. Consiste em antecipá-los.
Governar significa imaginar o pior cenário enquanto todos ainda torcem pelo melhor.
O Brasil fez o contrário.
Esperou. Esperou que a negociação resolvesse. Esperou que Washington recuasse. Esperou que o problema diminuísse sozinho.
Nenhuma dessas apostas se confirmou.
Agora resta administrar os prejuízos de uma crise que talvez fosse inevitável, mas cujos efeitos poderiam ter sido significativamente menores se o país tivesse chegado mais preparado.
Na economia, como na política, o improviso costuma ser muito mais caro do que prevenção. E essa conta, como quase sempre acontece, acaba chegando para toda a sociedade.
