O que aconteceu na noite de ontem, quarta-feira, 29 de julho, na Praça do Santuário, em Divinópolis, foi anunciado como entrevista coletiva. Na prática, teve muito mais a aparência de um ato político cuidadosamente montado. Cidade natal, praça pública, apoiadores, apelo emocional e um discurso dirigido diretamente ao eleitor.
Ali, pela primeira vez, Cleitinho Azevedo declarou abertamente que pretende disputar o governo de Minas Gerais e apresentou Luís Eduardo Falcão como seu candidato a vice. O anúncio ocorreu poucas horas depois de as executivas estadual e nacional do Republicanos divulgarem nota afirmando que a candidatura nunca havia sido formalmente assumida pelo senador.
Colocando ordem jurídica dos fatos
Os partidos podem realizar convenções até 5 de agosto. O prazo final para pedir o registro das candidaturas é 15 de agosto. Uma convenção também pode delegar à comissão executiva ou a outro órgão partidário a escolha posterior de candidatos. Portanto, ainda existe uma possibilidade jurídica de mudança, desde que haja decisão formal da legenda e respeito ao estatuto e às regras eleitorais. Mas essa possibilidade não transforma Cleitinho automaticamente em candidato.
Candidatura não é declaração de independência. Ninguém se torna candidato ao governo apenas porque sobe numa praça, pega um microfone e anuncia que está disposto. É preciso partido, homologação, composição política, documentação, registro e, sobretudo, confiança entre aqueles que deverão sustentar a campanha.
E confiança é precisamente o que Cleitinho colocou em risco.
O luto merece respeito
A ausência de Cleitinho na convenção do Republicanos, realizada no sábado, 25 de julho, é plenamente compreensível. Seu irmão Matheus Augusto Azevedo havia morrido no dia 18, aos 34 anos, depois de uma longa luta contra a leucemia. A convenção coincidiu com o período das despedidas e da missa de sétimo dia. Ninguém minimamente humano pode exigir que uma pessoa trate de candidatura enquanto enterra um irmão.
O problema é que a indecisão política de Cleitinho começou muito antes do falecimento.
Em 8 de julho, dez dias antes da morte de Matheus, o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, já dizia publicamente que não compreendia a postura do senador. A reação veio depois de Cleitinho afirmar no Senado que poderia deixar a decisão para 5 de agosto, acrescentando que pretendia manter o suspense para deixar os mineiros “mais doidos”.
Aquilo que parecia esperteza de comunicação virou um desastre político.
Suspense pode produzir audiência, comentários e compartilhamentos. Não produz necessariamente alianças. Partido não é uma plateia de rede social. Dirigentes precisam organizar chapas, distribuir recursos, negociar coligações, escolher candidatos e definir palanques presidenciais. Enquanto Cleitinho brincava com o calendário, outros atores começaram a procurar alternativas.
O luto explica e justifica o silêncio dos últimos dias. Não explica os meses anteriores de hesitação.
A praça não substitui a decisão
Em Divinópolis, Cleitinho tentou transformar o conflito partidário numa espécie de plebiscito emocional.
Falou em “tocar o coração” de Marcos Pereira, pediu desculpas ao partido, exaltou sua origem, prometeu uma campanha barata e declarou que a direita deveria se unir em torno dele porque lidera as pesquisas. Também reconheceu que os partidos tinham o direito de procurar outras opções enquanto ele permanecia indefinido.
Essa última admissão é importante. Talvez tenha sido a frase mais realista de todo o pronunciamento.
Política não funciona apenas com coração. Funciona também com calendário, compromisso e palavra. O Republicanos esperou uma decisão. O PL deixou em aberto sua própria estratégia para o governo de Minas. Possíveis aliados ficaram paralisados. Quando finalmente resolveu dizer que era candidato, Cleitinho descobriu que a política havia continuado andando sem ele.
Marcos Pereira afirmou que o senador “perdeu o timing” e disse que o partido lhe havia dado o domingo e a segunda-feira para decidir. Na nota divulgada pelas executivas, o Republicanos sustentou que esteve preparado para lançar a candidatura, mas que a decisão firme do parlamentar nunca chegou.
Cleitinho agora procura apresentar-se como vítima de uma decisão partidária súbita. A cronologia, porém, mostra um quadro mais complicado, o partido pressionava por uma resposta, o senador adiava, as convenções chegaram e a direção resolveu seguir outro caminho.
Pode-se criticar o Republicanos pela falta de habilidade, pela comunicação contraditória e por ter tolerado a novela durante tanto tempo. Mas não é razoável apagar a participação central de Cleitinho na construção do impasse.
Pesquisa não é escritura de propriedade
Durante o ato, Cleitinho falou em liderança de 40% das intenções de voto. A pesquisa Genial/Quaest mais recente, realizada entre 22 e 26 de julho, coloca o senador entre 34% e 35%, conforme o cenário estimulado. Continua sendo uma liderança ampla e politicamente muito relevante, mas não são os 40% mencionados no pronunciamento.
Vale lembrar que pesquisa não é escritura de propriedade sobre a candidatura.
Um governador precisa montar secretariado, negociar com a Assembleia Legislativa, administrar a relação com os 853 municípios, conduzir uma máquina com centenas de milhares de servidores e lidar com dívida pública, saúde, educação, segurança e infraestrutura. Popularidade ajuda a ganhar uma eleição. Sozinha, não demonstra capacidade de formar um governo.
A origem popular de Cleitinho não é problema. Ao contrário, pode ser uma qualidade. O vendedor de hortifrúti, o operário, o professor ou o empresário têm exatamente o mesmo direito de disputar e governar Minas Gerais.
O que não pode existir é imunidade à cobrança em razão dessa origem. Coerência não é exigência da elite. Clareza não é preconceito social. Cumprir compromissos não é bobagem de bastidor. São requisitos mínimos para qualquer pessoa que pretenda comandar o segundo estado mais populoso do país.
A conta chegou
Cleitinho ainda pode convencer o Republicanos. A legislação permite que o partido tome uma decisão formal dentro dos prazos eleitorais, caso os procedimentos internos tenham deixado essa possibilidade aberta.
Mas, mesmo que consiga reverter a situação, o episódio deixará uma cicatriz.
O senador transformou sua principal força, a comunicação direta e espontânea, em instrumento de adiamento. Confundiu popularidade com poder absoluto de negociação. Imaginou que todos ficariam esperando indefinidamente porque ele aparecia na frente das pesquisas. Não ficaram.
A responsabilidade pelo labirinto atual não é exclusiva de Cleitinho, mas é principalmente dele. Foi ele quem adiou, brincou com o prazo, manteve aliados em suspense e resolveu confirmar a intenção somente depois de o partido anunciar que seguiria outro caminho.
O ato de Divinópolis pode ter entusiasmado seguidores. Pode até pressionar o Republicanos e provocar uma reviravolta. Mas não respondeu à pergunta essencial: por que uma decisão tão importante foi conduzida de maneira tão errática?
Para governar Minas, não basta falar como o povo. É necessário responder pelos próprios atos diante dele.
A praça oferece aplausos. A candidatura, porém, exige ata, confiança, compromisso e palavra cumprida.
