Há uma distância incômoda entre o discurso e a prática. Na política brasileira, essa distância costuma ser atravessada com palanque, microfone e uma frase de efeito. Foi o que fez o presidente Lula ao defender, no Rio Grande do Norte, o aumento de pena para quem comete feminicídio. A fala soa forte, parece correta, comunica proteção. Mas, quando colocada sob a luz fria dos fatos, revela mais oportunismo do que solução.
O tema é gravíssimo. Feminicídio não é lacração, não é modismo, não é invenção ideológica. É uma tragédia brasileira, uma ferida aberta na sala de casa. Em 2025, o país registrou 1.568 vítimas de feminicídio, alta de 4,7% em relação ao ano anterior. Mais de 62% das vítimas eram mulheres negras, e a maior parte desses crimes aconteceu dentro de casa. Não estamos falando de abstração. Estamos falando de mulher morta, família destruída e Estado atrasado.
Mas exatamente por ser um tema sério, ele não pode virar apenas um instrumento de conveniência eleitoral. Lula sabe o que está fazendo. Ao falar em endurecimento penal, ele ocupa um território discursivo que, historicamente, foi mais explorado pela direita, punição, cadeia, aumento de pena e resposta dura. Faz isso no momento em que Flávio Bolsonaro enfrenta desgaste com o público feminino depois da crise aberta por Michelle Bolsonaro. O presidente percebeu a fresta e entrou por ela.
Legítimo, mas contraditório
O problema é que, no caso de Lula, a pregação pública esbarra numa biografia recente de frases infelizes, machistas e constrangedoras. Em março de 2025, ao comentar a escolha de Gleisi Hoffmann para a Secretaria de Relações Institucionais, Lula disse que havia colocado uma “mulher bonita” para melhorar a relação com o Congresso. A fala foi criticada justamente porque reduzia uma liderança política experiente a um atributo físico, como se beleza fosse ferramenta de articulação institucional.
Não foi um caso isolado. Em 2016, em áudio divulgado pela Polícia Federal, Lula se referiu a feministas do PT com a expressão grosseira “mulheres de grelo duro”, frase que causou reação até dentro do campo progressista.
É aí que mora a contradição. Lula fala contra a cultura machista, mas frequentemente recorre ao vocabulário da velha política masculina, aquela do gracejo de botequim, da intimidade forçada, do elogio atravessado, da piada que tenta parecer popular, mas termina revelando atraso. O presidente que hoje se apresenta como guardião da pauta feminina já escorregou muitas vezes exatamente no terreno que diz querer corrigir.
Um aumento de pena que já existe
E há outro ponto ainda mais concreto, aumentar a pena, por si só, não protege mulher ameaçada. O Brasil já endureceu a lei. A Lei 14.994, de 2024, sancionada pelo próprio Lula, tornou o feminicídio crime autônomo e elevou a pena para 20 a 40 anos de prisão, a maior pena prevista no Código Penal. Também agravou punições relacionadas ao descumprimento de medidas protetivas.
Portanto, quando Lula volta ao palanque para prometer mais endurecimento, a pergunta honesta é. Endurecer o quê, exatamente?
O país já tem lei dura. O que falta é fazer a engrenagem funcionar antes do assassinato. Falta garantir medida protetiva fiscalizada. Falta tornozeleira para agressor perigoso. Falta abrigo. Falta delegacia operando com estrutura. Falta integração entre polícia, Justiça, assistência social e saúde. Falta resposta rápida. Falta orçamento chegando na ponta.
Os números mostram que a retórica não está vencendo a realidade. O Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio foi apresentado como prioridade política, com promessa de ação coordenada entre os Poderes, mas especialistas e levantamentos continuam apontando que a violência contra a mulher cresce, enquanto a proteção concreta ainda é insuficiente.
Em 2025, num relatório citado pela jornal “A Folha de São Paulo” apontou baixa execução de recursos no plano contra o feminicídio, com apenas 15% do orçamento planejado executado no período analisado e execução irrisória em ações do Ministério da Justiça.
Mais prática e menos palanque
Essa é a diferença entre anúncio e política pública. Discurso cabe em solenidade. Proteção exige gestão. Pena maior rende manchete. Prevenção exige coordenação, orçamento, cobrança, monitoramento e presença do Estado onde a mulher está vulnerável, dentro de casa, no bairro, na delegacia, no fórum, no aplicativo de denúncia, no abrigo que muitas vezes não existe.
Não se trata de negar a importância da punição. Feminicida tem que ser punido com rigor. A sociedade precisa afirmar, sem meias palavras, que matar mulher por ódio, posse ou controle é crime bárbaro. Mas é preciso dizer também que a política penal não pode ser usada como cortina de fumaça para esconder a incapacidade de proteger a vítima antes do caixão.
No final das contas
Lula está correto quando diz que o feminicídio é intolerável. Mas está errado quando transforma o aumento de pena em resposta principal para uma estrutura pública que falha todos os dias. E está em posição desconfortável quando tenta posar de campeão da causa feminina carregando nas costas um histórico de falas que reforçam justamente a cultura que agora diz combater.
A política brasileira precisa parar de usar mulheres como cenário. À direita, à esquerda e ao centro. Mulher não é peça de marketing, não é café da manhã de campanha, não é escada para discurso presidencial, não é adereço de palanque. A mulher precisa de respeito na fala e proteção na prática.
O argumento final é simples: Lula pode até vestir o discurso da proteção, mas não se governa contra o feminicídio com frase bonita. Governa-se com entrega. E, até aqui, entre o discurso e a prática, há um abismo. Um abismo onde muitas mulheres continuam caindo.
