Há episódios na política em que o adversário faz mais pela campanha do outro lado do que qualquer marqueteiro bem pago. A troca de farpas entre o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, e o ex-governador Romeu Zema é um desses casos raros em que a crítica sai pela culatra, dá três cambalhotas, bate na parede e volta como propaganda gratuita.
Primeiro, Gilmar Mendes relaciona a admissão de um ação para prorrogação do pagamento da dívida de Minas Gerais para com a União concedida pelo Supremo, a pedido do governo de Minas, a uma ação de reciprocidade de tratamento não cumprida pelo governador mineiro à época, que posteriormente fez críticas a ministros da Suprema Corte. Ora, um beneficiado, ou prejudicado, por uma decisão judicial de uma corte de magistrados é definitivamente seu devedor, ou credor?
Depois, o mesmo Gilmar,disse que Zema fala um “dialeto próximo do português” e, ainda, ao criticar uma sátira feita com fantoches semelhantes a ministros do STF, perguntou como o ex-governador se sentiria se fosse representado por um “boneco homossexual”. Zema reagiu dizendo que o ministro não poderia comparar homossexualidade com roubo e classificou a fala como preconceituosa. O episódio nasceu da disputa em torno de um vídeo de Zema com fantoches, que teria motivado pedido de inclusão do ex-governador no inquérito das fake news.
O primeiro problema está na fala sobre o sotaque. Quando um ministro do Supremo diz que um político mineiro fala um “dialeto próximo do português”, ele não está apenas atacando Romeu Zema. Ele está resvalando em milhões de mineiros. Está tratando como defeito aquilo que é identidade. Está transformando sotaque em deboche. Está convertendo diversidade linguística em instrumento de superioridade.
Gilmar Mendes, o pequeno
Minas não fala errado. Minas fala com história. Fala com montanha, com cozinha, com varanda, com igreja barroca, com mercado, com roça e com centro urbano. Minas come sílabas, mas digere política como poucos lugares do Brasil. Minas fala baixo, mas escuta longe. Minas não precisa de certificado de pronúncia emitido por gabinete nenhum.
O Brasil é feito de sotaques. O nordestino, o gaúcho, o carioca, o paulista, o mineiro, o paraense, o baiano, o goiano, o mato-grossense. Cada região tem sua própria música. Quando uma autoridade ridiculariza o jeito de falar de alguém, ela revela mais sobre si mesma do que sobre o alvo da crítica.
E aqui o problema se agrava porque não estamos falando de um comentarista inflamado em mesa de bar. Estamos falando de um ministro do Supremo Tribunal Federal. De alguém que ocupa uma cadeira que exige sobriedade, contenção, respeito institucional e liturgia. Um Ministro do Supremo não fala apenas por si. Quando fala, carrega a toga junto. E a toga pesa.
Gilmar, o homofóbico
Depois veio o episódio do “boneco homossexual”. A frase é desastrosa porque desloca a discussão para um terreno ainda mais delicado. Ao perguntar se Zema se sentiria ofendido caso fosse representado por um boneco homossexual, Gilmar Mendes colocou, ainda que por construção retórica, a homossexualidade no campo da ofensa. E isso é inaceitável.
O debate poderia ser outro. Poderia ser sobre limites da sátira política. Poderia ser sobre ataques às instituições. Poderia ser sobre responsabilidade de agentes públicos nas redes sociais. Poderia ser sobre a tênue fronteira entre crítica, humor, difamação e degradação institucional.
Mas a fala escolhida pelo ministro contaminou o debate. Em vez de discutir democracia, liberdade de expressão e respeito ao Supremo, criou-se uma discussão sobre preconceito. E, nesse ponto, Zema recebeu um presente político embrulhado em papel timbrado.
Porque, convenhamos, se Romeu Zema queria se apresentar ao eleitorado como alguém confrontado por uma elite judicial arrogante, distante do cidadão comum e pouco tolerante à crítica, Gilmar Mendes resolveu ajudar. E ajudou com entusiasmo.
A ironia é quase perfeita: ao tentar diminuir Zema, Gilmar aumentou Zema. Ao tentar enquadrar o ex-governador, deu a ele palanque. Ao tentar criticar uma sátira, produziu outra. Ao reclamar de bonecos, virou personagem central do teatro político.
Em ano eleitoral, isso é ouro
Zema talvez não conseguisse comprar uma exposição tão eficiente. Nenhuma equipe de comunicação conseguiria inventar melhor antagonista: um ministro poderoso, de fala dura, provocando um político mineiro pelo sotaque e entrando em polêmica identitária por causa de um boneco. É o roteiro pronto para a vitimização política. É campanha sem custo. É inserção eleitoral em horário nobre da indignação.
E é aí que mora o erro estratégico de Gilmar Mendes. Um ministro do Supremo não deve entrar em disputa pública como se estivesse em um debate de rede social. A Corte já vive um momento de desgaste institucional. Há críticas severas, há desconfiança, há tensão com o Congresso, há questionamentos sobre ativismo judicial, há uma sociedade dividida e cansada de ver autoridades se comportando como militantes de trincheira.
Nesse ambiente, cada palavra deveria ser medida com régua de precisão. Mas o que se viu foi o contrário: improviso, provocação e personalização do conflito.
O Supremo é uma instituição indispensável à democracia. Mas exatamente por isso seus ministros precisam entender que autoridade não se defende com vaidade. Defende-se com equilíbrio. Com decisões fundamentadas. Com silêncio quando necessário. Com autocontenção. Com respeito ao cidadão, inclusive ao cidadão que fala diferente, pensa diferente ou vota diferente.
A Corte não pode ser transformada em personagem de briga eleitoral. E um ministro do Supremo não pode agir como cabo eleitoral involuntário de político nenhum.
No fundo, Gilmar Mendes deu a Zema uma oportunidade preciosa: a de posar como representante de Minas contra o deboche de Brasília. A de transformar uma crítica ao seu vídeo em defesa do sotaque mineiro. A de deslocar a discussão do conteúdo da sátira para a arrogância de quem se incomodou com ela. A de fazer do próprio ministro uma peça de campanha.
Quem sai ganhando é Zema
O episódio é grave não apenas pela fala infeliz, mas pelo símbolo. Mostra um país em que as instituições já não se contentam em funcionar; querem disputar narrativa. Já não basta decidir; é preciso lacrar. Já não basta falar nos autos; é preciso ganhar a manchete. Só que a toga não combina com torcida organizada.
Gilmar Mendes pode até ter pretendido desqualificar Zema. Mas acabou oferecendo ao ex-governador a melhor peça de marketing possível: um adversário poderoso falando demais, no tom errado, no momento errado e com a soberba errada.
Na política, às vezes, o cabo eleitoral mais eficiente é o adversário descontrolado.
E, desta vez, Gilmar Mendes fez campanha para Zema sem pedir voto.
