Há dias em que o Brasil parece um laboratório de contradições barulhentas. De um lado, o político que posa de lobo solitário, xinga os partidos, cospe fogo contra a engrenagem e tenta vender a fantasia de que pode chegar ao poder sem se contaminar com a mecânica do poder. De outro, a mais alta Corte do país, que deveria ser o altar da serenidade institucional, mas que passa a impressão de se mover com mais reflexo de autoproteção do que com a frieza impessoal que se espera de um tribunal constitucional. E, pairando sobre tudo isso, uma verdade incômoda: nem sempre o que mata vem rugindo. Às vezes, vem zunindo.
O lobo solitário
Cleitinho é hoje um dos personagens mais ruidosos da política mineira. Construiu seu capital na linguagem da indignação, na estética do confronto, no vídeo curto, na frase que estala como chicote e viraliza antes mesmo que alguém pergunte o que ela quer dizer na prática. Há talento nisso. É preciso reconhecer. Cleitinho entendeu cedo que, num país cansado, o eleitor muitas vezes prefere o político que parece esmurrar a porta ao político que entra por ela. O problema é que, quando a eleição deixa de ser protesto e passa a ser disputa real pelo governo de um estado como Minas Gerais, o improviso do incendiário começa a revelar suas rachaduras.
Ao defender o fim da escala 6×1, ao dizer que quer que todos os partidos “se explodam”, inclusive o próprio Republicanos, e ao tentar se colocar como “humanista”, acima da direita e da esquerda, Cleitinho reforça a embalagem de rebelde. Mas embalagem não é projeto. E política majoritária não é concurso de autenticidade.
No Brasil, candidatura não nasce do nada, não brota do chão, não floresce da indignação pura. Candidatura depende de partido, convenção, estrutura, costura, palanque, tempo, base, confiança mínima. Não existe herói avulso na urna. Há um certo lirismo adolescente nessa pose de quem quer governar desprezando exatamente os instrumentos sem os quais ninguém governa. Parece coragem. Muitas vezes é apenas imaturidade com boa iluminação.
É aí que a criatura começa a engolir o criador. Porque o eleitor pode até se divertir com quem promete explodir o sistema. Já o sistema, goste-se ou não dele, costuma exigir método. Minas não se governa com bordão. Minas não se administra com catarse. Minas exige interlocução regional, presença nos municípios, alianças, previsibilidade e capacidade de sentar à mesa sem jogar a mesa pela janela a cada cinco minutos. O lobo solitário funciona bem no feed. Mas no Palácio Tiradentes não basta uivar; é preciso coordenar a alcateia. Quem agride todos os partidos pode até ganhar aplausos dos órfãos da política. Mas também vai se tornando, aos poucos, um problema para aqueles que teriam de sustentar sua candidatura. E candidato isolado pode até lotar rede social; o que normalmente não consegue é montar maioria.
Cleitinho quer vender a independência. O que começa a entregar é o isolamento. Há diferença. A independência é força quando nasce de convicção com direção. O isolamento é fraqueza quando nasce de impulsos sem engenharia. Entre o político que desafia o jogo e o político que não sabe jogá-lo, a distância é menor do que parece. E, no caso dele, vai ficando cada vez mais visível uma ironia cruel: o incendiário que acha que está queimando o sistema pode acabar queimando a própria viabilidade.
A blindagem veste capa
Se a contradição de Cleitinho é eleitoral, a do Supremo é muito mais grave, porque é moral. Quando a mais alta Corte do país passa a transmitir a sensação de que discute os limites de um instrumento jurídico justamente no instante em que esse instrumento ameaça se aproximar demais dos andares nobres do poder, a toga deixa de parecer símbolo de imparcialidade e começa a lembrar biombo de autodefesa. O problema, nesse caso, não é apenas jurídico. É político. E, sobretudo, é simbólico.
A reativação do debate sobre restrições à delação premiada, justamente quando Daniel Vorcaro avança em tratativas de colaboração com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República, caiu sobre o ambiente institucional como cheiro de casuísmo. Pode haver fundamento técnico na discussão? Pode. Pode haver teses respeitáveis dos dois lados? Claro. O mundo jurídico é feito disso. Mas as instituições também falam pelo relógio. E, nesse terreno, tempo é linguagem. Quando uma ação antiga volta a respirar exatamente no momento em que uma delação potencialmente explosiva encosta na porta do tribunal, não se cria apenas um debate. Cria-se uma suspeita. E suspeita, para uma Corte Constitucional, já é estrago demais.
O Supremo não precisa apenas ser correto. Precisa parecer correto. Não porque viva de teatro, mas porque a confiança pública é matéria-prima da sua autoridade. Um tribunal que julga os excessos dos outros não pode parecer indulgente com os próprios riscos. Uma Corte que tantas vezes falou em defesa das instituições não pode dar ao país a impressão de que, quando a água sobe, a instituição mais urgente a ser defendida é ela mesma. O gesto talvez ainda não seja uma decisão. Mas há momentos em que o gesto já condena o ambiente. E esse é um deles.
As estruturas não são descartáveis
No fundo, Cleitinho e o Supremo, por caminhos diferentes, esbarram na mesma doença nacional: a tentação de tratar as estruturas como descartáveis quando elas atrapalham, mas indispensáveis quando elas protegem. Cleitinho xinga os partidos, embora precise deles para existir politicamente. O Supremo exalta as regras, mas soa desconfortável justamente quando uma dessas regras processuais ameaça produzir consequências inconvenientes para gente graúda. Um quer parecer acima do sistema. O outro, por vezes, parece querer estar a salvo dele. Em ambos os casos, sobra ruído e falta grandeza.
O medo vem em pequenos detalhes
O mundo se acostumou a temer os bichos errados. O imaginário popular morre de medo do leão, da cobra, do tubarão, da fera cinematográfica que chega mostrando dentes. Mas a vida real é menos épica e mais humilhante. O animal mais letal costuma ser pequeno, banal, quase ridículo à primeira vista. Não faz discurso. Não usa faixa. Não veste toga. Não ruge. Zune. Aproxima-se quando ninguém presta atenção. E é justamente por parecer pequeno demais que se torna tão perigoso. Os mosquitos são os animais mais letais do planeta, matando mais de 700 mil pessoas por ano.
A política brasileira anda infestada dessa lógica do mosquito. O dano nem sempre vem do gesto grandioso, do golpe de cena, da bravata monumental. Muitas vezes vem da corrosão miúda, do populismo performático, do corporativismo envergonhado, do cinismo embalado em retórica moral. Cleitinho zune contra tudo, como se a demolição fosse um programa de governo. O Supremo, quando se move sob sombra de autopreservação, zune a favor de si, como se a credibilidade pudesse sobreviver a qualquer suspeita. Um produz febre política. O outro produz febre institucional. Nenhum deles, no fim das contas, ajuda a curar o país.
O Brasil vive, hoje, menos sob o ataque de grandes predadores do que sob a persistência de pequenas contaminações. A democracia raramente morre de um único bote. Ela adoece por picadas sucessivas. Uma aqui, outra ali. Um destempero travestido de autenticidade. Uma blindagem travestida de técnica. Uma frase explosiva. Um gesto mal cronometrado. Uma concessão à vaidade. Outra ao medo. E, quando se vê, o corpo institucional inteiro já está febril.
Por isso, talvez a imagem mais precisa do país neste momento não seja a do leão, nem a do lobo, nem a da águia, nem a da serpente. É a do mosquito. Pequeno, irritante, insistente e letal. Porque, no Brasil de hoje, os maiores perigos nem sempre aparecem como monstros. Às vezes, aparecem como zumbidos. E zumbido demais mata.
