Algumas alianças políticas terminam lentamente, consumidas pelo desgaste. Outras acabam em um único gesto. A relação entre o governador Mateus Simões e o grupo político de Marcelo Aro terminou das duas formas. O desgaste foi longo. A decisão foi rápida.
O rompimento definitivo foi consolidado em uma reunião realizada em um hangar na Pampulha. O ambiente, segundo relatos de bastidores, foi dos mais tensos vividos desde que Mateus assumiu o comando do Estado. Não houve espaço para conciliações. O governador demonstrou profunda irritação. Naquele momento, ficou claro que a crise havia ultrapassado a esfera administrativa. Tratava-se de uma ruptura política definitiva.
O Diário Oficial publicado nesta sexta-feira apenas transformou em ato administrativo aquilo que, nos bastidores, já era irreversível.
Muito além da queda de Castellar
Quem imaginava que o episódio terminaria com a exoneração de Castellar Guimarães subestimou o tamanho da crise. O governo promoveu uma verdadeira intervenção na Secretaria de Estado de Governo.
Além da exoneração de Castellar Modesto Guimarães Neto, também deixou o cargo o secretário-adjunto Juliano Fisicaro Borges, que, na sequência, foi imediatamente nomeado novo secretário de Estado de Governo. A mudança foi acompanhada pela exoneração de dezenas de ocupantes de cargos estratégicos, assessores, diretores, chefias e beneficiários de gratificações estratégicas vinculados à estrutura da Secretaria de Governo.
Não foi uma troca de comando. Foi o desmonte de uma estrutura política inteira.
A lista publicada no Diário Oficial revela uma operação cuidadosamente planejada para retirar dos principais postos pessoas identificadas com o grupo de Marcelo Aro. A reorganização não se limitou ao secretário. Ela alcançou praticamente todos os níveis da estrutura política da pasta.
Quando acaba a confiança
Governos sobrevivem a divergências. O que não sobrevivem é à perda de confiança.
Nos últimos meses, consolidou-se no Palácio Tiradentes a percepção de que o grupo de Marcelo Aro já não trabalhava prioritariamente pelo projeto político de Mateus Simões.
Enquanto o governador estruturava sua candidatura à reeleição, Aro construía alternativas, ampliava conversas partidárias e participava da montagem de um cenário eleitoral que poderia deixar Mateus isolado. Na política, a suspeita costuma produzir os mesmos efeitos da certeza.
Quando um governador passa a acreditar que parte de sua equipe atua em favor de outro projeto político, a convivência torna-se impossível.
Foi exatamente isso que aconteceu.
Castellar deixou de ser visto apenas como secretário de Governo. Passou a representar, aos olhos do governador, o principal elo entre o governo e o projeto político de Marcelo Aro. A partir daí, sua permanência tornou-se insustentável.
O recado de Mateus
As demissões possuem um significado muito maior do que a reorganização administrativa.
Mateus Simões faz um movimento clássico de quem pretende reassumir integralmente o comando político do governo. O recado é claro. Não haverá espaço para dúvidas sobre lealdade. Não haverá espaço para grupos que mantenham um pé dentro do governo e outro na construção de uma candidatura alternativa.
Juliano Fisicaro assume a Secretaria de Governo com uma missão muito mais política do que administrativa: reconstruir a articulação do Palácio Tiradentes e reorganizar uma base que chega profundamente abalada pelo período eleitoral.
Marcelo Aro também fez sua escolha
Seria injusto atribuir toda a responsabilidade da ruptura apenas ao governador. Marcelo Aro também decidiu trilhar um caminho próprio.
Ao liderar conversas para uma composição eleitoral distinta daquela defendida por Mateus Simões, aproximando-se de partidos e lideranças que poderiam enfrentar o governador, Aro assumiu um risco calculado.
Era evidente que esse movimento teria consequências dentro da administração estadual.
Nenhum governador aceita manter, nos principais postos do governo, representantes de um grupo que já trabalha politicamente em outra direção. Mais cedo ou mais tarde, alguém precisaria sair. Mateus decidiu antecipar esse desfecho.
A política substitui a administração
Naturalmente, mudanças em cargos de confiança fazem parte de qualquer governo. O problema surge quando toda a máquina administrativa passa a refletir exclusivamente as disputas eleitorais.
É legítimo que um governador escolha pessoas de sua confiança. Também é legítimo que reorganize sua equipe quando perde essa confiança. Mas é igualmente necessário que essa substituição preserve a capacidade administrativa do Estado.
Governos não existem apenas para disputar eleições. Existem para governar.
Quanto maior a substituição baseada exclusivamente na lógica política, maior será o desafio de manter a continuidade da gestão.
Um ponto sem retorno
O Diário Oficial desta sexta-feira não registra apenas exonerações.
A partir de agora, Marcelo Aro deixa de ser um aliado desconfortável para se tornar um adversário com profundo conhecimento dos bastidores do Palácio Tiradentes.
E Mateus Simões inicia sua caminhada eleitoral tentando demonstrar autoridade, mas também convivendo com o custo inevitável da ruptura. Porque toda guerra política produz vencedores e derrotados. Mas nenhuma termina sem deixar cicatrizes.
A reunião no hangar da Pampulha ficará lembrada como o instante em que essa história deixou de ser apenas uma crise de governo para se transformar, definitivamente, em uma guerra pelo comando da política mineira.
E o Diário Oficial desta sexta-feira apenas oficializou aquilo que, politicamente, já havia acontecido dias antes. A aliança acabou.
