A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal não foi apenas uma derrota parlamentar. Foi um retrato. E retratos, quando bem tirados, não perdoam rugas, manchas e olheiras. O governo Lula apareceu de corpo inteiro, isolado, lento, ensimesmado e surpreendentemente incapaz de contar votos no Senado, justamente a Casa onde imaginava ter mais trânsito, mais memória afetiva e mais margem de negociação.
O placar foi duro: 42 votos contra, 34 a favor. Messias precisava de pelo menos 41 votos para chegar ao Supremo. Não chegou nem perto. A indicação já havia passado pela CCJ por 16 a 11, mas caiu no plenário, em votação secreta, numa derrota histórica, foi a primeira rejeição de um indicado ao STF em 132 anos. A vaga era deixada por Luís Roberto Barroso, que se aposentou antecipadamente em outubro de 2025.
Não há santidade no Senado
Não se trata, evidentemente, de imaginar pureza franciscana nessa decisão. Brasília não é mosteiro; é tabuleiro. E, nesse tabuleiro, Davi Alcolumbre fez política do jeito mais cru: esperou, mediu, articulou e deu ao governo um passa-moleque com carimbo institucional. Alcolumbre defendia outro nome para a vaga, o do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco, e a escolha de Messias desagradou ao comando da Casa.
A cena do microfone aberto foi quase cinematográfica. Antes do resultado oficial, Alcolumbre teria cochichado a Jaques Wagner que Messias perderia “por oito”. Perdeu exatamente por oito. A assessoria do presidente do Senado confirmou que a voz era dele e tratou a fala como uma avaliação política do momento. Mas a política também tem seus símbolos. E aquele cochicho, captado pela TV Senado, soou como epitáfio da articulação governista.
Há ainda o mundo dos bastidores, esse porão acarpetado onde a política costuma tirar o paletó. Aliados de Lula se apressam em apontar, além de Alcolumbre, participação de Rodrigo Pacheco e do ministro Alexandre de Moraes em um suposto pacto para impedir a nomeação de Messias. Isso precisa ser tratado como bastidor, não como sentença. Mas, em Brasília, bastidor é o corredor onde a história muitas vezes começa antes de virar fato.
O erro de cálculo do governo
O ponto central, porém, não está apenas em Alcolumbre, em Moraes, em Pacheco ou nas traições mapeadas depois da derrota. O ponto central está no governo Lula. Um governo experiente, comandado por um presidente que se orgulha de saber conversar com o Congresso, não pode alegar surpresa diante de uma derrota cantada, ensaiada e finalmente executada diante das câmeras.
A rejeição de Messias não é o fim do governo. Não é uma ruptura institucional. Não é uma hecatombe. Mas é, sim, um sinal de ocaso político. Ocaso não é queda imediata; é perda de luz. É quando o sol ainda está no céu, mas já não aquece como antes. Lula continua presidente, continua tendo caneta, orçamento, ministérios e palanque. Mas a velha mágica da negociação parece ter perdido brilho. O encantador de serpentes descobriu que algumas serpentes aprenderam a tocar flauta.
O erro do governo começou na escolha, passou pela demora e terminou na contagem. Davi Alcolumbre criticou a demora do Executivo em enviar formalmente a mensagem com a indicação: o nome havia sido anunciado em novembro, mas a mensagem só chegou ao Senado em abril. Em política, o tempo morto vira território ocupado pelo adversário. Quem demora para ocupar espaço entrega o espaço para alguém.
E foi exatamente isso que aconteceu. O governo anunciou Messias, deixou o nome sangrar por meses, subestimou resistências, acreditou em promessas, confundiu simpatia com voto e chegou à votação sem a blindagem mínima. Pior: chegou vendendo confiança. Foi ao Senado como quem entra numa festa achando que é homenageado, e descobriu, no meio do salão, que era o alvo do brinde envenenado.
Uma derrota histórica
Messias, pessoalmente, saiu maior do que muitos de seus patrocinadores. Foi elegante ao reconhecer a soberania do Senado. Disse que há dias de vitória e dias de derrota, e que é preciso saber ganhar e saber perder. A frase foi institucionalmente correta e humanamente digna. O problema é que a derrota não era apenas dele. Era do Planalto. Era da articulação política. Era de um governo que se fechou demais em suas próprias certezas e ouviu pouco a realidade política do país.
Lula parece governar, neste momento, cercado por uma bolha de convicções. Acredita que sua biografia ainda basta. Que sua capacidade histórica de conversar ainda funciona no automático. Que o Congresso de hoje responde aos mesmos códigos do Congresso de 2003. Não responde. O Parlamento mudou. O Senado mudou. A direita cresceu. O Centrão se profissionalizou. As redes sociais alteraram o custo de cada voto. E o STF, antes visto por setores políticos como instância de contenção, passou a ser também foco de desgaste, ressentimento e disputa aberta.
A derrota de Messias, portanto, não foi só sobre Messias. Foi sobre o Supremo. Foi sobre 2026. Foi sobre Alcolumbre. Foi sobre Pacheco. Foi sobre a relação entre Congresso e Judiciário. Foi sobre um governo que ainda tenta operar com manual antigo em uma máquina nova, barulhenta e menos obediente.
O recado do Senado
O Senado mandou um recado duplo. Para Lula, disse: “sua vontade não basta”. Para o Supremo, disse: “o ambiente mudou”. É claro que há oportunismo nessa mensagem. É claro que há cálculo eleitoral. É claro que há vingança, vaidade, ressentimento e disputa por espaço. Mas política não é concurso de santidade. Política é correlação de forças. E, nessa correlação, o governo perdeu feio.
A imagem que fica é a de um Planalto que já não mete medo, não organiza base, não disciplina aliados e não constrange dissidentes. Quando um governo forte indica alguém ao STF, o Congresso pode chiar, negociar, cobrar, espernear, mas, no fim, aprova. Quando um governo fraco indica, o Congresso fareja sangue. E o Senado farejou.
Qual será a reação de Lula?
Há quem diga que Lula pode reagir trocando ministros, punindo aliados, reorganizando a articulação. Pode. Mas reação com raiva costuma ser ruim conselheira. Exoneração depois da derrota pode até produzir manchete, mas não reconstrói autoridade. Autoridade se reconstrói com leitura correta da realidade, pactos críveis, previsibilidade e capacidade de entregar. Não com telefonema atravessado, jantar de emergência e contagem otimista feita no gogó.
A rejeição de Jorge Messias expõe o governo em sua fase mais vulnerável. Não pela derrota em si, mas pelo que ela revela, um presidente que ainda fala como líder majoritário, mas governa como refém de uma base líquida; um Planalto que ainda se imagina centro do sistema, mas descobre que o sistema aprendeu a funcionar sem pedir bênção; uma articulação política que parece mais torcida organizada do que engenharia de poder.
No fim, o Senado não apenas rejeitou Messias. O Senado rejeitou a ilusão de que Lula ainda comanda Brasília como comandava no passado.
E esse talvez seja o recado mais duro da noite de ontem. Não acabou o governo. Mas acabou a mística de um presidente poderoso e articulador.
