Belo Horizonte tem diante de si uma discussão muito mais séria do que a cassação ou não de um mandato. O que está em jogo é o respeito ao eleitor, à cidade e ao próprio sentido da representação política.
Por isso, antes de qualquer coisa, é preciso registrar solidariedade ao presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, vereador Juliano Lopes. Segundo apuração desta coluna, Juliano foi pressionado pela executiva nacional do Podemos para não colocar em votação o processo de cassação do vereador Lucas Ganem. Mais grave ainda, teria recebido até uma minuta de expulsão partidária, com menção a um episódio passado envolvendo uma discussão com um policial, caso que, posteriormente, teve contornos esclarecidos e não se sustentou da forma como inicialmente foi apresentado.
Esse tipo de pressão, se confirmado nos termos apurados, é inaceitável. Partido político não é quartel-general para intimidar presidente de Câmara. Executiva nacional não pode agir como corregedoria particular para constranger o funcionamento de um Legislativo municipal. Mandato parlamentar pertence ao eleitor, não ao comando partidário em Brasília.
Juliano Lopes, ao conduzir o rito e permitir que a Câmara vote, não está fazendo perseguição. Está cumprindo uma obrigação institucional. A Câmara não pode se esconder diante de um caso que mexe diretamente com a credibilidade do voto em Belo Horizonte.
O caso Ganem
O caso Lucas Ganem é grave porque não nasce de uma fofoca de bastidor. Há uma denúncia formal, há uma Comissão Processante, há relatório, há defesa, há contraditório e há um plenário chamado a decidir. A acusação central envolve a suspeita de que o domicílio eleitoral apresentado por Lucas Ganem em Belo Horizonte não corresponderia a um vínculo real com a cidade. A defesa nega fraude, nega falsidade ideológica e sustenta que o vereador passou a residir oficialmente na capital mineira após a eleição. Muito bem. É exatamente por isso que existe processo para que acusação e defesa sejam confrontadas diante dos fatos.
A estratégia maldosa em busca de votos
Nesse caso há também uma dimensão política que não pode ser ignorada. A história Ganem não começa em Belo Horizonte. Ela passa por São Paulo, por Osasco, pelo deputado federal Bruno Ganem e por uma estratégia nacional de comunicação ligada à causa animal. Bruno Ganem construiu um nome político forte nesse campo. A causa animal é legítima, sensível, mobiliza milhões de pessoas e merece respeito. O problema começa quando uma causa nobre passa a servir como embalagem eleitoral para candidaturas transplantadas de uma cidade para outra, como se o Brasil fosse um tabuleiro onde se deslocam peças de marketing.
Lucas Ganem, vereador eleito por Belo Horizonte, é primo de Bruno Ganem. É também parte desse ambiente político que fez do sobrenome Ganem uma marca eleitoral. Segundo apuração desta coluna, o movimento não se restringe a parentes de sangue. Há candidatos pelo país adotando ou explorando o nome Ganem como identidade política, mesmo quando esse não é originalmente seu sobrenome. Isso precisa ser discutido com coragem. Porque, se a política vira franquia de sobrenome, o eleitor vira consumidor de uma marca, e não cidadão escolhendo representante.
E não para por aí
Segundo as informações apuradas por esta coluna, Renata Abreu, presidente nacional do Podemos, e “Thiago Ganem”, cujo nome é Thiago Milhim, um ex-secretário municipal da cidade de São Paulo e ex-secretário de Esporte Amador, no governo Lula, hoje filiado ao PL e anteriormente ligado ao Podemos, teriam atuado no processo de pressão sobre Juliano Lopes para tentar impedir ou constranger a votação do caso Lucas Ganem. Milhim, conforme conversas políticas já em curso, deve aparecer em Minas nas eleições de 2026 vinculado à marca Ganem, cujo sobrenome já usa em movimentos de pré-campanha. O caso de Belo Horizonte pode não ser ponto fora da curva. Pode ser um ensaio geral de uma prática que pretende se repetir.
A importância da sessão de cassação
Não se trata de dizer que alguém precisa ter nascido em Belo Horizonte para representar Belo Horizonte. Isso seria uma bobagem. Esta cidade foi construída por quem nasceu aqui e por quem chegou depois. Eu mesmo não nasci em BH. Cheguei no fim dos anos 70, fiz vida, trabalho, família, endereço, história e compromisso com esta cidade. Belo Horizonte acolhe. Belo Horizonte abraça. Belo Horizonte permite que alguém venha de fora e se torne daqui.
O problema não é vir de fora. O problema é cair de paraquedas.
O problema não é nascer em São Paulo, em Osasco, no interior, no Rio, em Pernambuco ou onde for. O problema é usar Belo Horizonte como endereço eleitoral de conveniência. Cidade não é um pouso improvisado. Cidade não é senha de aplicativo. Cidade não é CPF de campanha.
Representar Belo Horizonte exige mais do que um vídeo bem editado, uma bandeira emocional e um sobrenome forte nas redes sociais. Exige conhecer a cidade. Exige caminhar por ela. Exige entender o Barreiro, Venda Nova, Pampulha, Centro-Sul, Nordeste, Leste e Oeste. Exige saber que a Avenida do Contorno não é só uma linha no mapa, mas uma fronteira histórica, urbana e simbólica. Exige entender a Savassi, o Café Nice, a Praça da Liberdade, os bairros que sofrem com enchente, os comerciantes que lutam para abrir as portas, a população de rua, os animais abandonados, as escolas públicas, os centros de saúde, os buracos no asfalto, o drama do transporte coletivo.
A Câmara Municipal não é um balcão de oportunidades. É a casa política da cidade. Cassar Lucas Ganem, se os vereadores entenderem que as provas sustentam a acusação, não será vingança. Será um gesto de defesa institucional. Será a afirmação de que Belo Horizonte não aceita ser tratada como peça de uma engenharia eleitoral importada.
Da mesma forma, se algum vereador entender que a defesa demonstrou a regularidade do mandato, que vote assim e assuma publicamente sua posição. O que não se pode aceitar é o medo. O que não se pode aceitar é a fuga. O que não se pode aceitar é que pressão de executiva nacional, ameaça de expulsão ou cálculo partidário impeçam a Câmara de cumprir seu papel.
A importância de Juliano Lopes
Juliano Lopes, nesse episódio, tem uma responsabilidade maior do que a de um presidente de sessão. Ele preside um teste de maturidade institucional. Ao pautar o julgamento, enfrenta a tentativa de transformar a Câmara de Belo Horizonte em extensão de interesses partidários nacionais. E a executiva estadual do Podemos, segundo integrantes ouvidos por esta coluna, reconhece essa gravidade. Um deles resumiu a posição com uma frase simples e forte: “Nesse caso, nós não teremos medo.”
É isso. Não pode haver medo quando o assunto é a lisura do voto.
Não pode haver medo quando se discute possível burla ao domicílio eleitoral. Não pode haver medo quando uma cidade inteira precisa saber se seu representante tinha, de fato, vínculo real com ela.
O caso Ganem precisa servir de alerta para 2026. O eleitor mineiro deve prestar atenção. Candidatura não é produto de prateleira. Sobrenome não é projeto. Rede social não é raiz. E a causa social, por mais justa que seja, não pode ser usada como cortina bonita para esconder atalho eleitoral.
Belo Horizonte merece mais do que isso
Merece representantes que conheçam sua vida real, suas ruas, suas dores e suas prioridades. Merece uma Câmara que vote de cabeça erguida. Merece partidos que respeitem a autonomia da cidade. Merece que cada vereador diga, diante do plenário e diante do eleitor, de que lado está: do lado da transparência ou do lado da conveniência.
Na segunda-feira, a Câmara não julga apenas Lucas Ganem. Julga também se Belo Horizonte será respeitada como cidade ou usada como endereço eleitoral.
E essa resposta precisa ser dada em voz alta.
