A sucessão em Minas Gerais entrou definitivamente no modo xadrez. E xadrez mineiro, como se sabe, raramente é jogado com peças paradas. Aqui, cavalo conversa com torre, bispo muda de lado, peão vira rainha e, quando o adversário percebe, o tabuleiro já foi trocado por outro.
Dois movimentos recentes ajudam a explicar a nova temperatura da disputa pelo governo de Minas em 2026.
As peças se movem
De um lado, Alexandre Kalil volta ao centro da articulação do campo lulista. A informação de que Kalil pode se reunir com Edinho Silva, presidente nacional do PT, para discutir a possibilidade de ser o candidato apoiado pela esquerda em Minas mostra uma urgência clara: Lula precisa de um palanque forte no Estado. O PT precisa de um nome competitivo. E Kalil, que está no PDT, pode ser exatamente esse personagem incômodo, mas eleitoralmente útil.
Do outro lado, uma reunião de terça-feira, em Brasília, com a executiva nacional e estadual do PL mineiro, Flávio Roscoe, Nikolas Ferreira e Cleitinho Azevedo, dos Republicanos, reabre a disputa no campo da direita. O PL e Republicanos construíram um acordo para apoio mútuo em Minas. O nome do candidato ao Palácio Tiradentes ainda não está fechado, mas os mais cotados são Cleitinho e Flávio Roscoe. O PL admite apoiar Cleitinho caso ele decida disputar o governo e que, mas vê como mais producente o apoio de Cleitinho ao palanque de Flávio Roscoe e Flávio Bolsonaro.
Esse movimento tem um efeito político imediato. Minas deve caminhar para uma disputa organizada em três grandes pólos.
Mateus, Kalil e Roscoe/Cleitinho/PL
O primeiro pólo é Mateus Simões, governador pelo PSD, herdeiro direto do governo Romeu Zema e candidato natural da continuidade administrativa. Simões terá a máquina estadual, o peso institucional, a estrutura do PSD e o discurso de gestão. Mas terá também um desafio: provar que é mais do que sucessor. Minas pode até respeitar a continuidade, mas não costuma eleger carimbo. Quer personagem, projeto e presença.
O segundo polo é Alexandre Kalil, hoje no PDT, tentando se colocar como alternativa apoiada pela esquerda e pelo lulismo. Kalil tem recall, sobretudo em Belo Horizonte e na Região Metropolitana. Tem estilo popular, fala direta e memória administrativa. Mas não é um candidato orgânico da esquerda. Pode receber apoio do PT, pode caminhar com Lula, pode ocupar o palanque lulista em Minas, mas não cabe na liturgia petista tradicional.
Kalil é mais trator do que cartilha. Mais frase de efeito do que resolução partidária. Mais praça pública do que reunião de tendência.
Para o PT, isso é problema e solução ao mesmo tempo. Kalil é útil porque fala com um eleitor que o PT sozinho talvez não alcance. Mas é incômodo porque não é controlável. O PT pode precisar dele, mas terá de engolir sua autonomia. Kalil pode precisar do PT, mas terá de medir o tamanho do abraço. Abraço curto demais não aquece. Abraço longo demais sufoca.
O terceiro polo, e talvez o mais novo elemento do jogo, é a possível chapa Flávio Roscoe-Cleitinho-PL.
Flávio Roscoe entra como nome empresarial, ligado à indústria, à Federação das Indústrias de Minas Gerais e a uma agenda de setor produtivo. Pode oferecer discurso de gestão, economia real, emprego, competitividade e crítica ao peso do Estado. Cleitinho entra com voto popular, presença digital, linguagem direta e apelo junto ao eleitor conservador. Nikolas Ferreira entra com força de mobilização ideológica e alcance nas redes. Flávio Bolsonaro entra como eixo nacional da costura bolsonarista.
É uma composição que tenta juntar três mundos: o empresariado produtivo, o conservadorismo popular e o bolsonarismo nacional.
Além disso há uma variável nova nessa equação: Alex Diniz.
Alex Diniz, empresário e suplente de Cleitinho no Senado, deixou o Republicanos e se filiou ao PL. Em novembro de 2025, Diniz se filiou discretamente ao PL após ter ficado sem partido desde 2024, quando rompeu com o Republicanos. Desde então ele já era cotado para composições majoritárias em Minas.
Agora, seu nome volta a ganhar importância por uma razão muito simples. Ele pode ser a solução intermediária para a chapa. Se Cleitinho não for o candidato ao governo e também não quiser ocupar a vice, pode indicar Alex Diniz para compor com Flávio Roscoe.
Politicamente, faria sentido. Alex é suplente de Cleitinho, tem relação direta com esse grupo político, já está no PL e poderia funcionar como uma ponte entre o capital eleitoral do senador e a estrutura partidária bolsonarista. Seria uma forma de Cleitinho marcar presença na chapa sem necessariamente abrir mão do Senado ou se colocar numa posição secundária demais para seu tamanho eleitoral.
Essa hipótese altera o desenho interno da aliança. Em vez de Cleitinho ser pressionado a aceitar a vice ou disputar o governo, ele poderia se colocar como fiador político da composição, indicando alguém de confiança. Nesse caso, Alex Diniz seria menos um vice isolado e mais uma espécie de representante político do “cleitinhismo” dentro da chapa de Roscoe.
É uma solução elegante para um problema espinhoso.
Porque Cleitinho tem voto. E quem tem voto não gosta de ser tratado como figurante. Ao mesmo tempo, o PL quer construir em Minas um palanque para Flávio Bolsonaro e parece inclinado a trabalhar o nome de Flávio Roscoe como cabeça de chapa. A indicação de Alex Diniz poderia permitir uma acomodação: Roscoe lidera, PL organiza, Cleitinho apoia, Alex ocupa a vice e o Republicanos preserva espaço político.
Esse caminho tem riscos. O primeiro é transformar a chapa numa colagem de interesses. Roscoe fala com o setor produtivo. Cleitinho fala com o eleitor popular conservador. Nikolas fala com a militância bolsonarista. Alex Diniz poderia representar a costura política. Mas o eleitor vai querer saber: qual é o projeto de governo? Qual é a proposta para saúde, segurança, educação, dívida pública, infraestrutura, municípios, atração de investimentos, estradas, saneamento e pobreza?
Minas e suas peculiaridades
Minas não é palanque de rede social. Minas é Estado continental. Tem Jequitinhonha, Triângulo, Sul de Minas, Norte, Zona da Mata, Região Metropolitana, cidades médias, agronegócio, mineração, indústria, comércio, serviços e municípios dependentes até do cafezinho do repasse estadual.
Se Simões ficar de um lado e Roscoe-Cleitinho-PL de outro, o campo conservador perde a candidatura única. Simões terá o governo, mas poderá perder a energia bolsonarista. Roscoe poderá ter a militância, mas precisará provar densidade administrativa e eleitoral fora da bolha. Cleitinho poderá transferir parte de seu capital político, mas transferência de voto não é Pix: nem sempre cai na conta inteira.
Se a direita se dividir entre a continuidade de Simões e a chapa com Roscoe e Cleitinho, Kalil pode tentar ocupar o espaço da oposição competitiva. Com apoio do PT, teria palanque presidencial, estrutura partidária e narrativa anti-Zema. Mas terá também de lidar com a rejeição ao lulismo em setores importantes do eleitorado mineiro.
Kalil terá de fazer uma operação delicada. Receber Lula sem virar apêndice do PT. Usar a estrutura da esquerda sem perder seu estilo independente. Falar com o eleitor progressista sem espantar o eleitor pragmático que votou nele por gestão, temperamento e presença.
O novo panorama
Mateus Simões joga com a máquina, a continuidade e a herança de Zema.
Alexandre Kalil joga com o recall, o apoio possível de Lula e a tentativa de unir a oposição.
Flávio Roscoe, com Cleitinho, Nikolas, PL e eventualmente Alex Diniz na vice, joga com a reorganização da direita bolsonarista e produtiva.
A eleição mineira, portanto, começa a deixar de ser uma nuvem de especulações e passa a ganhar contornos de disputa real. Ainda há muita água para passar debaixo da ponte, e em Minas, às vezes, a ponte muda de lugar. Mas o desenho inicial está posto.
Simões precisa mostrar que continuidade não é acomodação.
Kalil precisa provar que apoio do PT não significa tutela do PT.
Roscoe e Cleitinho precisam demonstrar que a chapa não será apenas uma fotografia de Brasília, mas um projeto para Minas.
E Alex Diniz, se entrar na equação, pode ser a peça de encaixe dessa nova direita que tenta juntar partido, voto, rede social, empresariado e palanque presidencial.
No fim das contas, Minas volta a fazer o que sempre fez, embaralhar certezas e obrigar Brasília a entender que aqui ninguém vence apenas com ordem de cima.
Em Minas, palanque precisa ter chão. E quem não pisa no barro não chega ao Palácio Tiradentes.
