A eleição para o governo de Minas finalmente começa a trocar a fase das especulações pela das decisões. Mas só começa.
Porque, neste momento, o quadro mineiro parece menos uma fotografia e mais aqueles painéis de aeroporto: enquanto você olha, alguma coisa muda.
Algumas candidaturas já podem ser consideradas politicamente consolidadas, embora ainda dependam das respectivas convenções para a homologação formal. Mateus Simões está colocado pelo PSD. Patrus Ananias assumiu a pré-candidatura do PT. Gabriel Azevedo sustenta a candidatura do MDB. Alexandre Kalil está na pista pelo PDT.
O restante continua em movimento. E é justamente nesse movimento que está a parte mais interessante da eleição mineira.
O Novo escolheu seus nomes. Falta escolher o nome
O Partido Novo realizou sua convenção e decidiu apoiar Mateus Simões desde que possa indicar o candidato a vice. Apresentou duas possibilidades: a vereadora Fernanda Altoé e o ex-deputado federal Tiago Mitraud.
A escolha definitiva ficará para a negociação entre o partido e a campanha de Simões. É uma definição que produz outra definição.
Caso o vice seja realmente do Novo, Simões reforça a identidade original do grupo político que chegou ao governo de Minas com Romeu Zema, mas reduz o espaço disponível para acomodar outros aliados.
E aqui começa um dos problemas centrais da candidatura governista.
Quanto maior a coligação pretendida, maior a necessidade de distribuir espaços. Só existem um vice e duas vagas ao Senado. A matemática eleitoral comporta muitos partidos; a chapa majoritária, nem tanto.
Aécio olha para Kalil
Outro movimento importante acontece no PSDB.
A tentativa de aproximação entre Aécio Neves e o PL não avançou. Nos bastidores, a candidatura de Domingos Sávio ao Senado aparece como um dos obstáculos para uma composição que também acomodasse Aécio.
Ao mesmo tempo, PSDB e PDT intensificaram as conversas.
Hoje existe uma possibilidade concreta de Alexandre Kalil disputar o governo com Aécio candidato ao Senado em sua chapa. As conversas são consideradas avançadas, embora o acordo ainda dependa das definições partidárias. Politicamente, seria uma composição curiosa, e exatamente por isso bastante representativa da eleição de 2026.
As antigas fronteiras partidárias estão cada vez menos rígidas. O desenho das alianças estaduais obedece muito mais à sobrevivência eleitoral, ao espaço disponível nas chapas e às circunstâncias locais do que às alianças construídas nacionalmente.
A política brasileira descobriu há muito tempo que coerência nacional e conveniência estadual podem morar em apartamentos diferentes.
Gabriel segue no caminho próprio
No MDB, Gabriel Azevedo continua afirmando que não existe recuo. A convenção estadual está marcada para 1º de agosto e deverá referendar sua candidatura ao governo. O MDB ainda conversa sobre alianças, que caminham muito determinadamente com o Avante, mas trabalha inclusive com a possibilidade de uma chapa própria.
Gabriel tenta ocupar um espaço diferente nessa eleição: apresentar primeiro um programa e depois buscar parceiros que possam aderir a ele. Pode funcionar ou não eleitoralmente. Mas inverte a tradição brasileira segundo a qual primeiro se descobre quem está na chapa e depois alguém pergunta qual será o programa.
E então chegamos a Cleitinho
Aqui começa o capítulo em que o roteiro ganha elementos de novela.
O Republicanos realiza sua convenção no sábado, dia 25. Luís Eduardo Falcão já declara publicamente que espera ser o vice de Cleitinho numa chapa pura do Republicanos. O detalhe nada pequeno é que Cleitinho ainda não confirmou definitivamente sua candidatura.
Poucos personagens influenciam tanto o tabuleiro mineiro neste momento quanto alguém que ainda não disse claramente onde estará no tabuleiro.
Durante meses, Cleitinho oscilou entre disputar e permanecer no Senado. Essa indefinição deixou de ser apenas uma questão interna do Republicanos. Ela passou a determinar os movimentos de PL, União Progressista e de candidaturas ao Senado.
O PL é o maior exemplo.
O PL adiou a convenção e comprou quatro dias
A convenção liberal estava inicialmente marcada para esta quinta-feira, dia 23. Foi transferida para segunda-feira, dia 27.
Formalmente, há outras razões partidárias para o calendário. Politicamente, os quatro dias são preciosos porque colocam a convenção do PL depois da reunião do Republicanos. O partido poderá chegar ao dia 27 sabendo se Cleitinho é ou não candidato.
E aí aparecem diferentes caminhos.
Um setor prefere a aliança com Cleitinho. Outro trabalha com candidatura própria, tendo Vittorio Medioli entre os nomes considerados. Há ainda o peso das decisões da direção nacional e da estratégia presidencial de Flávio Bolsonaro.
O próprio PL já tratou publicamente o apoio a Cleitinho como prioridade, mantendo a candidatura própria como alternativa. É por isso que a decisão do Republicanos pode provocar um efeito dominó.
Cleitinho candidato com Falcão de vice altera a negociação com o PL. Pode mexer também com a União Progressista e com o destino de Marcelo Aro, hoje colocado na disputa pelo Senado. Domingos Sávio continua sendo o nome consolidado do PL para uma das duas cadeiras de senador.
Uma escolha que movimenta três ou quatro partidos.
Na esquerda, Patrus resolveu uma dúvida e abriu outras
O PT, depois de meses procurando um candidato, chegou a Patrus Ananias.
A direção estadual confirmou sua pré-candidatura, que deverá ser oficializada na convenção de 31 de julho. Resolveu-se o nome do cabeça de chapa. Não necessariamente toda a aliança.
O PSOL já sinalizou disposição para apoiar Patrus, enquanto o PT ainda procura ampliar a composição e atrair principalmente o PSB. O caminho do PT em direção ao PSB pode trazer Josué Gomes como vice na chapa e Jarbas Soares, na vaga do Senado, compondo com Marilia Campos os dois senadores da campanha.
Ou seja, até onde existe definição, ainda existe negociação.
A eleição começa a ganhar forma
Chegamos então a uma situação curiosa.
Mateus Simões, Patrus Ananias, Gabriel Azevedo e Alexandre Kalil formam hoje o núcleo mais consolidado da disputa.
A grande incógnita continua no campo da centro-direita e da direita: haverá uma candidatura adicional competitiva, formada em torno de Cleitinho, PL e possivelmente outros partidos, ou parte desse grupo acabará novamente convergindo para Mateus Simões?
Essa pergunta explica boa parte das conversas dos próximos dias.
O prazo também começa a apertar. Pela legislação eleitoral, as convenções terminam em 5 de agosto. Depois disso, acaba oficialmente a temporada de “vamos conversar”.
Até lá, Minas vive uma espécie de aplicativo de relacionamento eleitoral.
Todo mundo conversa com todo mundo. Um partido manda mensagem para outro. Tem aproximação, afastamento, reconciliação e gente esperando resposta desde a semana passada.
Algumas relações já viraram compromisso. Outras continuam apenas no “estamos conversando”.
Na política mineira de 2026, todo mundo namora. Pouca gente, por enquanto, está casada.
