No Brasil, há duas realidades distintas para as oportunidades de vida e de negócios. E não se trata apenas de desigualdade de renda, de acesso à educação ou de diferença de ponto de partida. Trata-se de algo ainda mais corrosivo: a sensação de que as regras do jogo mudam de acordo com o sobrenome, o endereço e a proximidade com o poder.
De um lado, está o Brasil da maioria. O comerciante que transpira para renovar um aluguel. A pequena empresa que atravessa a semana contando boletos como quem conta feridas. O prestador de serviço que escuta, com a resignação cansada de quem já conhece o roteiro, que o cliente “vai pensar”, “vai analisar”, “vai comparar orçamento”, “vai ver se cabe”. É o país da vida real, onde um bom contrato não cai do céu: luta-se por ele, disputa-se por ele, sangra-se por ele.
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Do outro lado, existe um outro mercado: o dos gabinetes cobertos de tapetes, dos sobrenomes de mármore, das portas que não rangem porque já nascem abertas para os muito próximos do poder. Um Brasil dos sonhos, de ar purificado, onde certas cifras parecem brotar não da lógica do mercado, mas da gravidade seletiva do privilégio.
A banalização dos milhões
É nesse segundo Brasil que se encaixa a discussão sobre o contrato do escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, com o Banco Master. O acordo, admitido pelo escritório Barci de Moraes Advogados Associados, previa R$ 3,6 milhões por mês, com valor total de R$ 129 milhões em três anos. A banca afirma que prestou consultoria ampla ao banco, com equipe de 15 advogados, dezenas de pareceres e 94 reuniões, e nega atuação em processos do Master no Supremo Tribunal Federal.
Muito bem. Registre-se a versão apresentada. Ela precisa constar com nitidez, porque, num Estado de Direito, não se condena ninguém por insinuação nem se substitui prova por histeria. Mas, numa República que ainda pretende conservar algum pudor, a pergunta não desaparece só porque veio acompanhada de nota oficial. Ao contrário: ela cresce, ganha corpo, pesa mais.
Porque, enquanto milhões de brasileiros mendigam crédito, desconto, prazo, confiança e oportunidade, surge um contrato dessa magnitude, desse tamanho paquidérmico, desse valor que não é apenas alto, mas estratosférico. E então a pergunta inevitável se impõe: o que exatamente vale R$ 129 milhões num escritório de advocacia?
Conversei com um dos escritórios mineiros de grande reputação quando o assunto é compliance e saúde corporativa. A resposta foi eloquente sem precisar ser espalhafatosa: um contrato de valor bastante elevado, de alta complexidade, pode girar na casa dos R$ 20 milhões, a depender do escopo e da duração. Ou seja, estamos falando aqui de uma cifra que, no sentir de profissionais experimentados, foge violentamente da curva.
E é isso que torna o caso tão perturbador. Não apenas o número em si, mas o abismo que ele revela.
A vida como ela é
O pequeno empreendedor brasileiro passa meses tentando fechar um contrato de vinte mil reais. O dono da loja atravessa a madrugada recalculando a folha de pagamento. A startup implora por um investidor. Um advogado comum, competente, estudioso, trabalhador, precisa disputar cliente no argumento, no currículo, na técnica e no preço. A meritocracia, no Brasil concreto, quase sempre vem com boleto e insônia.
Mas, nas alturas da República, parece haver gente para quem contratos colossais brotam com a naturalidade de uma jabuticabeira em novembro.
Eis o ponto moral da história: talvez tudo esteja formalmente vestido. Talvez esteja tudo carimbado, assinado, rubricado, encadernado e perfumado. Mas nem tudo que cabe na moldura da legalidade cabe também na moldura da decência pública.
Porque a questão aqui não é apenas penal. Nem sequer é só jurídica. É institucional. É ética. Justiça não é apenas toga. É prudência. É a exata medida que impede a confiança pública de ser corroída pela suspeita. É também aparência de imparcialidade, porque as instituições não vivem apenas de sua retidão interna, mas da credibilidade que inspiram.
Quando a família de um dos homens mais poderosos da República aparece ligada a um contrato tão fora da curva, com um banco afundado em suspeitas e escândalos, o que se rompe não é apenas a confiança em um caso específico. O que se rompe é a própria sensação de igualdade diante das regras. E isso, numa democracia já tão machucada, é veneno institucional.
O cidadão comum percebe isso com uma clareza brutal. Percebe quando o banco lhe nega crédito. Percebe quando a licitação não vem. Percebe quando o valor do contrato é rebaixado. Percebe quando o mercado pede excelência, entrega desconfiança e remunera abaixo do razoável. Então ele olha para a prateleira de cima do país e vê cifras que parecem pertencer não à economia real, mas a um teatro de privilégios.
No Brasil de baixo, contrato se conquista no tapa.
No Brasil de cima, às vezes parece que o contrato cai no colo por gravidade. E é essa gravidade seletiva que corrói a República.
Não porque prove, por si só, um crime. Seria leviano afirmar isso sem sentença, sem devido processo, sem prova cabal. Mas porque expõe algo talvez ainda pior: a naturalização obscena da promiscuidade entre influência, prestígio e dinheiro.
A maioria das empresas brasileiras vive na corda bamba. Fecha as portas por falta de fluxo de caixa, de cliente, de confiança, de fôlego. A maioria das pessoas trabalha muito para ganhar pouco. A maioria dos bons profissionais aprende cedo que mérito, sozinho, não paga jantar nem vence bastidor. E talvez seja essa a mais amarga pedagogia nacional: o talento rala; o acesso desliza.
Por isso esse caso ofende tanto. Não apenas pelo número, mas pela metáfora. Os R$ 129 milhões não são só dinheiro. São um símbolo. Símbolo de um país em que o esforço vale menos que a proximidade. Em que o talento se desdobra para fazer seu corre, enquanto o acesso caminha sobre tapete macio. Em que o topo do poder vai se fechando sobre si mesmo como um clube, enquanto o resto do país assiste do lado de fora, com o convite negado e a conta na mão.
No fim, o que revolta não é apenas o contrato. É o retrato. O retrato de um Brasil em que o elevador de serviço vive sempre quebrado, mas o elevador privativo sobe sempre, deslizando em um incômodo silêncio.
