Após um quarto de século de tratativas, o encerramento das negociações do maior acordo de livre comércio já firmado entre o Mercosul e a União Europeia marca um ponto de virada histórico para o comércio global. O pacto representa uma posição estratégica de reserva de mercado, sinalizando uma aproximação robusta entre os dois blocos.
O foco agora se volta para os próximos passos fundamentais: a aprovação doméstica pelos 27 Estados-membros da União Europeia e a implementação gradual de salvaguardas para equilibrar as economias envolvidas.
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De acordo com Wilson Mendonça, consultor em relações internacionais e professor da Skema Business School, a recente mudança de postura da Itália, que anteriormente se alinhava à França e Polônia contra o pacto, foi um fator decisivo para o avanço atual. “Percebemos agora que as salvaguardas também que foram ofertadas nesse intervalo de tempo ajudaram muitíssimo para que esse acordo se encaminhasse agora para a aprovação doméstica desses 27 estados”, explica o especialista.
Fatores geopolíticos e o “timing” do acordo
O cenário internacional funcionou como um catalisador para o fechamento do texto. A Guerra na Ucrânia, que comprometeu o fornecimento de commodities para a Europa, e a guerra tarifária iniciada por Donald Trump, aceleraram o processo de decisão em ambos os lados do Atlântico. Mendonça destaca que ter uma reserva de mercado entre Mercosul e UE é uma estratégia “louvável” em um momento de incertezas econômicas e ameaças às normas comerciais globais.
Impactos no mercado brasileiro
Para o consumidor brasileiro, o acordo promete transformar o acesso ao consumo. Segundo o professor, “abre-se aí uma porta de acesso a inúmeros bens de alto valor agregado, inúmeros bens industriais que haviam por muitos anos sido protegidos por grande parte da indústria brasileira”.
Apesar do otimismo, Mendonça pondera que existem preocupações legítimas sobre a competitividade de setores específicos da indústria nacional que serão afetados pela entrada de produtos europeus. No entanto, ele reforça que haverá uma “leitura progressiva ao longo dos anos” e investigações contínuas para assegurar que o acordo não prejudique o mercado de nenhuma das regiões de forma desproporcional.
O objetivo final, conforme defende Mendonça, é que as salvaguardas “favoreçam o desenvolvimento e o bem-estar das duas populações”, garantindo que o comércio multilateral saia fortalecido dessa negociação histórica.
