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Banco Master: a lavanderia elegante das relações perigosas

Por

Paulo Leite

Paulo Leite
  • 08/05/2026
  • 12:26

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Banco Master

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O caso Banco Master deixou de ser apenas um escândalo financeiro. Virou uma radiografia incômoda do modo como parte da elite brasileira se organiza quando o dinheiro encontra o poder. E, nesse encontro, quase nunca há testemunhas inocentes. Há contratos, pareceres, consultorias, campanhas publicitárias, advocacia, intermediação, influência, tudo muito bem embrulhado no papel celofane da legalidade.

Documentos enviados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado, mostram que o Banco Master declarou repasses milionários a escritórios de advocacia, empresas de consultoria e grupos ligados a políticos, ex-ministros, juristas, comunicadores e dirigentes partidários, os registros abrangem transferências entre 2022 e 2025 e somam dezenas de milhões de reais. 

Uma relação de nomes e valores que impressiona

A lista impressiona não apenas pelos valores, mas pelo ecletismo. Tem gente de vários governos, vários partidos, vários campos ideológicos. É quase uma frente ampla da conveniência. Dias Toffoli com a nebulosa venda de um resort, Henrique Meirelles aparece com R$18,5 milhões; Guido Mantega, por meio de empresa ligada a ele, com cerca de R$14 milhões; Michel Temer, por escritório de advocacia, com R$10 milhões; Antônio Rueda, presidente do União Brasil, com R$6,4 milhões; Ricardo Lewandowski, por escritório vinculado à família, com valores na casa dos R$6 milhões; ACM Neto, com R$5,45 milhões; Fabio Wajngarten, com R$3,8 milhões. Também aparecem empresas ligadas ao Grupo Massa, de Ratinho, com R$21 milhões, além da Gralha Azul, ligada à família, com R$3 milhões. São tantos milhões que essa coluna deixou para o leitor o “prazer” de fazer a soma final.

O caso do escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, adiciona uma camada especialmente sensível. O escritório recebeu mais de R$80 milhões em dois anos, que chegariam a R$129 milhões não fosse a operação da PF, para atuar na defesa do Banco Master. A proximidade do caso aumentou a pressão ética sobre Moraes, que se mantém aparentemente blindado e sem dar explicações mínimas sobre as informações.

Que fique claro: Prestação de serviço não é crime

Claro que  o repasse não é crime por si só. Prestação de serviço existe. Advocacia existe. Consultoria existe. Publicidade existe. Parecer jurídico existe. O problema começa quando o conjunto da obra grita mais alto do que cada contrato isolado. Quando um banco em dificuldades distribui milhões para gente com trânsito privilegiado em Brasília, no Judiciário, na política, na comunicação e no mercado, a pergunta deixa de ser apenas “qual serviço foi prestado?”. A pergunta passa a ser: que tipo de proteção se comprava com tanto serviço?

Daniel Vorcaro parecia entender como poucos a geografia subterrânea do poder brasileiro. O Banco Master cresceu de maneira agressiva, entrou em rota de crise, passou a enfrentar pressão regulatória e, ao mesmo tempo, ampliou sua rede de relações. Os pagamentos do Master a políticos, ex-ministros e dirigentes partidários cresceram 27 vezes entre 2023 e 2025, saltando de R$1,5 milhão para R$41,7 milhões. Somados às festas, jatinhos, privilégios e presentes, essa soma é estratosférica.

Ontem a PF realizou operação de busca e apreensão na residência do senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas, jogando mais gasolina nesse incêndio, mais uma fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça, no avanço das investigações sobre o Banco Master. A mesma operação também levou à prisão de Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro.

Esse novo capítulo reforça a tese central: o Master não era apenas um banco em crise tentando resolver problemas financeiros. Era um banco cercado de relações políticas, jurídicas e empresariais, espalhadas por vários centros de poder. Ciro Nogueira, é bom lembrar, não é um personagem lateral. É presidente de um partido com forte influência no cenário político brasileiro, ex-ministro da Casa Civil, operador político experiente e figura central do Centrão. Quando uma investigação sobre um banco quebrado chega a esse tipo de personagem, o caso deixa definitivamente o terreno da contabilidade e entra no coração da política brasileira.

A prisão de um familiar de Vorcaro, por sua vez, mostra que a investigação está tentando alcançar não apenas o banqueiro central da história, mas também o entorno operacional dessa rede. E aí a pergunta fica ainda mais pesada: até onde ia a engrenagem do Banco Master?

Era apenas um conjunto de contratos formais, como alegam os suspeitos, ou uma arquitetura de influência montada para blindar interesses, abrir portas e comprar silêncio institucional?

Um caso com coincidências demais

São dados devastadores porque mostram uma coincidência temporal, no mínimo, muito constrangedora: quanto maior a crise do banco, maior a aproximação com personagens influentes. Quanto mais o Master precisava sobreviver, mais contratava nomes com acesso ao coração da República. A conta pode até ser formalmente lançada como consultoria, parecer, publicidade ou intermediação. Mas politicamente ela tem outro nome, compra de ambiente. E o ambiente, no Brasil, vale ouro.

Vorcaro não procurou apenas um lado do balcão. Procurou todos. Essa talvez seja a face mais reveladora do caso. O Banco Master não tinha ideologia; tinha necessidade. Não tinha partido; tinha estratégia. Não tinha preferência doutrinária; tinha urgência de sobrevivência. A rede passava por figuras associadas ao PT, ao MDB, ao Progressistas, ao União Brasil, ao bolsonarismo, ao lulismo, ao mercado financeiro, ao Judiciário, à comunicação e às estruturas partidárias. O banqueiro parecia cultivar uma plantação de favores em todos os terrenos possíveis.

A capacidade de Vorcaro de montar uma agenda de contatos que incluía ministros do Supremo, presidentes da Câmara e do Senado e autoridades do Banco Central, era de uma arquitetura de ações no mínimo surpreendente, para ser “educado” nas informações. Os advogados de defesa do ex-banqueiro negaram irregularidades, fraude, intimidação de jornalistas, cooptação de agentes públicos ou tentativa de interferir em investigações. 

Esse cuidado é essencial: cabe à investigação separar contrato legítimo de influência indevida. Mas cabe ao jornalismo, à opinião pública e às instituições perguntar por que um banco sob suspeita precisava de tanta gente poderosa ao redor.

Mas, nem tudo que é formalmente legal é politicamente aceitável. Nem tudo que tem nota fiscal passa no teste da moralidade pública. A República não pode funcionar como um clube fechado onde bancos problemáticos contratam pessoas com sobrenomes certos, agendas certas, telefones certos e portas certas.

O discurso da “prestação de serviços” precisa ser examinado sem ingenuidade. Que serviços foram esses? Quanto tempo duraram? Que entregas produziram? Havia compatibilidade entre valor e trabalho? Houve intermediação junto a autoridades? Houve tentativa de influência em órgãos reguladores? Houve atuação em favor da venda do banco? Houve aconselhamento jurídico legítimo ou engenharia política disfarçada?

Essas perguntas não condenam ninguém. Mas protegem o país da velha malandragem institucional: aquela em que o dinheiro circula limpo no papel e sujo no significado.

O que revela o caso Master?

O Banco Master virou uma espécie de espelho. E o que aparece nele é feio. Mostra um Brasil onde a fronteira entre advocacia, consultoria, lobby, influência e proteção política é fina como papel de seda. Mostra que o poder não se vende necessariamente em malas de dinheiro. Às vezes, ele se aluga por contrato, se justifica por parecer, se perfuma com nota fiscal e se apresenta em seminário internacional com taça de cristal na mão.

Daniel Vorcaro pode ter sido o personagem central, mas não atuou no deserto. Ninguém constrói uma rede desse tamanho conversando sozinho. O Master expõe uma República em que muita gente poderosa aceitou estar perto demais de um banco que já levantava suspeitas demais.

O escândalo, portanto, não é apenas saber quem recebeu. É saber por que recebeu, pelo que recebeu e em que momento recebeu.

Porque, no Brasil, o problema raramente está só no dinheiro que entra. Está na porta que ele abre.

E o caso Master parece ter aberto muitas. Demais.

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Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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