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BH e a chuva: quando a cidade vira rascunho

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Mas o drama de BH na chuva não é só água (Reprodução/Redes sociais)

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Belo Horizonte sempre teve vocação para mirante, esquina e conversa boa. O problema é que, quando o céu resolve falar mais alto, a cidade parece perder a audição, e a memória. Janeiro mal começou e já tem cara de reprise. Defesa Civil em alerta, ruas virando rios, gente desviando de enxurrada como quem dribla o destino, e árvores caindo com a elegância de um susto.

Nos últimos dias, a própria Defesa Civil colocou praticamente toda a capital em risco geológico forte até hoje, terça-feira, (06/01), por conta do volume acumulado e da previsão de novas pancadas. E não foi “chuvinha de verão”: há registros de regionais com mais de 100 mm em pouco tempo, e áreas já chegando a uma fatia considerável do esperado para o mês.

Mas o drama de BH na chuva não é só água. É tudo o que a água revela: o improviso. A cada temporal, a cidade lembra, tarde demais, que foi construída entre morros, córregos e pressa.

A tragédia mais frequente: árvore no chão

Se tem um símbolo da nossa temporada de chuvas, é a árvore caindo. E aqui mora um paradoxo cruel. Árvore é vida urbana, sombra, respiro. Só que uma árvore sem manejo vira roleta-russa. Houve registro de 17 árvores caídas em 24 horas em BH, com ocorrências em via pública, sobre veículos e residências.

Isso não é “fatalidade”: é manutenção atrasada, rede elétrica competindo com copa, raiz sufocada por calçada mal feita, poda inexistente ou mal executada, e vistoria que só acontece depois do estrondo.

A chuva, claro, ajuda. Vento e solo encharcado fazem o resto. O INMET emitiu alertas recentes com previsão de chuva intensa, ventos fortes e até granizo em Minas, e BH entra nesse aviso. Ou seja, o risco é anunciado. A queda é que parece surpresa.

BH precisa tratar o manejo arbóreo como política de segurança urbana. Realizar um inventário atualizado e público (não é frescura, é gestão). Fazer vistorias preventivas por prioridade: árvores antigas, inclinadas, com pragas, em áreas de circulação intensa e perto de rede elétrica. Divulgar calendário de poda técnica antes do pico do verão, com equipe treinada e metas por regional. E uma força-tarefa de resposta rápida para “árvore com risco iminente”, com canal simples de acionamento (e retorno com prazo).

Árvore não pode ser só paisagem: tem que ser responsabilidade.

Alagamento não cai do céu: sobe do bueiro

Todo temporal tem seus pontos fixos, como se a cidade estivesse presa a uma coreografia antiga. E quando isso acontece, não é apenas trânsito: é ambulância atrasando, trabalhador chegando tarde, comércio parando, prejuízo pingando.

Drenagem urbana é assunto sem glamour, mas com efeito imediato. E BH precisa de duas coisas ao mesmo tempo: manutenção cotidiana e obras estruturais com coragem.

Já passou da hora da Prefeitura realizar um “mutirão permanente” do básico que salva, com limpeza de bocas de lobo e galerias em calendário intensivo antes e durante o período chuvoso (com transparência do que foi feito e onde). Fazer e divulgar um mapeamento dos pontos crônicos de alagamento com intervenções por etapa: do desentupimento à reengenharia do trecho, além de criar mais áreas permeáveis: praças, canteiros, calçadas drenantes em vias críticas, e, não só no folder bonito de campanha. Se a água não encontra caminho, ela inventa. E a invenção da água costuma ser cara.

O lixo, coautor da enchente

Agora, o capítulo mais constrangedor: a cidade fica suja de um jeito quase didático. Saco de lixo largado na calçada, em esquina, em qualquer “cantinho estratégico”, vira jangada de plástico. A enxurrada leva, rasga, espalha, entope bueiro e devolve o pacote inteiro: mau cheiro, sujeira, mais alagamento e doenças como rodapé.

Aqui a culpa é compartilhada, com gosto amargo: falta estrutura e sobra descuido. Para ser objetivo, e quase didático, deveria ser prioridade zero uma operação “chuva sem lixo”, prática e sem romantismo. Fazer o que muitas cidades já fazem, instalar contêineres e pontos de descarte onde há maior produção de resíduos (áreas comerciais, feiras, grandes condomínios). Realizar uma fiscalização real de descarte irregular em pontos reincidentes (a cidade sabe onde são), e uma Coleta e varrição reforçadas nos dias de alerta meteorológico. Quando a água arrasta lixo, ela está só obedecendo à física. Quem desobedece ao bom senso somos nós.

Chuva não é surpresa: surpresa é a falta de planejamento

O problema central de BH com a chuva é cultural e administrativo: a gente se comporta como se todo verão fosse “um evento”. Não é. É calendário. E o calendário se enfrenta com planejamento, orçamento, rotina e prioridade.

Em vez de apenas reagir ao estrago, BH precisa governar o risco, observar encostas, fazer pontos de drenagem, racionalizar os cuidados com as árvores, e limpeza, como eixos permanentes, com metas, indicadores e prestação de contas.

E, sim, tem uma parte que cabe ao cidadão. Não estacionar em área de risco em dia de alerta, não se abrigar sob árvore em vendaval, não jogar lixo em qualquer lugar, chamar a Defesa Civil ao primeiro sinal de perigo. Mas o cidadão sozinho não segura uma cidade mal preparada.

BH não precisa vencer a chuva. Precisa aprender a conviver com ela sem virar rascunho. A capital que sabe fazer poesia em bar de esquina pode, perfeitamente, fazer engenharia e gestão com a mesma seriedade. Porque, no fim, a chuva passa.

O estrago, quando a cidade descuida, fica, como lama no sapato e teimosia no orçamento.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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