Li o texto do Antônio Claret Jr. com atenção, e ele acerta em cheio num ponto: Marine Le Pen não é “direita liberal”. O programa dela flerta com protecionismo, “patriotismo econômico”, Estado tutor e uma economia com mão pesada no volante. Até aí, estamos juntos.
Mas aí vem o pulo do gato (um gato bem francês, de boina): concluir que, por ser estatizante, ela “não é direita” é trocar o mapa pelo território. É como dizer que “não é feijoada” porque tem louro — quando, no fundo, é feijoada com tempero ideológico diferente.
”Direita” não é sinônimo de “liberal”
O artigo define “direita” como Estado limitado + livre mercado + privatização + livre comércio. Isso é uma tradição da direita (a liberal), não a direita inteira.
Na ciência política, a direita radical/populista costuma se organizar por outro eixo: nacionalismo + nativismo + ordem + liderança forte, e muitas vezes combina isso com estatismo econômico e proteção social seletiva. Há literatura boa mostrando exatamente esse mix: “economic statism” e “welfare chauvinism” (bem-estar para “os nossos”, restrição para “os de fora”).
Em bom português: Estado grande, mas com bandeira nacional por cima — e porteiro na porta.
Ultra direita, historicamente, gosta de Estado forte (e gosta muito)
Ultradireita frequentemente é nacionalista e estatizante. Não é contradição; é característica.
O truque retórico está em chamar “direita” apenas do que é “liberal”. Aí, toda direita antiliberal vira “não-direita”. Mas isso é mais uma disputa de rótulo do que uma descrição do fenômeno.
O que Marine Le Pen é, então? Direita radical — não direita liberal
O texto da coluna de Claret aponta que Le Pen opera fora do “eixo liberal clássico” e investe num populismo soberanista. Concordo.
Só que isso não a “expulsa” da direita; reposiciona: ela está mais perto da família nacional-populista / radical right (direita radical) do que do liberalismo econômico.
E esse “nacionalismo com política social seletiva” aparece também em propostas associadas ao RN, como prioridade de nacionais em benefícios (a lógica do “primeiro os franceses”), algo bastante discutido quando o partido buscou “normalizar” a imagem sem abandonar o núcleo identitário.
Uma direita nacionalista estatizante tende a rejeitar aventuras externas por soberanismo, não por liberalismo.
Enquanto uma direita liberal pode rejeitar intervenção por cálculo institucional, custos, comércio, aversão a “guerras sem fim”.
Mesmo “não” dito pelo mesmo lado do microfone pode vir de razões diferentes, e aí mora o jornalismo: separar o “não” do “por quê”.
Minha síntese, sem cerimônia
Claret Jr., em sua coluna, tem razão em dizer que Le Pen não é liberal. Mas erra ao tentar resolver o problema com uma guilhotina conceitual: “se é estatista, não é direita”.
Ela é direita, só que da ala que troca o livre mercado por um Estado musculoso, e troca universalismo por identidade nacional. É a direita que diz: “o Estado é grande, mas o abraço é só pros meus”.
