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O Brasil do Carnaval: o povo nas ruas, a política no bloco e a economia de abadá

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Sol e tempo aberto no desfile do Então, Brilha em BH (Foto: Thiago Cândido/98)

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O Brasil tem um talento raro, consegue viver duas realidades ao mesmo tempo sem ficar vermelho, de suor, ou de vergonha.. De um lado, a política numa coreografia nervosa, instituições em tensão, disputas de poder, narrativas se atropelando, a confiança pública sendo jogada de um lado pro outro como confete em ventania. Do outro lado, o Carnaval: uma catarse nacional que começa como festa e vira tábua de sobrevivência.

A gente vive crise com a seriedade de quem diz isso é gravíssimo, e, cinco minutos depois, compra glitter biodegradável, verifica o itinerário do bloco e declara que a vida é uma só, samba, suor e cerveja. E talvez seja mesmo. Mas há algo de profundamente brasileiro, e profundamente irônico, nessa convivência: a República pega fogo e, enquanto isso, o povo ensaia passinho como quem diz deixa queimar, mas não atrapalha o surdo e o tamborim.

O contraste é quase pedagógico. Porque o que é esse Brasil fora do Carnaval? É o país onde a política parece uma novela com roteiro reescrito no intervalo do capítulo, e com elenco que discute a própria moralidade em público, como se isso fosse performance artística. É o país em que as contas públicas vivem entre o “calma, é só um ajuste” e o “socorro, é um rombo”, e onde o cidadão comum aprende economia na marra, não por vocação: ele descobre o que é inflação quando passa no supermercado e vê o que coloca no carrinho virar artigo de luxo.

Na economia, a sensação é conhecida: o dinheiro não acaba, ele evapora. Você entra na semana achando que dá, e sai dela negociando com o extrato bancário como quem pede trégua num conflito internacional. E o investimento, a produtividade, a indústria? Tudo vai andando com uma tornozeleira de burocracia, custo e insegurança. O país não é pobre, ele é caro, travado e frequentemente mal gerido. E quando não é mal gerido, é governado com medo de perder a próxima votação, a próxima manchete, o próximo movimento do tabuleiro.

Aí chega o Carnaval e o Brasil muda de roupa, de alma e de prioridade.

A crise institucional, que parecia o centro do universo, vira pano de fundo. O dólar? Um detalhe. O déficit? Um conceito abstrato. O noticiário político? Um ruído distante, como carro de som na rua paralela. O que importa agora é a fantasia, o bloco, o beijo, o suor, o samba, e, claro, a certeza de que o mundo vai acabar na Quarta-feira de Cinzas. Porque o brasileiro é assim, tem que acreditar que a realidade tem data para recomeçar. Se não tiver, “dá ruim”.

E tem uma lógica nisso, por mais doida que pareça. O Carnaval é uma espécie de regulador emocional de uma nação que vive sob estresse crônico. Ele funciona como válvula de escape coletiva num país em que o cidadão, muitas vezes, não tem controle sobre quase nada, não controla preço, não controla imposto, não controla a briga institucional, não controla o humor do poder. Mas controla o corpo, a rua, a alegria,e  por alguns dias, o Brasil deixa de ser planilha e vira batuque..

O problema é quando a festa vira anestesia. Porque há duas maneiras de viver o Carnaval. Como celebração legítima da cultura e da vida, ou como fuga sistemática. E a linha entre uma coisa e outra é fina como serpentina.

A cada ano, a gente repete: “depois do Carnaval, o Brasil anda”. É a frase mais mentirosa da nossa história recente, competindo de igual pra igual com “agora vai” e “dessa vez é diferente”. Depois do Carnaval, o Brasil não necessariamente anda; ele volta a carregar o mesmo peso, só que com uma ressaca simbólica e a fantasia amassada numa sacola.

E aí vem a ironia maior: o país que mais precisa de serenidade, previsibilidade, pacto institucional e responsabilidade fiscal é o mesmo que, com razão cultural e emocional, escolhe a intensidade como identidade. Somos a nação do improviso, do jeitinho criativo, do “vamos resolver”, do “deixa comigo”. O problema é que política e economia não respeitam o improviso por muito tempo. Elas cobram com juros. Com inflação. Com desemprego. Com desconfiança. Com paralisia.

Depois do carnaval, vem a vida dos boletos

No Carnaval, a gente finge que o tempo não existe. Na economia, o tempo cobra. No Carnaval, a gente finge que tudo é eterno e leve. Na política, tudo é disputa e peso. O Brasil parece um sujeito que dança no Titanic, não porque não percebe o iceberg, mas porque sabe que, se parar de dançar, entra em pânico.

E aqui eu vou dizer uma coisa sem cinismo barato. O Carnaval não é o vilão. O vilão é o país que exige do povo uma resistência sobre-humana o ano inteiro e depois se surpreende quando o povo escolhe o êxtase por alguns dias. Quem trabalha sob pressão constante precisa de escape. Quem vive insegurança crônica precisa de alívio. O problema é o poder, político e econômico, usar essa catarse como cortina, como distração, como “deixa pra depois”.

Porque, enquanto o país dança, o custo sobe. Enquanto o país canta, a institucionalidade range. Enquanto o país pula, os problemas continuam sentados, esperando a Quarta-feira de Cinzas como quem espera o fim da greve, com a certeza de que, no dia seguinte, tudo volta… inclusive as contas.

E daí, qual é o caminho?

A grande pergunta, então, não é “como pode o Brasil festejar em crise?”. A pergunta é: como pode o Brasil aceitar viver em crise como se fosse normal? Como se a instabilidade fosse um clima. Como se o conflito permanente fosse paisagem. Como se a economia apertada fosse destino. A festa é um direito, uma beleza, uma potência cultural. Mas a crise não pode ser tradição.

O Brasil precisa de Carnaval. Mas precisa, principalmente, de uma Quarta-feira de Cinzas em que a lucidez não seja só ressaca, seja reação.

Porque a verdade, nua e sem purpurina, é esta. O mundo não acaba na Quarta-feira de Cinzas. Quem acaba é a paciência. E, às vezes, a renda. E, às vezes, a esperança. O resto continua.

E continua cobrando com juros.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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