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Álvaro Damião, um ano depois: muita presença, pouca arquitetura de governo

Por

Paulo Leite

Paulo Leite
  • 03/04/2026
  • 15:45

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Prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião
(Adão de Souza/PBH)

(Adão de Souza/PBH)

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Álvaro Damião completa nesta sexta-feira, 3 de abril de 2026, um ano formal como prefeito de Belo Horizonte. Assumiu de vez após a morte de Fuad Noman, embora já estivesse há quase três meses no comando interino da cidade. E, num balanço mais honesto desse período, não se pode falar em um ano perdido. Mas foi, sem dúvida, um ano aquém da dimensão e das exigências de Belo Horizonte.

Houve presença, houve exposição, houve rua, houve vídeo, houve bordão. Faltou, porém, aquilo que distingue um gestor politicamente hábil de um prefeito realmente transformador: projeto de cidade, hierarquia clara de prioridades e capacidade de enfrentar o estrutural sem depender, em excesso, do lance de ocasião.

Damião tomou posse prometendo a continuidade da gestão Fuad, falando em ampliar acertos e manter o rumo. Na prática, a máquina foi sendo redesenhada aos poucos para ganhar a sua marca, com trocas no primeiro escalão, mudanças em administrações regionais e substituições inclusive de nomes ligados ao núcleo mais próximo do antecessor. Isso, por si só, não é problema; todo governante precisa formar sua equipe. A questão é que a sucessão de mudanças transmite a sensação de uma administração ainda em calibragem, mais preocupada em se ajustar do que em consolidar direção.

O traço mais visível da gestão, até aqui, é o da comunicação direta e da presença ostensiva. Damião construiu um estilo de prefeito de contato, de vídeo de rua, de fiscalização com celular na mão, de linguagem acessível, de “tamo junto” como assinatura política.

Esse estilo tem potência pública e produz identificação. Mas também carrega um limite evidente. Quando o governante precisa ir pessoalmente desfazer barreiras colocadas pela própria BHTrans ou cobrar publicamente a SLU pelo recolhimento de lixo, ele até reforça a imagem de proximidade com a população, mas também revela uma engrenagem administrativa que ou não funciona como deveria, ou não responde com a firmeza necessária ao comando central. Prefeito não pode se converter em gerente de urgências filmado em tempo integral. Cidade grande não se governa apenas na resposta instantânea da esquina.

É justo reconhecer que houve acertos importantes.

O Carnaval de 2026 foi um sucesso retumbante, com 6,6 milhões de foliões, 349 mil turistas e movimentação econômica estimada em R$1,4 bilhão. A adoção da gratuidade dos ônibus aos domingos e feriados também foi uma medida politicamente inteligente, de forte apelo social, em vigor desde 14 de dezembro, e estimada em cerca de R$40 milhões por ano. São ações de impacto concreto na vida urbana e também na percepção pública da gestão.

Mas há uma ironia política aí. O mesmo prefeito que articulou contra uma Tarifa Zero ampla na Câmara depois abraçou uma versão parcial e seletiva da proposta. Não chega a ser incoerência; pode ser lido como adaptação pragmática ao ambiente político. Ainda assim, o episódio sugere que, em seu primeiro ano, Damião se mostrou mais confortável em operar movimentos táticos do que em apresentar uma diretriz consistente de mobilidade urbana.

Nos temas realmente pesados, a gestão tropeçou mais do que deveria. Na educação, a greve dos professores começou em 6 de junho de 2025 e nasceu de um conflito duro. A prefeitura ofereceu reajuste de 2,49%, enquanto a categoria cobrava 6,27%; o movimento só terminou após 29 dias.

Na saúde, a situação foi ainda mais delicada. Hospitais filantrópicos e 100% SUS denunciaram que a dívida da prefeitura, que girava em torno de R$50 milhões, teria chegado a R$100 milhões no início de 2026. Depois, a Câmara precisou enviar R$72,1 milhões, e a prefeitura antecipou mais R$49 milhões para regularizar os repasses. A gestão não deixou a saúde colapsar, mas deixou a tensão crescer além do aceitável. E governar bem é justamente impedir que o problema chegue ao limite.

Também não passou despercebido o contraste entre crises locais e agendas externas. Logo na primeira semana como prefeito empossado, Damião viajou ao Peru para evento do BID. Em junho, foi a Israel para conhecer tecnologias de segurança pública e acabou tendo de se abrigar em bunkers após ataques do Irã. Em janeiro de 2026, tirou 28 dias de férias na Europa. Nada disso é ilegal, e prefeitos não são prisioneiros do gabinete. Mas política também é símbolo. E o símbolo que ficou, em momentos sensíveis, foi o de uma cidade às voltas com greve, pressão sobre hospitais, chuvas e impasses urbanos, enquanto seu prefeito alternava alta exposição pública com ausências institucionais difíceis de ignorar.

Na frente fiscal e urbanística, o quadro é ainda mais revelador. O orçamento de 2026 foi aprovado com déficit previsto de R$786,6 milhões; a própria Câmara destacou o peso do transporte, com gastos totais estimados em R$1,7 bilhão. 

Ao mesmo tempo, Damião empurrou duas agendas estruturantes: a reforma administrativa, aprovada em primeiro turno em 30 de março, e o projeto que flexibiliza regras para prédios mais altos no Centro e bairros próximos, também aprovado em primeiro turno, com redução de outorga onerosa e incentivos ao retrofit.

As duas iniciativas têm ambição. O problema é que ambas chegaram cercadas de críticas, de um lado, a falta de transparência no empréstimo de até R$500 milhões para o programa BH Resiliente; de outro, a pressão de urbanistas, entidades e vereadores diante do risco de favorecer excessivamente o mercado imobiliário sem assegurar contrapartidas sociais robustas, como moradia popular e proteção do patrimônio urbano. Em outras palavras, Damião começou a desenhar sua marca, mas ainda com contornos imprecisos.

No fim das contas, o primeiro ano de Álvaro Damião deixa uma impressão curiosa. Ele não é um prefeito ausente, frio ou burocrático. Ao contrário, é expansivo, comunicativo, intuitivo e politicamente atento ao pulso das ruas. Mas uma cidade do tamanho de Belo Horizonte exige mais do que presença, desenvoltura e capacidade de conexão imediata. Exige método. Exige comando de máquina. Exige planejamento que sobreviva ao vídeo do dia. Exige coragem para enfrentar a crise da saúde antes que ela vire manchete, a crise da educação antes que vire greve, e a crise urbana antes que ela se resuma a negócio imobiliário com verniz de revitalização.

Damião passou no teste da presença. Mas ainda fica devendo no teste da profundidade. E, para um prefeito, estar perto é qualidade; saber para onde conduzir a cidade é obrigação.

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Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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