Há assuntos que aparentemente moram em bairros diferentes, mas acabam se encontrando na mesma esquina.
Em Brasília, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, pretende reunir reservadamente, ainda nesta semana, os ex-presidentes da Corte para discutir a crise provocada pelo caso Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Participarão também Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Luiz Fux, integrantes da atual composição que já comandaram o tribunal.
Em Belo Horizonte, deveria acontecer nesta terça-feira o debate entre os candidatos ao Governo de Minas promovido pela Rede 98.
Não acontecerá.
Cleitinho Azevedo, Alexandre Kalil e Patrus Ananias não confirmaram presença. Mateus Simões, Gabriel Azevedo e Flávio Roscoe aceitaram participar. Com metade dos seis convidados fora, os organizadores decidiram cancelar o encontro.
Brasília tem portas fechadas. Minas terá cadeiras vazias.
E, guardadas todas as enormes diferenças entre os episódios, existe alguma coisa profundamente parecida entre eles: a dificuldade crescente da política brasileira de conviver com o contraditório público.
A reunião a portas fechadas
No Supremo, a situação é grave porque 13 ministros aposentados e ex-presidentes da própria Corte divulgaram uma manifestação pedindo uma sessão pública e uma apuração imediata e rigorosa dos fatos que estão desgastando a imagem do tribunal.
Fachin se movimentou. É importante reconhecer. Mas sua primeira resposta foi convocar uma reunião reservada.
Reuniões reservadas fazem parte da vida institucional. Presidentes de tribunais precisam conversar, ouvir colegas, construir soluções e administrar crises. O problema começa se a conversa reservada virar substituta da resposta pública.
Porque existem perguntas que, depois de certo tamanho, já não cabem mais dentro de gabinetes.
O caso Moraes–Vorcaro chegou a esse tamanho.
Até agora, não surgiu prova documental demonstrando que Alexandre de Moraes tenha atendido aos pedidos de Daniel Vorcaro ou utilizado seu cargo para interferir junto à Polícia Federal, à Procuradoria-Geral da República ou ao Banco Central em benefício do banqueiro ou do Banco Master.
Isso precisa ser repetido. Suspeita não é condenação. Mensagem não é crime. Relação pessoal não demonstra automaticamente favorecimento.
Mas existe justamente um instrumento civilizado para separar suspeita de fato: investigar.
André Mendonça já liberou o caso para apreciação do plenário. Fachin estabeleceu prazo até 11 de setembro para manifestações antes de definir os próximos passos. A pergunta institucional, portanto, permanece diante da Corte: haverá ou não uma apuração formal?
Quando a confiança pública está em jogo, silêncio não produz confiança. Produz versões.
E versão é uma erva daninha que cresce, especialmente bem, onde falta transparência.
De Brasília a Minas
Aqui o problema é outro, evidentemente. Mas o princípio democrático é o mesmo.
Cleitinho Azevedo, Alexandre Kalil e Patrus Ananias tinham a oportunidade de sentar diante dos adversários, jornalistas e eleitores para responder perguntas sobre o Estado que pretendem governar.
Preferiram não participar. É direito deles, mas que dá direito ao eleitor tirar suas conclusões.
Porque o candidato não é celebridade fazendo turnê promocional. A campanha eleitoral não deveria ser apenas vídeo bonito, postagem editada, entrevista escolhida, agenda preparada e discurso diante de plateia amiga.
Governar é exatamente o contrário disso.
Governar significa ser contrariado.
Significa enfrentar oposição, Assembleia Legislativa, servidores, empresários, sindicatos, prefeitos, imprensa, Tribunal de Contas e, principalmente, uma realidade que costuma ter o péssimo hábito de não obedecer ao roteiro preparado pelo marketing.
Por isso existe algo estranho em alguém pedir quatro anos para comandar Minas Gerais e não encontrar uma hora e meia para discutir Minas Gerais diante dos adversários.
Se o candidato não gosta da pergunta difícil durante a campanha, imagine quando ela vier acompanhada de uma greve, uma crise fiscal ou uma enchente.
O modelo brasileiro é muito ruim
A legislação transformou sua organização em uma pequena engenharia jurídica. Há regras de representatividade parlamentar, acordos entre partidos e emissoras, exigências de isonomia, antecedência dos convites e uma série de precauções que tornam o formato cada vez mais rígido. Para as eleições de 2026, o próprio TSE publicou a tabela de representatividade partidária usada para definir participação nos debates.
Como resultado temos debates numerosos demais, blocos curtos demais, respostas cronometradas demais e candidatos falando ao mesmo tempo sobre assuntos diferentes demais.
O debate eleitoral brasileiro algumas vezes parece concurso público: tem regra para tudo, menos garantia de que alguém realmente responda à pergunta.
Isso desgastou o formato.
Precisamos discutir modelos mais flexíveis, debates temáticos, confrontos menores, regras jornalísticas mais livres e menos negociações partidárias sobre cada minuto da transmissão.
Mas a legislação não pode servir de biombo para quem decidiu faltar.
A própria regra eleitoral permite a realização de debate sem candidato que tenha sido devidamente convidado e admite, em determinadas condições, debates em grupos com pelo menos três participantes.
Portanto, existem dois debates diferentes aqui.
Um é sobre melhorar o formato, outro é sobre ter coragem de comparecer, e não podemos confundir os dois.
Democracia não é apenas votar.
Democracia é perguntar, responder, desconfiar, explicar, e aceitar contestação.
Por isso Brasília e Belo Horizonte acabam se encontrando nesta terça-feira.
No Supremo, 13 antigos ministros pedem que uma crise grave saia dos corredores e seja enfrentada publicamente pelo plenário.
Em Minas, três candidatos convidados decidiram não comparecer ao confronto público de ideias.
Em um caso, esperamos que as portas se abram. No outro, lamentamos que as cadeiras tenham ficado vazias.
E talvez este seja um dos grandes males da nossa vida pública: há gente demais querendo o poder e gente de menos disposta a prestar contas dele.
Porque a democracia começa no voto, uma pequena parcela de seu exercício, mas só continua existindo quando ninguém se esconde em salas, protegendo-se da opinião pública, ou foge de debates com medo de ser confrontado com perguntas incômodas que revelem sua incapacidade.