PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Praça João Pessoa: a vitrine do fracasso urbano de BH

Siga no

A praça, neste momento, é muito mais que um espaço urbano degradado. É um termômetro da falência do planejamento, da ausência do Estado e do cinismo administrativo (Foto: Reprodução/Google Street View)

Compartilhar matéria

Na confluência das avenidas Brasil e Bernardo Monteiro, a Praça João Pessoa deveria ser um ponto nobre da cidade. Hoje, é uma terra arrasada. O cenário é de abandono institucional, sujeira, estruturas improvisadas e violência cotidiana. Nesta semana, o colapso urbano ganhou nova evidência: a repórter Ethel Corrêa, da TV Alterosa, foi atacada ao vivo durante uma reportagem sobre o lixo acumulado no local. Um pedaço de ferro e uma maçaneta foram arremessados contra ela enquanto entrevistava moradores e comerciantes da região. Não foi um incidente. Foi a metáfora perfeita da degradação da cidade.

A Praça João Pessoa virou campo de ocupação desordenada, sem controle, sem acolhimento e sem Estado. E isso acontece na região Centro-Sul de Belo Horizonte, a metros de hospitais, escolas e vias importantes. Se isso ocorre ali, o que dizer do restante da cidade?

BH: capital do descaso

Em março de 2025, Belo Horizonte alcançou o vergonhoso patamar de 14.454 pessoas em situação de rua, segundo dados do Cadastro Único. A cidade é hoje a terceira do Brasil em números absolutos. Mais que triplicou desde 2013. E o que a Prefeitura tem feito? Alguns projetos embrionários, ações isoladas, muito marketing e pouca escala.

“Projetos em andamento”: o que há e o que falta

O discurso oficial se apega a iniciativas como o Programa Estamos Juntos, que desde 2019 formou pouco mais de mil pessoas e inseriu 110 no mercado de trabalho. Resultado: menos de 1% da população em situação de rua foi de fato empregada. É uma gota num oceano de abandono.

Mais recentemente, a PBH anunciou um piloto do projeto Moradia Cidadã. A proposta é correta: garantir moradia antes de cobrar a reabilitação. Mas o piloto prevê apenas 100 vagas. Para 14 mil pessoas, é menos que um gesto simbólico — é um tapa na cara.

Há também o projeto de lei “De Volta para Minha Terra”, que pretende ajudar pessoas a retornarem às suas cidades de origem. É o velho “transporte de volta ao nada”, solução paliativa para esvaziar praças sem resolver o problema. Nem abrigo, nem saúde mental, nem renda: só um bilhete de partida.

A PBH também aderiu ao programa federal Ruas Visíveis, que reúne 11 ministérios. No papel, uma ação robusta. Na prática, ainda está no discurso. Até agora, nenhuma transformação visível chegou à Praça João Pessoa.

A CPI e o abismo orçamentário

A CPI da População de Rua da Câmara Municipal revelou o que qualquer cidadão já sabia: entre 2018 e 2022, a população em situação de rua aumentou 192%, enquanto os investimentos públicos cresceram apenas 41%. Ou seja: o problema avançou quase cinco vezes mais rápido que a resposta do poder público.

Enquanto isso, a cidade opera com menos de 2 mil vagas em abrigos, distribui pessoas em galpões improvisados e conta com apenas quatro equipes de Consultório de Rua para atender milhares de casos de saúde mental, dependência química e vulnerabilidade extrema.

A praça, neste momento, é muito mais que um espaço urbano degradado. É um termômetro da falência do planejamento, da ausência do Estado e do cinismo administrativo. O poder público anuncia projetos experimentais como se fossem planos estruturantes, enquanto ignora que a bomba social já explodiu.

Transformar esse símbolo do abandono em espaço de convivência exigiria ação em larga escala: mais vagas de acolhimento, mais equipes de saúde, mais moradias permanentes, mais fiscalização, mais presença institucional e menos desculpas.

Mas isso não está no horizonte. Está no chão da praça, entre colchões molhados, latas vazias e ferros arremessados.

Compartilhar matéria

Siga no

Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

Webstories

Mais de Entretenimento

Mais de Colunistas

CPI na coleira, Supremo no volante

A política do ruído em Minas

Outubro chegou cedo em Minas

A decisão foi revista. Mas a crise parece estar longe de acabar

Tarifa Zero: a conta que só troca de bolso

Tadeuzinho rumo ao TCE

Últimas notícias

Gustavo após semifinal: “Tenho certeza que o torcedor ficou orgulhoso do que fizemos”

Valentim exalta elenco após eliminação: “É um grupo de guerreiros”

EverSão: goleiro salva e Atlético está na final em busca do hepta do Mineiro

Ministério do Desenvolvimento Regional reconhece risco de rompimento da Barragem de Lages (MG)

Trump diz que 48 integrantes da cúpula iraniana morreram em ofensiva

Guerra no Oriente Médio tem mais bombardeios e mortes neste domingo

América x Atlético: acompanhe o clássico, ao vivo, pela Rede 98

Rússia alerta que fechamento do Estreito de Ormuz pode desequilibrar mercado de petróleo e gás

Trump diz que nova liderança do Irã quer negociar e confirma abertura ao diálogo