O conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e aliados já provoca impactos diretos no Líbano, com bombardeios, deslocamento de civis e aumento da pressão humanitária. Em entrevista à 98 News, direto de Beirute, a especialista em Direito Internacional e refugiados, Roberta Abdanur, relatou que os ataques se intensificaram nas últimas horas e já deixaram quase 200 mortos, além de milhares de deslocados internos.
Segundo ela, os bombardeios atingiram principalmente o subúrbio sul de Beirute, o sul do país e a região do Vale do Bekaa. “Quem sofre muito com isso são justamente os civis, que não têm nada a ver com o conflito”, afirmou. Roberta explicou que muitas famílias chegam aos abrigos “com a roupa do corpo”, enquanto outras dormem em carros, praças e estacionamentos.
De acordo com a especialista, mais de 50 cidades e municípios libaneses receberam alertas e foram alvo de ataques recentes. “Muitas pessoas ainda estão sob escombros. O número de mortes pode aumentar”, alertou. Parte da população do sul do país migra para Beirute ou para regiões consideradas mais seguras.
Apesar da tensão, Roberta destacou que o cenário varia dentro da própria capital. “Há regiões que estão seguras e seguem funcionando normalmente, embora com preocupação”, explicou, citando bairros onde a rotina foi parcialmente mantida.
Deslocamento interno e rotas de saída
No Líbano, a maior parte da movimentação é de deslocados internos, já que muitos permanecem dentro do próprio território. Pessoas com dupla cidadania, inclusive brasileira, têm buscado apoio em embaixadas. O espaço aéreo segue aberto, ainda que com interrupções pontuais.
Alguns civis têm deixado o país por via marítima, principalmente rumo à Turquia e ao Chipre. “Para sair de forma regular, é preciso documentação e autorização. No desespero, muitos acabam se tornando vulneráveis ao tráfico de pessoas”, afirmou.
Nas fronteiras entre Irã e Turquia, Roberta relata aumento no fluxo migratório. Organizações internacionais, como a agência da ONU para refugiados (ACNUR), atuam no acolhimento emergencial. Ainda assim, ela ressalta que o cenário é complexo e envolve riscos adicionais.
“Conflitos assim geram trauma, deslocamento forçado e também aumentam a exposição a redes ilegais de migração”, pontuou.
Violações e escalada
Roberta também chamou atenção para possíveis violações do direito internacional humanitário. “As violações são múltiplas e envolvem diferentes atores no conflito”, disse, ao mencionar responsabilidades compartilhadas entre governos envolvidos na escalada militar.
Com a possibilidade de o conflito se prolongar, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que a guerra pode durar até cinco semanas, o temor é de agravamento da crise humanitária e novos fluxos migratórios na região.
O Líbano, que já enfrenta crises econômicas e políticas sucessivas, volta a lidar com um cenário de instabilidade que atinge diretamente a população civil.
