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Eleições 2026: a dissimulação e os balões de ensaio

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(Foto: Marcelo Rabelo / CMBH | Gil Leonardi / Imprensa MG | Pedro Gontijo / Agência Senado )

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A política mineira entrou em 2026 como um jogo de truco jogado no balcão do bar. Todo mundo blefa, ninguém tem o zap e quase ninguém sabe quem vai pagar a conta quando a mão acabar. O problema é que, desta vez, a conta é alta e quem paga é o eleitor.

A troca no comando do União Brasil em Minas Gerais, com Rodrigo de Castro assumindo o lugar de Marcelo de Freitas, não foi uma simples mudança burocrática. Foi um movimento político com impacto direto na eleição de 2026. O União Brasil não é um partido qualquer no tabuleiro. Ele está federado com o PP, formando uma das federações mais relevantes do país. E, oficialmente, essa federação segue comprometida com o projeto de sucessão do governador Romeu Zema, cujo herdeiro político é Mateus Simões, agora filiado ao PSD.

Conversei com dirigentes nacionais do União Brasil e do PP. Todos foram claros: “Em Minas, nosso palanque é o de Mateus Simões”. O problema é que essa clareza nacional não se traduz, necessariamente, na prática estadual. E Minas já viu esse filme antes, sabe como começa e sabe, principalmente, como termina.

A dura lição de Márcio Lacerda

O exemplo é didático e recente. Márcio Lacerda, então no PSB, era tratado como candidato natural ao governo de Minas. Bastou um descompasso entre a executiva nacional e a estadual para que sua candidatura fosse retirada do páreo. Política federativa é exercício de composição e nem sempre o que um lado quer o outro aceita, ou deseja.

Hoje, a defesa mais enfática da candidatura de Mateus Simões dentro desse arranjo União–PP vem de Marcelo Aro, secretário de Governo de Minas e já em campanha aberta para o Senado. Aro é peça-chave desse desenho. Sem ele, a costura fica frouxa. Com ele, ainda assim, não está garantida. Porque a política não anda em linha reta, especialmente quando alguém decide mudar o trilho no meio do caminho.

E o trilho começa a ser deslocado por alguém que não se expõe claramente mas deseja ardentemente estar no jogo — o senador Rodrigo Pacheco.

Rodrigo de Castro trabalha abertamente para levar Pacheco ao União Brasil. Se essa filiação se concretizar, o eixo da conversa muda radicalmente. Diminui o leque de partidos de centro-direita e direita que Mateus Simões imaginava ter ao seu lado. A coalizão que parecia sólida passou a balançar. E abre-se uma janela política clara para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enxergue em Pacheco um candidato competitivo ao governo de Minas.

Há uma conversa marcada entre Lula e Pacheco. E Pacheco não é ingênuo. Ele quer garantias: estrutura, apoio político, desenho de campanha e protagonismo real. Não quer figurar em uma eleição perdida, nem ser linha auxiliar de um projeto improvisado. Se o Planalto oferecer essas garantias, Pacheco passa a considerar seriamente a hipótese de liderar uma candidatura de oposição ao projeto de continuidade do governo Zema.

O cenário, que já era confuso, entra então na fase dos balões de ensaio. E aí surge o nome de Jarbas Soares, ex-procurador-geral de Justiça, lançado informalmente como possível candidato ao governo.

Mas um balão só sobe com gás. E, conversando com os partidos políticos, a resposta é quase unânime: não existe legenda, hoje, disposta a abrigar uma candidatura de Jarbas Soares. Nenhuma trata isso como plano real. Nenhuma trabalha essa hipótese como viável.

Jarbas construiu um patrimônio institucional no Ministério Público. Foi liderança, teve protagonismo, ocupou cargo de relevo. Mas capital institucional não se converte automaticamente em capital eleitoral. Falta musculatura política, falta base, falta partido. E o tempo, que em política é ativo escasso, joga contra. Quanto mais ele passa, mais difícil é encontrar abrigo partidário. O balão sobe alguns metros no debate, mas não ganha altitude suficiente para virar candidatura.

O provável cenário

O desenho provisório de 2026 começa a ficar mais nítido, e curiosamente mais incerto.

Mateus Simões é o candidato ungido por Romeu Zema e corre o risco de ver sua base de centro-direita e direita balançar caso a federação União–PP seja tensionada pela entrada de Pacheco no União Brasil. 

Pacheco, por sua vez, espera o abraço de Lula. Se receber e confiar nesse abraço, pode se tornar o principal nome da oposição, tentando unir centro moderado e, com dificuldade, atrair uma esquerda que ainda é refratária ao seu nome.

No outro flanco, a saída do delegado Marcelo de Freitas do União Brasil e sua possível migração para o PL adiciona mais instabilidade. O PL pode não ter nome hoje para o governo de Minas, mas tem algo igualmente forte, sonho, tempo de TV e disposição para bagunçar o jogo.

Minas entra em 2026 como espelho do Brasil: federações tensionadas, lideranças testando limites, projetos improvisados e um eleitorado cada vez mais desconfiado. A eleição não será decidida por quem fala mais alto nos bastidores, nem por quem blefa melhor na mesa do truco.

O eleitor mineiro vai fazer a pergunta mais simples e mais cruel. Quem tem projeto, capacidade política e condições reais de governar Minas Gerais?

Neste momento, ao que tudo indica, ninguém consegue responder isso de forma direta. Ou porque falta projeto. Ou porque falta costura política para fazer o projeto sair do papel.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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