Debate é mais sobre o voto que se perde do que sobre o que se ganha. E, na atuação dos dois candidatos no encontro da Globo, apesar de ter sua apresentação suavizada, dois erros de Flávio Bolsonaro podem ter marcado a participação do senador. Na era das redes sociais, eles podem ser explorados pela equipe de campanha do presidente Lula na reta finalíssima da eleição.
O primeiro deles é o caso da pequena Ana Clara, de quem o senador não sabia nem o nome da mãe. Ele não conseguiu explicar a defesa que fez do policial acusado de matar a menina com um tiro de fuzil. Pareceu distante, insensível. Principalmente para um candidato que precisa criar conexão com as mulheres, com as mães. E fica pior ainda para um político que carrega um passado de defesa da milícia.
No outro, Flávio erra ao fazer uma piada com o fato de o presidente ter perdido um dedo e é obrigado a pedir desculpas. A resposta, carregada da indignação real de Lula, cria uma conexão com o eleitor, em especial com aquele que trabalha. Com aquele que sofre com condições de trabalho insalubres. O trabalhador menor de idade, forçado a trabalhar à noite, sem segurança. O brasileiro se identifica.
Mas isso significa que Flávio perdeu o debate? Não. Foi melhor em temas nos quais consegue se comunicar com as dores da população: na segurança pública, conseguiu falar com o brasileiro que trabalha o mês todo e perde o celular em um assalto. No endividamento, conversou com a dona de casa que não consegue encher o carrinho de supermercado. Falou melhor com as classes B e C, que querem empreender. Falou de futuro e de esperança.
Lula focou os mais pobres, das classes D e E. Passou grande parte do tempo defendendo ações de seu governo e falou muito pouco do que está por vir. Apesar de estar mais situado do que no debate da Band e de ter sido favorecido pelas regras mais rígidas da Globo, ainda ficou confuso com o tempo e os temas das perguntas. Foi mais uma vez prejudicado pela voz arrastada, rouca, e pela dicção ruim. A demora para responder e a necessidade de recorrer a suas anotações acabaram passando uma imagem de cansaço, que contrasta com a daquele senhor que dançava e pulava em carros de som nos eventos de rua de que participou.
Mas o objetivo importa muito. Quem mais precisava da vitória no debate era Lula. Então, resta saber como os deslizes de Flávio serão explorados, se vão atingir o eleitor fora da bolha da esquerda e se serão suficientes para levar Lula à vitória, já que ele precisa de uma virada muito difícil de conseguir.