Há absurdos que dispensam ironia, mas mesmo assim nos convidam a usá-la. A Polícia Civil de Minas Gerais abriu uma investigação, a pedido do Ministério Público, sobre o volume de prédios altos no Belvedere, bairro nobre de Belo Horizonte. A suspeita é de que a verticalização excessiva impede a circulação do ar e contribui para o aumento da temperatura na cidade.
A cena é patética e trágica. Depois de décadas sem um plano urbano consistente, a cidade decide tratar o calor como caso de polícia.
Uma verticalização com mais de 40 anos
O Belvedere começou a crescer no final dos anos 1970 e se verticalizou a partir de 1988. De lá para cá, tornou-se símbolo da expansão imobiliária de alto padrão e da lógica de adensamento que marcou o modelo urbano de Belo Horizonte, o mesmo modelo aprovado e licenciado pelo poder público.
Agora, quase quarenta anos depois, a polícia é chamada a “investigar o ar”. E é impossível não perguntar: o que pretende a Polícia Civil com essa apuração? Vai indiciar o vento por desacato à natureza? Chamar síndicos para depor sobre a direção das correntes de ar? Determinar a demolição das torres para resgatar o clima perdido?
Não há, evidentemente, crime algum a apurar. Há, sim, um problema urbanístico e ambiental, legítimo, complexo, e que exige políticas de mitigação: arborização, corredores verdes, revisão de zoneamentos, estímulo à construção sustentável. Mas isso é tarefa da Prefeitura, da Secretaria de Meio Ambiente, dos urbanistas, não da polícia.
O absurdo da deformação institucional
Transferir responsabilidades administrativas para o campo penal é um sintoma de deformação institucional. Quando o Estado não consegue planejar, fiscalizar e corrigir, ele criminaliza. Quando falta política pública, sobra inquérito.
E o resultado é o desvio de foco. A mesma cidade que investiga a direção do vento convive com alagamentos recorrentes, encostas sem contenção, árvores caindo, falta de manutenção urbana e insegurança pública crescente.
Libertem o vento!
Enquanto o Belvedere é “investigado” por esquentar o clima, a própria capital parece esfriar no senso de prioridade. O calor que sentimos vem menos do sol e mais da inércia.
O vento, afinal, sempre foi livre. O problema é quando a burocracia tenta prendê-lo em um boletim de ocorrência.
