Há momentos na vida pública em que o silêncio fala mais alto do que qualquer discurso. No caso do roubo dos benefícios do INSS, esse silêncio tem nome, endereço e consequência: o governo sabia, foi alertado e, ainda assim, nada fez. A cada nova revelação, a teia que envolve órgãos centrais do Executivo vai se tornando mais evidente, mais constrangedora e mais revoltante. O povo brasileiro, especialmente o aposentado que conta centavos no fim do mês, merece uma verdade que até agora o governo teima em não dizer.
O coração do governo ferido
Segundo revelou o Estadão, a Advocacia-Geral da União, chefiada por Jorge Messias, o chamado “Bessias”, foi formalmente alertada sobre irregularidades envolvendo o sindicato ligado ao irmão do presidente Lula. A AGU sabia que havia um problema grave no sistema de descontos em benefício previdenciário. Sabia que algo cheirava mal. Sabia que as autorizações eram suspeitas, que o volume de reclamações crescia, que a estrutura usada por sindicatos e entidades tinha brechas. E, mesmo assim, não moveu uma palha para impedir que milhares de aposentados continuassem sendo descontados sem autorização real. Tecnicamente, o governo foi avisado. Politicamente, escolheu ignorar.
Não existe explicação aceitável para isso. Quando o órgão máximo da defesa jurídica da União recebe um alerta, o mínimo que deveria fazer é suspender imediatamente os descontos, auditar os convênios e proteger o cidadão. Não protegeram. Não investigaram. Não interromperam. O resultado está aí: um dos maiores roubos já cometidos contra aposentados no Brasil, com valores chegando a milhões por mês. É dinheiro de gente que recebe salário mínimo, de quem depende da previdência para comprar remédio, pagar o gás, encher a geladeira. Não estamos falando de um escândalo abstrato, estamos falando de vidas atingidas.
O governo tenta se esconder atrás de uma frase burocrática: “agimos conforme os encaminhamentos técnicos”. Mas toda vez que um governo usa a palavra “técnico” como escudo, é porque não quer admitir o óbvio, faltou ação, faltou comando, faltou responsabilidade. É tão simples quanto isso. Quando um incêndio começa, não se espera o laudo do perito para apagar o fogo. E o que a AGU fez? Assistiu o fogo subir. Ou, pior, fingiu que não havia fumaça.
O INSS, por sua vez, abriu a porta para o desastre. O sistema que deveria validar autorizações nunca funcionou de forma segura. Era possível autorizar descontos sem assinatura, sem biometria, sem verificação robusta. Para completar, sindicatos e associações tinham acesso privilegiado à base de dados, e o governo mantinha convênios frouxos, sem auditoria periódica. A soma disso tudo é uma equação simples, quando o Estado abre a janela, o ladrão entra. E o ladrão entrou pela porta da frente, com crachá e tudo.
A verdade é que o governo Lula tentou tratar o caso como uma “irregularidade administrativa”, um problema secundário, um tropeço pontual. Mas o que se revela agora é bem mais grave. A AGU, que tinha obrigação de agir, foi alertada e ignorou. Isso ultrapassa erro técnico. Entra no campo da responsabilidade política e moral. É a linha que separa a gestão da omissão, e a omissão da conivência.
É impossível não notar a ironia cruel desse episódio. O governo que se apresenta como defensor dos pobres permitiu, por negligência, por descuido ou por conveniência, que exatamente os mais pobres fossem saqueados. É o Estado falhando no dever mais básico, proteger o cidadão comum. Quando o Estado vira cúmplice, o trabalhador vira presa. E quando isso acontece, não há narrativa social que conserte o estrago.
Não há mais desculpa aceitável. Não há mais manobra semântica que esconda a responsabilidade. Não basta dizer que “investigações estão em curso”. Investigações só começaram porque a bomba explodiu, e explodiu porque o governo fechou os olhos enquanto ela era montada. É assim que o poder público, quando omisso, se torna parte do crime.
O país precisa de respostas claras: por que os alertas foram ignorados? Quem decidiu não agir? Por que sindicatos com ligações políticas tiveram passe livre dentro do sistema? Quem ganhou com isso? E, principalmente, quem vai devolver dignidade aos aposentados que foram roubados?
Esse escândalo não é apenas sobre dinheiro. É sobre confiabilidade institucional. É sobre a obrigação moral de quem governa. É sobre o pacto mínimo entre Estado e sociedade. A cada dia que passa, a cada nova revelação, fica mais evidente que esse pacto foi quebrado, e quebrado pelo próprio governo que jurou protegê-lo.
Se o governo não enfrentá-lo com transparência plena, com responsabilização real e com mudança estrutural profunda, o roubo do INSS será lembrado não como um escândalo isolado, mas como o episódio que mostrou, de forma crua, que a omissão em Brasília tornou-se tão nociva quanto a corrupção. E isso, infelizmente, o país conhece bem demais.
