Belo Horizonte tem uma capacidade quase artística de transformar obra pública em enredo de novela ruim. Muda o capítulo, muda o prefeito, muda a promessa, mas o roteiro é sempre o mesmo. Anúncio com pompa, placa no canteiro, discurso sobre mobilidade, trânsito infernal para o cidadão e, depois, silêncio. Muito silêncio.
Agora, o caso é o viaduto da Raja Gabaglia, no entorno do BH Shopping, sobre a BR-356. Uma obra vendida como solução para aliviar um dos gargalos mais evidentes da cidade. Um ponto onde Belo Horizonte, Nova Lima, Belvedere, Vale do Sereno, BR-356 e Raja Gabaglia se encontram diariamente num abraço de lata, buzina, estresse e improdutividade.
A intervenção previa o alargamento do viaduto existente, criando mais capacidade de tráfego no sentido Belvedere–Santa Lúcia. A própria Prefeitura apresentou a obra como parte de um pacote de mobilidade para a região. A licitação aparece no portal da PBH como concorrência homologada, com valor estimado de R$25,5 milhões, para obras de melhoria viária na interseção da MGC-356 com a avenida Raja Gabaglia, no trevo do BH Shopping.
Até aí, tudo bonito no papel. O problema é que a cidade não anda em planilha. A cidade anda em obra executada, prazo cumprido, contrato fiscalizado e dinheiro público respeitado.
E o que se vê hoje é uma obra parada, um canteiro esvaziado, uma população irritada e uma sequência de perguntas que a Prefeitura de Belo Horizonte precisa responder com documento, não com nota genérica.
Quem ganhou a licitação abandonou a obra
O consórcio que venceu a licitação abandonou o canteiro. A Prefeitura, por sua vez, abriu processo administrativo sancionador para apurar possíveis descumprimentos contratuais do consórcio responsável pelas obras. O consórcio vencedor é formado pelas empresas Poros e RFJ, que de acordo com especialistas ouvidos por essa coluna não tem capacidade operacional para a realização daquela obra.
Mais grave. A reportagem da Rede 98 noticiou que a PBH multou o consórcio responsável pela obra, apontando atrasos, falhas no canteiro, descumprimento de normas de segurança do trabalho, execução de serviços sem as devidas autorizações técnicas e ambientais, além de problemas relacionados à qualificação técnica do responsável pela obra.
Isso não é detalhe burocrático
Quando uma obra pública dessa importância emperra, não estamos falando apenas de concreto, ferragem e cronograma. Estamos falando de dinheiro público, mobilidade urbana, segurança, planejamento e credibilidade institucional. Cada dia de obra parada custa. Custa no bolso, custa no tempo, custa na confiança do cidadão.
E há uma pergunta incômoda que precisa ser feita. Onde estavam os mecanismos de controle antes de a obra chegar a esse ponto?
A Sudecap fiscalizou adequadamente? A Secretaria Municipal de Obras acompanhou o cronograma? A Prefeitura conferiu a capacidade técnica, financeira e operacional das empresas contratadas? Os documentos de habilitação foram analisados com o rigor necessário? As denúncias de vícios na licitação foram respondidas? Os questionamentos feitos à administração municipal receberam resposta completa? Ou BH está diante de mais uma obra em que a administração só descobre o problema quando o problema já virou paisagem?
O Ministério Público de Minas Gerais já havia recomendado, em junho de 2025, a suspensão de contratos e serviços relacionados às obras no trevo do BH Shopping até que fosse demonstrada a submissão do projeto a processo específico de licenciamento. O MPMG também apontou representações sobre falta de divulgação e opacidade procedimental nas intervenções viárias pretendidas.
A obra não nasceu em céu de brigadeiro. Ela nasceu cercada de dúvidas. E dúvida, em obra pública, não pode ser empurrada para debaixo do tapume.
Onde estão os vereadores de Belo Horizonte?
Nesse episódio trágico para a cidade há outro silêncio ainda mais constrangedor. O silêncio político.
Fiscalizar o Executivo não é favor. É obrigação constitucional, institucional e moral. Vereador não existe apenas para nomear rua, fazer moção de aplauso e aparecer em rede social ao lado de obra pronta. Vereador existe, sobretudo, para perguntar onde está o dinheiro, quem assinou o contrato, quem fiscalizou a execução, quem autorizou a medição, quem deixou atrasar e quem será responsabilizado.
A Câmara Municipal precisa sair da plateia.
É preciso convocar secretários, dirigentes da Sudecap, responsáveis pelo contrato, representantes do consórcio, técnicos da Prefeitura e órgãos de controle. É preciso abrir audiência pública, requisitar documentos, conferir o processo licitatório, examinar pareceres jurídicos, estudos técnicos, medições, pagamentos realizados, notificações, multas, recursos administrativos, licenças, autorizações ambientais, ARTs, relatórios de fiscalização e o diário de obras.
A cidade precisa saber quanto já foi pago, quanto ainda falta pagar, qual o percentual físico executado, qual o atraso real, quais sanções foram aplicadas, se haverá rescisão, se a segunda colocada será chamada, qual será o novo cronograma e quem responderá pelo prejuízo.
Não basta dizer que “a Prefeitura está apurando”. Apuração sem transparência vira cortina de fumaça. Processo administrativo sem publicidade vira gaveta. Multa sem valor divulgado vira manchete pela metade.
Belo Horizonte não pode aceitar a cultura do “depois a gente vê”. A cidade já vê demais: vê trânsito parado, vê obra atrasada, vê promessa reciclada, vê licitação contestada, vê o cidadão pagando a conta e vê pouca gente explicando o que aconteceu.
E como é que fica a obra?
O trevo do BH Shopping não é uma obra qualquer. É um nó urbano estratégico, no limite entre Belo Horizonte e Nova Lima, numa região que cresceu muito mais rápido do que a infraestrutura pública conseguiu acompanhar. A solução ali exige planejamento, engenharia, licenciamento, execução e fiscalização. Não exige improviso. Não exige desculpa. Não exige empurra-empurra.
E aqui é preciso ser direto: obra pública parada é retrato de governo que falhou em algum ponto. Pode ter falhado no projeto, na licitação, na contratação, na fiscalização, na execução ou na comunicação. Mas falhou.
Agora, a Prefeitura tem a obrigação de entregar respostas. E a Câmara tem a obrigação de arrancá-las, se elas não vierem espontaneamente.
Belo Horizonte não precisa de mais tapumes. Precisa de transparência. Não precisa de mais promessas. Precisa de cronograma.
Não precisa de mais nota oficial. Precisa de documento.
E, principalmente, não precisa de vereador contemplativo, olhando a cidade pelo vidro escuro do gabinete. Precisa de fiscalização real, dura, técnica e pública.
Porque o cidadão que passa todos os dias pela Raja Gabaglia e pela BR-356 não está interessado em desculpa administrativa. Ele quer saber por que a obra parou, quem errou, quanto custou e quando termina.
E ele tem razão.
Quando uma obra pública vira mistério, o poder público deve satisfações. Quando uma licitação é cercada de questionamentos, a transparência não é gentileza: é dever. Quando uma construtora abandona ou não entrega aquilo que prometeu, a Prefeitura não pode agir como se tivesse sido apenas surpreendida pelo destino.
Obra pública não é aposta. Contrato público não é bilhete de loteria. E fiscalização não pode ser decoração institucional.
No viaduto da Raja Gabaglia, a cidade pede passagem.
Mas, antes, ela quer explicação.
