A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) deve reconhecer oficialmente que a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek teve motivação política e ligação com a ditadura militar. A conclusão aparece em um novo relatório elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, responsável pelo caso dentro da comissão. As informações foram divulgadas pela Folha de S. Paulo.
O documento está sendo analisado pelos integrantes do colegiado e ainda será votado, mas, há maioria favorável à aprovação do parecer. O material reúne milhares de páginas com documentos, laudos, estudos técnicos e investigações produzidas ao longo das últimas décadas sobre a morte do ex-presidente, ocorrida em 1976.
Até hoje, a versão oficial sustentada pelo regime militar apontava que JK morreu em um acidente na Via Dutra, no Rio de Janeiro. O carro em que ele estava atravessou o canteiro central da rodovia após perder o controle e acabou atingido por uma carreta que seguia na pista contrária. O motorista Geraldo Ribeiro, amigo do ex-presidente, também morreu na colisão.
A nova análise da comissão, porém, considera frágeis as investigações conduzidas durante a ditadura e questiona diretamente a tese de acidente. O relatório se apoia em estudos mais recentes que colocam em dúvida a narrativa de que um ônibus da Viação Cometa teria tocado no Opala de JK antes da tragédia.
Uma das principais bases do parecer é um inquérito do Ministério Público Federal concluído em 2019. Na investigação, especialistas revisaram perícias antigas e apontaram inconsistências técnicas nos laudos produzidos na época. Entre eles está o engenheiro Sergio Ejzenberg, que utilizou simulações digitais e concluiu que não existem elementos que comprovem a colisão entre o ônibus e o veículo do ex-presidente.
Apesar de o MPF não ter afirmado categoricamente que houve atentado, os procuradores destacaram falhas consideradas graves na apuração original, incluindo lacunas periciais e ausência de exames toxicológicos mais detalhados no motorista do carro.
O relatório da CEMDP também leva em conta o contexto político vivido por Juscelino Kubitschek nos anos seguintes ao golpe militar de 1964. Cassado pelo regime e impedido de disputar eleições, JK se tornou um dos principais nomes civis de oposição aos militares e participou da Frente Ampla, movimento político contrário à ditadura.
O texto ainda menciona documentos relacionados à Operação Condor, articulação entre governos militares da América do Sul para perseguir adversários políticos. Em registros da repressão, o nome de JK aparece entre lideranças vistas como ameaça aos regimes da região.
Se o parecer for aprovado, a comissão poderá reconhecer oficialmente que a morte do ex-presidente foi resultado de perseguição política promovida pelo Estado brasileiro. A decisão também pode alterar a certidão de óbito de JK e de Geraldo Ribeiro, incluindo o entendimento de que ambos morreram em decorrência de ação ligada à repressão do período militar.
