Um “imbróglio” sabor progressista. A esquerda mineira conseguiu uma proeza que merece registro. Criou uma federação para agir unida e, na primeira grande decisão eleitoral, resolveu apoiar dois candidatos diferentes ao governo de Minas.
Não é piada. É o “puro suco” com sabor estranho da política mineira em 2026.
A Federação PSOL-Rede decidiu nesta segunda-feira, 10 de agosto, por quatro votos a três, apoiar Alexandre Kalil, candidato do PDT ao governo de Minas. A Rede votou com Kalil. O PSOL queria Patrus Ananias, do PT. Perdeu a votação.
Até aí, democracia. Vota-se. Ganha quem tem maioria. Quem perde aceita o resultado. Seria simples demais.
O PSOL resolveu recorrer à direção nacional da própria federação tentando derrubar a decisão tomada em Minas. Segundo apuração da Rede 98, existe a expectativa de que a instância nacional acolha o recurso e determine apoio a Patrus Ananias.
Houve votação, mas talvez o resultado só valha se Brasília gostar dele. É uma maneira bastante original de compreender a democracia interna.
E aqui pouco importa discutir se o recurso é permitido pelo estatuto. Provavelmente existem mecanismos partidários para revisão de decisões. O problema que interessa ao eleitor é político.
Que federação é essa?
A legislação criou as federações para que partidos diferentes atuassem politicamente como uma única agremiação. O próprio Tribunal Superior Eleitoral explica que elas funcionam, na prática, como uma só legenda, embora seus integrantes mantenham identidade e autonomia.
Pois em Minas temos uma federação que conseguiu transformar o conceito de unidade em exercício de contorcionismo.
A federação apoia Kalil. O PSOL pode continuar declarando apoio a Patrus. E, ao mesmo tempo, o PSOL tenta fazer a direção nacional da federação anular o apoio dado a Kalil.
É quase um casamento em que marido e mulher moram juntos, fazem declaração conjunta de Imposto de Renda, mas comparecem à festa cada um com um namorado.
Politicamente, é uma bagunça.
Kalil ou Patrus?
Por trás da confusão existe uma divergência real.
A Rede enxerga em Alexandre Kalil uma candidatura mais competitiva, com capacidade de conversar não apenas com a esquerda, mas também com setores de centro. A resolução aprovada pela federação sustenta justamente que Kalil teria condições de construir esse diálogo mais amplo.
O PSOL prefere Patrus Ananias. Patrus possui identidade histórica com a esquerda, trajetória no PT e um perfil político muito mais próximo da tradição ideológica do PSOL do que Kalil. Portanto, a divergência é legítima.
O que não parece legítimo politicamente é vender unidade ao eleitor enquanto cada metade da federação procura um palanque diferente.
E o episódio fica ainda mais curioso porque uma das principais exigências do PSOL-Rede nas negociações com o PT já foi atendida. Áurea Carolina conseguiu espaço na composição para o Senado. O PT confirmou Áurea como segunda candidata ao Senado ao lado de Marília Campos, enquanto o PSB ficou com a vice de Patrus, ocupada por Jarbas Soares.
Portanto, depois de semanas negociando unidade da esquerda, distribuindo espaços e acomodando candidaturas, a esquerda conseguiu acertar praticamente tudo. Menos um pequeno detalhe:
Em jogo “apenas” o cargo de governador
Vale lembrar que o cargo de governador é apenas o cargo mais importante da eleição estadual, por isso essa confusão revela uma doença mais profunda da política mineira de 2026.
Os partidos parecem chegar à eleição antes dos projetos. Primeiro procuram vaga, depois escolhem aliados, em seguida escolhem quem será o candidato ao Senado, depois negociam o vice.
Daí calculam fundo eleitoral, tempo de televisão, nominata de deputado e conveniência nacional. E, em algum momento, talvez alguém se lembre de perguntar:
“Aliás, qual é mesmo o projeto para Minas Gerais?”
Um caso revelador
O caso PSOL-Rede é especialmente simbólico porque a esquerda passou meses reclamando da fragmentação do campo progressista no Estado. E está correta.
Com Patrus Ananias e Alexandre Kalil concorrendo ao mesmo eleitorado em algumas faixas, existe evidente disputa dentro do campo de oposição ao atual governo mineiro.
Mas reclamar da fragmentação enquanto se produz mais fragmentação é como tentar apagar incêndio com lança-chamas.
A própria resolução da Federação PSOL-Rede criticou a falta de uma discussão mais ampla entre as forças progressistas para a construção de uma candidatura única.
Perfeito. O diagnóstico está correto. O paciente é que não quis tomar o remédio.
Brasília vai decidir Minas?
Existe ainda outro aspecto incômodo.
Se a direção nacional modificar a decisão tomada por quatro votos a três em Minas, ficará a impressão de que os dirigentes estaduais podem reunir, discutir e votar à vontade.
Desde que escolham aquilo que Brasília deseja. Esse problema não pertence apenas à esquerda.
Partidos brasileiros de praticamente todas as tendências transformaram suas direções nacionais em verdadeiros tribunais de última instância das eleições estaduais.
Acontece na direita, no centro e na esquerda.
Minas negocia. Brasília veta. Minas escolhe. Brasília reconsidera. Minas monta uma chapa. Brasília desmonta.
Depois, os mesmos partidos aparecem diante das câmeras falando em respeito ao federalismo.
É irresistivelmente engraçado. Se não fosse trágico.
A esquerda que decida primeiro consigo mesma
Kalil tem todo direito de disputar o governo. Patrus também.
A Rede tem direito de preferir Kalil. O PSOL tem direito de considerar Patrus melhor.
O que não dá é apresentar ao eleitor uma federação que formalmente precisa funcionar unida, politicamente vota por um candidato e internamente mantém parte de seus integrantes em campanha pelo adversário.
Isso não é pluralidade. É desorganização. Pluralidade é discutir antes de decidir, depois da decisão, chama-se responsabilidade política.
A esquerda mineira quer convencer o eleitor de que possui capacidade para administrar um Estado com mais de 20 milhões de habitantes, centenas de milhares de servidores, orçamento bilionário, dívida gigantesca e 853 municípios.
Talvez fosse recomendável começar demonstrando capacidade para administrar uma reunião de sete votos.
Porque o placar foi quatro a três. Mas, pelo jeito, ninguém sabe ainda quem ganhou.
E uma força política que não consegue decidir sequer quem apoia para governador terá enorme dificuldade para explicar ao mineiro por que acredita estar pronta para governar Minas.
