Olha que curioso, e revelador é o funcionamento da política brasileira.
O eleitor mineiro vota em Minas. O candidato mineiro pede voto em Minas. Os partidos mantêm diretórios no estado, realizam reuniões, convocam convenções, negociam alianças, escolhem candidatos e montam chapas.
Tudo muito estadual. Até Brasília pegar o telefone.
Ou, neste caso, até começar uma briga em Pernambuco.
O PSB nacional, presidido por João Campos, pressiona o PSOL para retirar a candidatura de Ivan Moraes ao governo pernambucano. O motivo é eleitoralmente compreensível. Campos quer concentrar forças contra a governadora Raquel Lyra e evitar a dispersão de votos no seu campo político.
O estranho vem depois
Para conseguir a desistência de Ivan Moraes, o PSB ameaça rever apoios ao PSOL em outros estados. Minas Gerais está no pacote. E uma das candidaturas que podem sentir o efeito dessa guerra travada a mais de dois mil quilômetros daqui é a de Áurea Carolina ao Senado.
É uma espécie de federalismo eleitoral às avessas. Pernambuco cria o problema, Brasília negocia a solução e Minas pode receber a fatura.
Áurea Carolina é candidata em Minas. Patrus Ananias disputa o governo de Minas. O PSB mineiro integra a chapa de Patrus com Jarbas Soares na vice.
Nada disso, aparentemente, impede que a composição mineira seja utilizada como ficha de negociação numa disputa pernambucana.
Isso não é uma exceção
Há poucos dias, a Federação PSOL-Rede em Minas decidiu, por maioria, apoiar Alexandre Kalil. O PSOL mineiro recorreu. A direção nacional entrou em campo e anulou a decisão estadual, levando a federação para o apoio a Patrus Ananias.
Pode-se concordar com Patrus. Pode-se preferir Kalil. Isso é outra discussão. A questão aqui é institucional.
Se existe uma direção estadual, se ela reúne, debate e vota, qual é exatamente o valor dessa decisão quando a instância nacional pode simplesmente substituí-la?
O caso MDB/PSB
Newton Cardoso Júnior, presidente do MDB mineiro, revelou em engtrevista que o PSB de Minas havia praticamente fechado internamente uma caminhada com Gabriel Azevedo para o governo. Segundo Newton, havia inclusive posição favorável do senador Rodrigo Pacheco.
A solução mineira foi outra. O PSB terminou na chapa de Patrus Ananias, indicando Jarbas Soares para vice. Newton resumiu o processo com uma palavra pouco elegante, porém bastante expressiva: o partido teria sido “entubado” no acordo com o PT, numa decisão de cima para baixo.
É fácil culpar Brasília
Difícil é perguntar por que Brasília consegue fazer isso com tanta facilidade em Minas Gerais.
E minha impressão é que parte da resposta está na perda de peso político do próprio estado.
Minas já teve lideranças capazes não apenas de participar das decisões nacionais, mas de moldá-las.
Políticos mineiros comandavam partidos, articulavam maiorias, construíam candidaturas presidenciais, ocupavam o centro das negociações nacionais e, sobretudo, tinham autoridade para dizer às executivas partidárias:
“Em Minas, a conversa é diferente.”
O duro silêncio mineiro
Hoje essa voz está muito mais baixa.
Existem bons quadros políticos no estado, naturalmente. O problema é a escassez de lideranças com musculatura nacional suficiente para enfrentar a estrutura centralizada dos partidos.
E política, como a natureza, não gosta de espaço vazio. Quando o poder regional enfraquece, o poder central ocupa.
Quando ninguém bate na mesa em Belo Horizonte, alguém bate na mesa em Brasília.
O resultado é esse espetáculo curioso em que diretórios estaduais negociam durante meses até descobrirem que a negociação verdadeira estava acontecendo em outro CEP.
Partidos nacionais precisam, evidentemente, de estratégia nacional.
Não faria sentido cada estado funcionar como uma república independente. Existem projetos presidenciais, alianças nacionais e interesses partidários legítimos que precisam ser coordenados. Mas coordenação não é tutela.
E existe uma diferença enorme entre construir uma estratégia nacional ouvindo os estados e simplesmente utilizar os estados como peças intercambiáveis num tabuleiro eleitoral.
Minas possui 21 milhões de habitantes e o segundo maior eleitorado brasileiro. Não deveria ser moeda de compensação para resolver impasse eleitoral de Pernambuco, do Rio Grande do Sul, de Brasília ou de qualquer outro lugar.
Também não deveria assistir passivamente a decisões construídas dentro do estado serem desmontadas por conveniência das cúpulas partidárias.
Mas é preciso reconhecer a parte mineira da responsabilidade. Tutela prospera onde encontra pouca resistência.
Enquanto Minas não reconstruir lideranças políticas capazes de falar nacionalmente em nome dos seus projetos, e serem ouvidas, continuaremos assistindo a esse curioso modelo de federalismo partidário.
Minas escolhe os candidatos, organiza os partidos e constrói as alianças.
Depois Brasília informa quais delas continuam valendo.
No fim, sobra uma pergunta bastante simples.
Se Recife briga, Brasília negocia e Belo Horizonte obedece, para que servem os diretórios estaduais?
Talvez a resposta seja desconfortável.
Serviriam para muita coisa. Desde que Minas voltasse a ter força política suficiente para fazê-los ser respeitados.
