O estado do Ceará deverá receber a primeira fábrica do mundo dedicada ao processamento em larga escala de pele de tilápia para uso médico. A unidade será construída em Jaguaribara, no interior do estado, com investimento inicial previsto de R$ 52 milhões.
A tecnologia foi desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade Federal do Ceará (UFC) e transforma a pele do peixe, normalmente descartada pela indústria, em um curativo biológico para queimaduras e feridas de difícil cicatrização.
O projeto será conduzido pelo Consórcio Biotec, por meio da Inova Medical. A expectativa é ampliar a produção do material, que atualmente é processado em pequena escala para pesquisas e aplicações específicas.
Jaguaribara foi escolhida pela proximidade com o Açude Castanhão, uma das principais regiões produtoras de tilápia do Ceará.
Produção poderá chegar a 12 mil peles por dia
O laboratório da UFC consegue preparar atualmente cerca de 600 peles de tilápia por mês. Na nova fábrica, a previsão é atingir 4,3 mil unidades por dia no primeiro ano de operação comercial.
Em uma segunda etapa, a capacidade poderá chegar a 12 mil peles por dia.
A construção da unidade deve começar em outubro deste ano. O cronograma prevê de 15 a 18 meses para as obras, instalação dos equipamentos e validação dos primeiros lotes.
Se o planejamento for mantido, a operação poderá começar em janeiro de 2028. A comercialização do produto ainda dependerá do cumprimento das exigências regulatórias e sanitárias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Como funciona o curativo de pele de tilápia
A pele do peixe passa por processos de preparação e esterilização antes de ser transformada em um curativo biológico. O material pode ser aplicado diretamente sobre a área lesionada e aderir à superfície da ferida.
A tecnologia pode ser utilizada no tratamento de queimaduras de segundo e terceiro graus.
Uma das principais diferenças em relação ao tratamento convencional é a possibilidade de reduzir a frequência das trocas de curativo. Em casos de queimaduras graves, a substituição pode provocar dor e exigir o uso de analgésicos e novos procedimentos.
Segundo dados apresentados pela empresa responsável pelo projeto, a tecnologia pode reduzir em 52% o custo total do tratamento de queimaduras em comparação com métodos convencionais.
Também há expectativa de reduzir o uso de analgésicos opioides e a necessidade de levar pacientes repetidamente ao centro cirúrgico para a troca dos curativos.
A produção em escala industrial poderá ampliar o acesso à tecnologia e atender parte da demanda do Sistema Único de Saúde (SUS).
Material poderá ser armazenado por até três anos
A nova fábrica pretende utilizar a liofilização para conservar a pele processada. A técnica retira a água do material e permite o armazenamento sem refrigeração.
A previsão é que o curativo tenha validade de até três anos em temperatura ambiente. Antes da aplicação, o profissional de saúde deverá reidratar o material com soro fisiológico.
A tecnologia pode facilitar o armazenamento e o transporte dos curativos, principalmente para regiões distantes dos centros de produção.
